Ministério da Produção da Argentina
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coluna

Fernanda Camargo: O insustentável custo de investir desconhecendo fatores ambientais

'Declarações do resto dos políticos e das classes empresariais também importa'

Ministro da Argentina cobra de outros atores ajuda para estabilizar a economia do país

Entrevista com

Dante Sica, ministro de Produção e do Emprego da Argentina

Luciana Dyniewicz, enviada especial, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 15h24

BUENOS AIRES - A vitória por 15 pontos porcentuais de diferença da chapa Alberto Fernández e Cristina Kirchner nas eleições primárias argentinas tem feito com que os empresários do país deixem “de prestar atenção” no governo de Mauricio Macri, segundo o ministro da Produção e do Emprego da Argentina, Dante Sica.

O economista admite que é responsabilidade da equipe econômica de Macri estabilizar a economia do país. Mas, dada essa falta de foco dos empresários no governo, ele cobra de outros atores medidas que ajudem a acalmar o mercado. “Porque quem paga a conta não é Fernandez nem Macri, mas o povo”, disse ao Estado.

Dante, que deve estar nesta sexta-feira, 6, no Rio para anunciar o acordo de livre-comércio entre Brasil e Argentina no setor automotivo, afirma ainda que o problema ambiental e as discussões entre o presidente Jair Bolsonaro e o francês Emmanuel Macron não devem afetar o acordo Mercosul-União Europeia. “Isso faz parte da discussão política. Se a França não protestasse contra o acordo, me preocuparia. Pensaria que talvez tivéssemos cedido muito nas negociações.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a situação financeira da Argentina?

As medidas que tomamos são excepcionais e até um pouco incômodas em relação ao que era nosso programa de governo. Mas são medidas temporárias por um caso de exceção. Tomamos essas medidas porque, depois das eleições primárias, o cenário mudou. Vínhamos com uma economia em que o risco país estava caindo, o dólar estável e a inflação indicava redução. Mas a eleição, a diferença de votos entre nós e a força opositora, mudou as condições. O mercado de crédito se fechou para nós. O risco país já não refletia a realidade da nossa economia, mas antecipava que Kirchner e Fernández pudessem ganhar as eleições. Isso fez o risco país aumentar.

Mas qual é a responsabilidade do governo nesse quadro?

Vínhamos ainda com uma economia frágil, superando a crise do ano passado, que teve (como fatores geradores) questões exógenas, como a seca e a fuga de capitais de países emergentes. Mas também cometemos erros. Talvez tenha havido certas inconsistências na política monetária e fiscal em 2016 e 2017. Apesar de a economia ter crescido (em 2017), (essas inconsistências) criaram uma situação macroeconômica mais fraca que em outros países. Mas, claramente, o que gerou a mudança das condições econômicas e essa situação de instabilidade foi o resultado eleitoral. Na sexta-feira (antes das primárias), o mercado dava probabilidade de 100% de que íamos ganhar. Na segunda, nos dava 0%. O mercado ajustou os preços dos ativos para o que se tinha no último período de gestão de Cristina Kirchner.

O Brasil passou por uma situação similar em 2002...

Era diferente. Quando Lula ganhou, Fernando Henrique Cardoso era presidente, mas não candidato.Isso permitia dar um sinal diferente. E, apesar disso, quando Lula ganhou, o risco país subiu e Lula teve de manter uma condução econômica muito ortodoxa. Hoje a condição é diferente, porque o presidente também é candidato. Estamos governando, colocando toda a atenção em dar os sinais de governabilidade até 10 de dezembro e não vamos, pelo processo eleitoral, rifar a economia nem deixar ao (presidente) que venha a economia como deixaram para nós, sem reservas...

Mas há semelhanças com o que Cristina Kirchner deixou. Vocês deixarão baixo nível de reservas, preços controlados artificialmente, controle no acesso ao câmbio...

Não é assim. A economia em 2015 estava devastada. O câmbio estava acima do seu patamar de mercado, tinha um controle no acesso ao câmbio monumental. Os importadores, para poder importar, tinham de exportar. Era preciso pedir autorização para comprar moeda estrangeira para viajar. Havia uma deterioração da infraestrutura muito forte. Hoje, a economia recuperou sua estrutura do fornecimento de energia. Temos um controle muito leve de câmbio comparado com aquela época. Vamos entregar a economia com reservas. Nos deixaram um déficit fiscal de quase 5% do PIB, sem acesso aos mercados internacionais. Nós estamos chegando a um equilíbrio do orçamento no fim do ano. Todas as condições são muito diferentes. Não estamos na situação que queríamos estar, mas claramente temos uma economia muito melhor do que nos entregaram em 2015.

Após as primárias, Fernández passou a ser visto como um presidente eleito, mas que ainda não pode comandar, e Macri quase como um ex-presidente. Qual o impacto para a economia?

Por isso foi importante o diálogo que o presidente mantém com os candidatos, em especial com Fernández. Há uma conversa fluida na medida em que é necessário para se ter uma estabilidade. O impacto na economia foi forte, porque o mercado, ao descontar antecipadamente o resultado da eleição de 27 de outubro, ajustou seus parâmetros na comparação com o que foi a experiência histórica do kirchnerismo. Estabilizar essa condição requer um compromisso maior de todos os atores. É nossa responsabilidade, mas muitos atores empresariais deixaram de prestar atenção em nós. Por isso é tão importante isolar a estabilidade de curto prazo da questão eleitoral, porque quem paga a conta não é Fernandez nem Macri, mas o povo. Essa instabilidade afeta o nível de preços e consequentemente a renda dos trabalhadores.

O governo não está perdido nas medidas que deve tomar? Não teria sido melhor anunciar o adiamento do pagamento da dívida após começar um controle no acesso ao câmbio? Qual é o plano?

Nosso plano é de estabilização. Temos três objetivos básicos para cumprir com as reservas internacionais: estabilizar o câmbio, garantir os depósitos (caso a população queira sacá-los dos bancos) e pagar a dívida. Para poder cumprir esses compromissos, tendo como restrição a quantidade de dólares, de alguma maneira tomamos medidas, insisto, temporárias. O que fizemos foi, no curto prazo, mudar o prazo de pagamento da dívida sem descontos no juros ou no total do capital devido. Não é que tomamos uma medida depois outra. Foi uma sequência, na qual primeiro demos o sinal de reprogramação da dívida...

Isso fez com que as pessoas fossem aos bancos sacar suas economias em dólares...

Em uma situação atípica como a que estamos vivendo, também importa muito as declarações de distintos atores políticos. Nós temos a responsabilidade primária porque somos os que têm de governar, pelo menos até 10 de dezembro. Agora, em um contexto eleitoral de incerteza política, as declarações do resto dos atores políticos e das classes empresariais também importa.

Se vocês ganharem as eleições, qual o programa para governar o país, que está em situação crítica?

Esperamos que o mercado se acalme um pouco, para, já no processo eleitoral, mostrar um programa de desenvolvimento produtivo para o próximo período. Vamos acelerar reformas estruturais, que vínhamos fazendo, mas que muita coisa não se concretizou. Lembre que o governo é atípico na história da Argentina: um governo não peronista, não radical (do partido União Cívica Radical), que vai terminar o mandato com minoria nas duas casas do parlamento. Nunca um governo teve mais debilidade institucional que este. Conseguimos aprovar muitas leis importantes, mas muitas não pudemos avançar. Vamos modernizar o sistema de relações trabalhistas para captar as novas formas de trabalho e continuar os processos de integração da economia.Avançamos em integração com o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, mas temos de continuar avançando. Ter uma integração maior com o Brasil e maior acesso aos mercados.

Os incêndios na Amazônia e a falta de prioridade do governo Bolsonaro para as questões ambientais põe em risco o acordo Mercosul-União Europeia?

Acredito que o Brasil vai cumprir com seu compromisso e está comprometido com a defesa do meio ambiente. Esse evento (os incêndios) gerou uma preocupação, mas não acho que terminará sendo um elemento que possa afetar o acordo.

Nem o embate entre Bolsonaro e o presidente da França, Emmanuel Macron?

Isso faz parte da discussão política. Se a França não protestasse contra o acordo, me preocuparia. Pensaria que talvez tivéssemos cedido muito nas negociações. Que a França esteja levantado a voz significa que a negociação foi muito equilibrada. Mas isso faz parte do diálogo e da discussão política. Não acho que coloca em perigo o acordo.

Voltando a 2020, como um governo vai administrar o país com poucas reservas e dívida alta?

Estamos discutindo com as forças de oposição para levar um projeto de lei ao Congresso para reprogramar a dívida que vence entre 2020 e 2023.

O governo pode reprogramar a dívida sem negociar no Congresso...

Mas a aprovação no Congresso dá mais segurança aos detentores de dívida e permite aliviar um pouco a carga desse governo ou do que venha (em 2020). Nesse sentido, há que continuar trabalhando na consolidação fiscal. Temos avançado muito, Conseguimos votar um orçamento equilibrado para este ano. Mas claramente esse impacto do processo eleitoral sobre o quadro macroeconômico fará com que enfrentemos dois ou três meses de inflação mais alta.

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