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Nosso mundo desnorteador

Em meio a tantos problemas, surge algo novo. Bob Dylan fica com Nobel de Literatura

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2016 | 04h00

A cada dia que passa o mundo se torna mais estranho. O rei Bhumbil da Tailândia morreu aos 83 anos, depois de 70 anos de governo. Durante grande parte desse período, o Exército esteve no comando direto da nação, como ocorre de novo hoje. Uma das suas biografias, escrita por um estrangeiro, é um tanto crítica. Mas aparentemente Bhumbil era adorado pela população e será velado por 100 dias. 

Líderes internacionais enviaram mensagens aclamando o seu governo. Seu único filho o substituirá, de acordo com o governo militar. Esse, pelo menos, é o plano atual. Seus três casamentos, e um quarto provável, o tornaram uma espécie de playboy, com aparentes vínculos com o ex-primeiro-ministro no exílio Thaksin. Portanto, a continuidade é um pouco incerta. 

No Brasil, João Doria tornou-se o primeiro prefeito de São Paulo a ser eleito no primeiro turno desde o início dos turnos eleitorais em 1992. Doria subiu rapidamente nas pesquisas no mês passado, de certo modo para consternação de José Serra, hoje ministro das Relações Exteriores, cujo candidato foi derrotado nas primárias do partido, e para crédito do governador Geraldo Alckmin.

Naturalmente, uma razão importante para Doria obter esse resultado inesperado foi a ausência de algum envolvimento político anterior, algo hoje amplamente preferido num Brasil pós-Lava Jato. A ocupação principal do novo prefeito é como empresário, com inúmeras atividades em seu grupo, fomentando relações com as principais empresas brasileiras. Durante algum tempo, ele também apresentou uma versão do famoso programa de Donald Trump, O Aprendiz. 

E, claro, temos a eleição presidencial nos EUA, onde Donald Trump tem se revelado um importuno perseguidor de mulheres. Algo que ele continua a negar – apesar de não ter se desculpado pelo incidente exibido em uma gravação. Trump agora ameaça processar o jornal The New York Times e prometendo revelar muito mais sobre o casal Clinton. 

Descartando os textos preparados com algum conteúdo, Trump retornou às suas teses populistas iniciais: freio nas importações, expulsão de imigrantes e construção de um muro pelo qual o México terá de pagar, prometendo criar 20 milhões de empregos por meio da redução dos impostos para os ricos, levando a um rápido crescimento econômico. Os números apresentados nunca foram coerentes, mas não importa. Os fatos são inconvenientes. A culpa, segundo ele, é da mídia, do FBI e de outros que o criticam. Esse compromisso mercantilista ameaça semear o caos em uma economia ainda em recuperação. 

No tocante à política externa, ele garante uma destruição rápida do Estado Islâmico e o fim de qualquer relacionamento existente envolvendo um comércio mais livre e o desarmamento nuclear. Somente Trump conseguirá firmar algum acordo melhor, mesmo com Putin, cujo apoio e uma aparente ajuda de hackers na internet, ele recebeu muito bem. 

Sua estratégia desfruta de um apoio entusiasmado de talvez 40% dos eleitores americanos. São mineiros, metalúrgicos, produtores de aço e outros produtos de consumo e intermediários que perderam para a concorrência estrangeira. Na maioria são brancos ainda descontentes com a eleição de um presidente negro que estão certos de que Obama nasceu no Quênia. 

Um mundo de tecnologia em constante transformação e um setor de manufatura que vem encolhendo deixou para atrás os menos capacitados. Que estão na busca inútil de um retorno a um passado melhor em vez de um futuro incerto. 

Infelizmente, problemas como mudança climática e produção alimentar, a preocupação com o aprimoramento do ensino, a redução no número de armas, melhor coordenação da economia mundial, evitar um retorno de uma guerra fria com a Rússia – para mencionar alguns – são marginalizados. 

A simplicidade domina. As campanhas eleitorais são ocasiões para mudanças políticas e uma eventual conciliação de opiniões contrárias. Em vez disso, elas têm reforçado uma crescente relutância no sentido de uma reconciliação, e não só nos EUA. 

Mas, em meio a todos esses problemas, algo novo surge de vez em quando. O prêmio Nobel de Literatura foi dado a Bob Dylan por suas inovações poéticas na música nos últimos 50 anos. Na década de 60, e posteriormente, ele foi artífice de um período espetacular de mudanças na música em todo o mundo. Ele é um dos meus favoritos. Talvez esteja aí uma maneira de sair do aparente impasse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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