Dida Sampaio/Estadão - 23/7/2021
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Elena Landau
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Noticiário mostra que País segue firme na normalização da corrupção

O orçamento secreto é o ápice da prática da malandragem - e o recuo de Rosa Weber foi um balde de água gelada

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 04h00

Está precisando de R$ 3,6 milhões? Contrate uma empresa fantasma sem licitação. Preocupada em receber um cheque de R$ 89 mil na sua conta? Bobagem, ninguém liga. Rachadinhas estão liberadas, e o processo do tríplex prescreveu. Cabral começa a ver uma luz no fim do túnel.

Cunha é mais um a escrever suas memórias, de casa. Seguimos firmes na normalização da corrupção. Sejamos justos: não começou nem com o “petrolão” nem com a compra da vacina. É prática antiga.

Quando leio essas notícias, lembro de meu pai. Engenheiro de obras, trabalhou dos dois lados do balcão. Terminou sua vida profissional demitido por recusar “ajustar” uma demanda de uma construtora. O presidente da estatal justificou seu afastamento dizendo que um pecadilho não poderia ser entrave à missão desenvolvimentista da empresa.

Ele recusava presentes de Natal dos prestadores de serviço. Fiquei triste quando devolveu um rádio-relógio, igual a aquele do filme Dia da Marmota. Era a maior novidade na época. Cresci nesse ambiente e mantenho a esperança de que o País possa mudar.

A Lava Jato parecia ser o ponto de inflexão. Mas, como bem disse Marina Silva, Moro deu com uma mão e tirou com a outra. A maior operação de investigação e punição no desvio de dinheiro público do País virou Geni.

É mais que uma crítica aos métodos utilizados pelo ex-juiz. É a negação da própria importância do combate à corrupção. Não faz sentido. Deveríamos aprender com os erros e retomar, respeitando o devido processo legal, investigações e condenações.

As pesquisas eleitorais mostram que a população está é preocupada com a comida no prato, e com razão, mas isso não torna o combate à corrupção tema irrelevante. Interessa a alguns candidatos, é claro.

Não importa se é causa ou consequência do buraco em que estamos – essa é uma pergunta Tostines. A prática está na raiz da má alocação de recursos públicos e é, ao mesmo tempo, resultado dos desvios desses recursos por interesses privados. Não estou falando de lobbies legítimos, mas de roubalheira mesmo.

A corrupção retira dinheiro do social e perpetua desigualdades. Desincentiva os bons funcionários públicos, tratados sem presunção de inocência nas investigações farsescas de Tribunais de Contas e no julgamento das redes sociais. Tira a legitimidade da política.

O orçamento secreto é o ápice da prática da malandragem. O recuo de Rosa Weber foi um balde de água gelada. Não por acaso, bons parlamentares não querem buscar novos mandatos.

Enquanto isso, vai para a cadeia quem rouba porque está com fome. 

* ECONOMISTA E ADVOGADA 

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