Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 13/4/2020
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Celso Ming
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Nova carga de juros

Sétimo aumento consecutivo da Selic em 2021 tenta conter a inflação no País, mas o Banco Central atua quase sozinho nesta tarefa

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 19h31

Nesta quarta-feira, o o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou os juros básicos (Selic) em mais 1,5 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. A pancada, de 7,25 pontos porcentuais acumulados em nove meses, já é a maior em tão curto período de tempo desde 2002.

O objetivo é quebrar a espinha dorsal da inflação, que em 12 meses alcança 10,7% ao ano e pode ficar ainda mais alta, a depender dos números de novembro a serem divulgados nesta sexta-feira.

Alguns críticos entendem que esse choque é inadequado, uma vez que, em sua origem, esta inflação é importada. Ou seja, tem a ver com a disparada dos preços internacionais que se seguiu à desorganização dos fluxos de produção e distribuição pela pandemia e não por aumento do consumo interno. Por isso, a redução do volume de moeda na economia (cujo efeito é a alta dos juros) não ataca as causas da inflação. A partir desse ponto de vista, não seria a escalada de juros que reduziria o consumo de combustíveis e, com isso, derrubaria os preços da gasolina.

No entanto, no Brasil, desde o quarto trimestre de 2020, a inflação deixou de ser apenas de custos. Vem puxando para cima mais de 60% dos preços da cesta de mercadorias e serviços que compõem o custo de vida. 

Hoje, o Banco Central atua quase sozinho na tarefa de derrubar a inflação. Não conta com a chamada âncora fiscal porque o governo Bolsonaro derrubou o teto de gastos e não colocou nada no lugar. Boa parte do atual surto inflacionário é resultado de uma economia desarrumada e da falta de confiança na administração do governo, que não consegue nem emplacar as reformas prometidas nem acionar investimentos.

O processo de alta da Selic não terminou. O comunicado oficial divulgado logo após a reunião do Copom deixa explícito que, na sua reunião de fevereiro (a primeira de 2022), o Banco Central deverá aumentá-la em mais 1,5 ponto porcentual. Ao longo do  próximo ano, pode atingir os 11,75% ao ano, para só a partir de então diminuir, sugere o comunicado.

Um dos efeitos esperados é a redução da atividade econômica (recessão) pelo aperto no crédito e pela circulação de menos moeda na economia. A própria inflação deve ser considerada um ajuste darwiniano, digamos assim, que implica queda do consumo porque corrói poder aquisitivo de toda a população que não consegue ser reposto pela recomposição dos salários ou porque enfrenta o desemprego.

Efeito colateral é o desestímulo às aplicações de maior risco (especialmente ações), que passam a ser trocadas por aplicações em renda fixa para aproveitar os juros mais altos. É fator que poderá atrair mais moeda estrangeira e, portanto, atuar para derrubar a cotação do dólar. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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