Nota mais baixa, custos mais altos

O rebaixamento da nota de risco de títulos do governo americano pela agência S&P adiciona um elemento dramático, mas não muda o roteiro da evolução da crise global. Esse roteiro já deixava claro que absorção da grande contração atualmente em curso, depois da explosão da grande bolha de crédito que começou a se formar há mais de duas décadas, cobraria um alto preço sob a forma de restrição ao crescimento econômico.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

É preciso entender que se esgotou - e de um modo traumático - o mais recente ciclo de expansão da economia mundial. Impulsionado por uma potente alavancagem financeira, ele produziu, além de teorias canhestras sobre as delícias da globalização, um superendividamento generalizado. Esse superendividamento, inicialmente privado, foi transferido aos governos, à moda do que ocorreu, ao longo do último terço do século passado, nas crises da dívida dos emergentes, em especial na América Latina.

A novidade dessa crise é o colapso das dívidas soberanas de economias maduras. A maior novidade dentro das novidades é que esse colapso, espantosamente, atingiu a dívida pública dos Estados Unidos. O rebaixamento dos títulos de longo prazo do governo americano é o ato simbólico de inscrição do mundo econômico num novo ciclo de mais incertezas, sem a existência de papéis totalmente "livres de risco" - aqueles que permanecem classificados como tal não oferecem liquidez suficiente para atender a todos na função de novo porto inteiramente seguro.

De todo modo, mesmo não mais "livres de riscos", os papéis do governo americano, muito provavelmente, continuarão demandados como um porto seguro possível - só que, agora, com a aceitação de menos qualidade.

Ainda que o rebaixamento dos títulos americanos venha a ter efeito limitado nos mercados, o impacto da redução para AA+ dos papéis de longo prazo do Tesouro provavelmente adicionará complicações para tirar a economia americana - e com ela o resto do mundo - do atoleiro. Trazer a dívida pública, hoje acima de 10% do total da produção, para um nível mais manejável, exigirá mais sacrifícios por tempo mais longo.

Em primeiro lugar porque as despesas com juros da dívida, que somam, atualmente, US$ 250 bilhões anuais, deverão se elevar, com o inevitável aumento dos custos de colocação dos títulos, alargando o déficit. Depois, com o rebaixamento dos títulos do governo, também deverão ser rebaixados outros papéis de empresas vinculadas a ele, caso, por exemplo, das financiadoras de hipotecas Fanny Mae e Freddie Mac. Assim, tenderão a aumentar mais ainda os cortes nos gastos públicos e os custos dos cruciais refinanciamentos de hipotecas. No fim dessa rodada de aumentos de custos, podem-se vislumbrar restrições ainda maiores à retomada do consumo e, por consequência, dos investimentos.

É COLUNISTA DO "ESTADO"

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