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'Notificar produtor e varejista não serve para nada. Aprendemos isso no passado', diz economista

Para o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV, André Braz, cobrança de explicações do governo não resolve aumento de preços dos alimentos

Entrevista com

André Braz, economista do Ibre/FGV

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 15h36

André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), diz que a decisão do governo de notificar produtores e supermercadista e ameaçar com multas  por aumentos abusivos de preços dos alimentos da cesta básica, especialmente do arroz, que subiu quase 20% este ano para o consumidor, “não serve para nada”. “Já aprendemos essa lição no passado”, argumenta. Quando houve intervenção e desrespeito das leis de mercado, o resultado é mais escassez e alta de preço, lembra.

Em relação à redução da alíquota de importação do produto para diminuir a alta de preços (outra medida adotada pelo governo), o especialista adverte que pode ser um jogo de efeito nulo, se o câmbio continuar a se desvalorizar. Ele acredita que o ponto básico é reduzir as incertezas domésticas para que o dólar  se estabilize e os preços das commodities agrícolas formados no mercado internacional parem de subir em reais.

No momento, ele não vê com preocupação a alta da inflação oficial, que já subiu 0,70% no ano e 2,44% em 12 meses até agosto, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A razão é que a pressão de preços está concentrada no grupo alimentação e não há indícios significativos de aumentos em outros grupos que obrigariam a mudar os rumos da atual política monetária. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A alta da inflação preocupa?

Não preocupa porque não é uma alta generalizada. Ela está concentrada nos preços de alimentos, e a alimentação responde por 20% dos preços ao consumidor. Os outros 80% seguem muito bem comportados, até com queda. A preocupação que temos com a alta de alimentos é como ela afeta as populações mais carentes. Essa é uma preocupação social.

Quando a inflação dos alimentos deve voltar à normalidade?

No curto prazo, é difícil que volte à normalidade. A alimentação deve continuar respondendo majoritariamente pela inflação de 2020. Devemos encerrar o ano com inflação de dois dígitos para alimentos e a maior influência no índice geral. Mas, mesmo assim, a expectativa é chegar em dezembro com uma inflação média abaixo do piso da meta, que é 2,5%. Isso mostra que o efeito não é generalizado e é concentrado em alimentos.

A alta dos preços de alimentos pode mudar o cenário da política monetária na reunião do Copom da próxima semana?

O desafio para a política monetária não existe neste momento. O juro básico deve continuar onde está. Não há nenhuma novidade que force o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) a tomar uma decisão diferente em relação aos rumos da Selic (a taxa básica de juros). A melhor política seria manter a Selic em 2% ao ano, porque não existe nenhuma pressão de preços fora o do grupo alimentação.

A decisão do governo de notificar produtores, cooperativas e varejistas e ameaçá-los com multa por aumentos de preços resolve?

Não serve para nada. Já aprendemos essa lição no passado. Tivemos os fiscais do Sarney (José Sarney, presidente da república entre 1985 e 1990), uma turma que ia para rua. Tivemos congelamento de preço de energia. Nada disso surtiu efeito. Muito pelo contrário. Isso criou rigidez e desabastecimento. Quando você tabela ou limita as leis de mercado, os produtores são desestimulados a continuar naquele segmento. Em geral, o resultado é escassez de produto e aumento de preço. Não se deve intrometer nas leis de mercado.

Reduzir tarifa de importação de alimento tem efeito prático na inflação?

Pode não ter efeito prático, porque se o dólar continuar desvalorizando, o que se tirou de imposto pode, eventualmente, ter de importar o produto mais caro. Mas, em geral, quando se baixa imposto, cria-se um pouco mais de competitividade e acaba favorecendo alguma redução ou pelo menos o preço para de subir por algum tempo. O ideal seria fazer isso para itens da cesta básica. Se a idéia é proteger os menos favorecidos, que têm uma cesta de consumo muito restrita a alimentos, o ideal é estender a lista e não considerar somente o arroz.

Há um pouco de jogo de cena nessa decisão de reduzir alíquota de importação do arroz?

Qualquer decisão que aumente popularidade,  pode ter fins eleitorais. Por exemplo, você tem uma redução do auxílio emergencial que vai impactar muito as famílias e pode diminuir um pouco as avaliações positivas sobre o governo. Então, se você diminui o imposto de um produto que é muito consumido pelo seu eleitor, especialmente de baixa renda, isso é uma forma de convencê-lo de que você está jogando a seu favor. Isto é, está tentando diminuir os desafios que a pandemia trouxe e têm afetado o custo de vida.

Existe produto para ser importado no mundo?

Existe sim, mas com a moeda desvalorizada, os produtos importados podem chegar aqui custando mais caro. Então, tira-se imposto de um lado e há a continuidade de desvalorização frente ao dólar. É um jogo de soma zero que pode não surtir o efeito desejado.

Então, a questão é o câmbio?

O câmbio pesa muito e tem muito a ver com a incerteza do coronavírus no mundo e a incerteza doméstica. Uma forma de estabilizar o câmbio seria trabalhar políticas que venham diminuir essa volatilidade: combater o déficit público com medidas mais austeras. Isso é uma coisa de longo prazo, mas quando o governo se compromete com medidas, só o fato de ele se comprometer, já diminui a incerteza para os agentes econômicos. Isso estabiliza um pouco mais a moeda. Essa estabilização evita que a gente amplie o volume de exportação e diminua a oferta de alguns produtos que estão sofrendo com  isso. Caso da carne, da soja e do milho. As exportações foram ampliadas e a oferta desses produtos no mercado brasileiro diminuiu. Por isso, o preço interno subiu. Estabilizando o dólar, retira-se a pressão inflacionária sobre alimentos. E estabilizar o dólar significa criar menos incertezas.

A inflação dos alimentos deve se estender até quando?

Se a taxa de câmbio para de subir, isso pode começar a favorecer a estabilidade dos preços dos alimentos. Agora, recuos ou devoluções desses aumentos registrados devem ocorrer  só mais para o final do ano, início do ano que vem.

A redução do auxílio emergencial para R$ 300 entre  setembro e dezembro pode ajudar a conter a demanda por alimentos?

Tira um pouco o fôlego das famílias. Quando a gente pensa no Bolsa Família, o valor é de cerca de R$ 200. O auxílio foi de R$ 600 e para algumas famílias de R$ 1.200. Isso deu um fôlego muito forte às famílias, que puderam se aproximar de uma condição mais digna de vida por algum tempo. Mas o período é limitado. Vamos ter muita sorte se o período do fim do auxílio casar com a retomada da atividade.  É o que está havendo agora com a flexibilização do isolamento. Na medida em que o comércio volta à normalidade, é gerado mais emprego e renda.Talvez isso compense um pouco o recuo do auxílio emergencial.

Qual é a saída para resolver a inflação dos alimentos?

Não existe uma saída imediata. Isso depende do combate de todas essas incertezas. Se a volatilidade cambial diminuir, a escalada de preços de vários alimentos perde força ao mesmo tempo. A própria diminuição dos incentivos concedidos pelo poder público pode diminuir a demanda por alimentos e criar uma certa resistência a novos aumentos de preços.

Diante da alta da inflação dos alimentos, a sua previsão de inflação para o ano foi revista?

Sim. Antes tinha um número em torno de 1,9% para o IPCA de 2020, agora 2,2%. Mesmo assim, bem abaixo do piso da meta, que é 2,5%.

O repasse da alta do atacado para o varejo vai continuar?

Para alimentação, ocorreu quase instantaneamente. Carne bovina, óleo de soja, arroz. Quando a gente vê as variações dos preços ao produtor, percebemos que o consumidor já está pagando o que foi repassado pelo atacado. Neste ponto, não existe mais o que fazer. Mas novos movimentos podem chegar. Observei nos mercados internacionais que os preços da soja e do milho, em dólar, seguem em alta. O mundo saindo do coronavírus, a atividade de países da Ásia e da Europa começa voltar à normalidade. E a demanda por esses grãos começa a avançar um pouco mais. Isso sustenta o aumento desses preços em dólar e tem reflexos em reais na medida em que a nossa moeda se desvaloriza. Pensar uma valorização do real é pensar na redução da incerteza e reduzir a incerteza no ambiente doméstico significa um comprometimento maior com a política fiscal principalmente.

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