'Nosso maior déficit é de credibilidade'

Primeiro-ministro da Grécia admite erros cometidos pelo país, mas também diz que União Europeia foi negligente no seu papel

23 de fevereiro de 2010 | 07h57

O primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, falou sobre corrupção massiva, evasão fiscal desenfreada e os esforços para trazer o país de volta aos trilhos. A Grécia está mergulhada numa enorme dívida fiscal e a situação do país pôes em xeque a estabilidade do euro. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Senhor primeiro-ministro, o seu país danificou o euro e mergulhou a Europa numa grave crise. O quão ruins estão as coisas para a Grécia?

Nosso maior déficit não é financeiro, mas de credibilidade. Sabemos que estamos com enormes problemas e que somos os culpados por eles. Erros graves foram cometidos no passado. Mas os cidadãos nos deram um voto de confiança porque querem mudanças. Desejamos restaurar a fé na política colocando nossa casa em ordem.

A Grécia falsificou estatísticas durante anos para ocultar da Europa a enorme dívida do governo e o seu déficit orçamentário . Como isso foi possível e como ninguém percebeu?

Essa é uma boa pergunta e é o que estamos nos perguntando. Iniciamos uma investigação parlamentar nesse sentido. Ninguém poderia ter imaginado a dimensão desse ato.

Quem foi o responsável por isso? Foi realmente o ex-diretor do departamento nacional de estatísticas, que hoje todos responsabilizam? Ou há também responsabilidade do seu predecessor, Kostas Karamanlis?

Naturalmente, um simples funcionário do departamento de estatísticas não seria o único responsável. Ele foi nomeado pelo governo anterior. Mas não quero fazer nenhum julgamento antes das investigações.

O sr. acusou também a Comissão Europeia em Bruxelas de não ter prestado atenção no caso.

A União Europeia devia ter controlado com mais rigor, no passado, de modo a assegurar que o pacto firmado estava sendo realmente observado também por nós. No futuro, devemos dar ao departamento de estatísticas europeu acesso direto aos dados dos Estados-membros, individualmente. Propusemos isso, mas nem todos os países desejam tanta transparência.

O sr. está tentando responsabilizar a União Europeia para tirar se livrar de parte da responsabilidade?

Não é minha intenção. A União Europeia é extraordinária, mas é preciso analisar essa questão com cuidado para ver que o problema é também uma falha das instituições europeias. É parte da razão pela qual isso ocorreu na Grécia.

Muitos políticos europeus, como também a mídia europeia, têm criticado duramente o seu país. Alguns estão até sugerindo que a Grécia seja excluída da zona do euro.

Posso compreender parte dessas críticas. Mas precisamos ser prudentes para não entrar em debates emocionais artificiais, por meio da mídia. Por exemplo, recentemente muitos políticos têm falado em público que não vão socorrer a Grécia. Nós nunca pedimos ajuda financeira.

Mas o sr. entende que muitos alemães estão preocupados em ter de pagar pela falta de disciplina grega?

Posso entender os cidadãos alemães. Mas não estamos pedindo dinheiro para a Alemanha, mesmo que isso, às vezes, seja visto dessa maneira. Mas, como qualquer outro país, precisamos ser capazes de tomar empréstimos nos mercados em condições normais, e precisamos do apoio da União Europeia para conseguirmos isso. Se esses empréstimos continuarem muito caros, nossa economia não conseguirá operar e não poderemos levar a cabo nossas reformas.

O que o deixa tão confiante? Suas metas são ambiciosas. Nenhum país da zona do euro conseguiu alcançar algo comparável.

Não é verdade. A Alemanha tinha metas muito ambiciosas e conseguiu atingi-las.

Mas a Alemanha não teve de reduzir seu déficit de 12,7% para 3% do PIB num prazo de três anos.

De fato é uma meta difícil. Mas veja: se nosso país funcionasse bem, teríamos pouco espaço para cortes. No entanto, como há desperdício por todos os lados, poderemos economizar muito.

O sr. pode nos dar um exemplo?

Num estudo feito no ano passado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, os hospitais públicos da Grécia foram descritos como corruptos, concluindo que poderíamos economizar 30% dos custos, o que é uma porcentagem enorme. Por exemplo, na Alemanha, um stent custa cerca de US$ 500. Na Grécia, entre US$ 2.700 e US$ 3.400. O problema está na corrupção.

Por que o Estado grego funciona tão mal?

Infelizmente, a corrupção é generalizada nas agências do governo e nas empresas públicas. Nosso sistema político promoveu o nepotismo e o desperdício de dinheiro e isso corroeu nosso sistema legal e a confiança no funcionamento do Estado.

Em outras palavras, o sr. terá de refazer o país inteiro. Como?

Precisamos encarar esta crise como uma oportunidade para fazermos as reformas necessárias. Já adotamos decisões importantes. Por exemplo, vamos reduzir os salários dos funcionários públicos, elevar a idade para aposentadoria e aumentar o imposto sobre o combustível. Estamos planejando uma reforma fiscal que deve impor impostos mais altos para quem ganha mais.

Como o sr. pretende convencer os médicos milionários de Atenas a pagar impostos e parar de receber propinas - a chamada fakelaki - dos pacientes?

Já vi que você aprendeu a palavra. De fato, já investigamos esses médicos. Alguns deles declaram uma renda anual de apenas US$ 13 mil, o que é chocante. Eles podem aguardar inspeções sistemáticas no futuro.

Um outro problema é que um quarto de todos os empregados gregos trabalha para o governo. A máquina está inchada.

Na Grécia, o funcionalismo atende praticamente aos mesmos objetivos como na Alemanha. O que pode levar ao nepotismo. Alguém que se torna chefe de um departamento, ou um ministro que contrata pessoas que conhece ou que votaram nele. Precisamos reintroduzir o princípio da meritocracia. No futuro, o governo somente contratará pessoas que se submeteram a um exame rigoroso de admissão.

Ainda agrada ao sr. o fato de a Grécia estar na união monetária comum? Paul Krugman, Nobel de Economia, descreveu o euro como um erro.

O euro permitiu que nossas empresas conseguissem empréstimos baratos. O que nos ajudou a crescer 5%, Mas o euro também tem imperfeições, porque não temos uma política econômica verdadeiramente comum. Precisamos refletir a respeito do papel que a zona do euro deve ter no futuro. Mas em primeiro lugar precisamos resolver nosso problema.

Inconcebível pensar que o sr. pode deixar a união monetária.

Não pensamos nisso e nenhum parceiro sério da Europa pensa nisso.

O governo grego tem uma enorme tarefa pela frente. O sr. sente-se mais como Sísifo, rolando uma rocha para o topo da montanha, ou Hércules limpando as estrebarias?

Não me sinto como Sísifo. Não é a minha filosofia. Certamente é uma tarefa hercúlea. Mais do que tudo, o que me faz lembrar é da Odisseia. Segundo Homero, os viajantes iam se transformando durante sua difícil jornada - e nós também seremos pessoas diferentes quando chegarmos ao nosso destino. 

 

(Tradução de Terezinha Martino)

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