Olivier Douliery / AFP
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Nova chefe do FMI defende trabalho 'implacável' contra desigualdade de gênero

Kristalina Georgieva pede a mulheres que nunca aceitem receber salários menores do que homens e escolhe tema para abrir encontro anual do fundo

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2019 | 19h25

WASHINGTON - Há exatos 15 dias, Kristalina Georgieva assumiu o comando do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesta terça-feira, a um auditório lotado, ela deixou de lado as projeções de crescimento global. Para sua primeira participação na abertura do também primeiro encontro anual do fundo do qual participa como diretora-geral, Kristalina escolheu outro tema que, disse, atravanca a prosperidade dos países: a desigualdade de gênero. “Ainda não chegamos lá”, afirmou. Por que falar da diferença entre homens e mulheres? Ela respondeu: “porque não é só uma coisa boa a se fazer, é também fantástico para se obter melhores resultados”.

Segunda mulher a ocupar o posto mais alto do fundo, Kristalina mostrou que, assim como sua antecessora, Christine Lagarde, irá manter a igualdade de gênero como uma de suas principais plataformas e se declarou uma ativista “implacável” sobre o tema. “Bem-vindos ao encontro anual. Não é por acaso que a primeira discussão em que entro é sobre esse assunto”, afirmou.

Às mulheres na plateia, pediu: “nunca aceitem receber menos que seu colega homem para o mesmo trabalho. Nunca”. Aos homens, pediu que deixem de olhar mulheres de cima para baixo e trabalhem junto com as mulheres pela diminuição da desigualdade. “Não há forma de qualquer sociedade prosperar sem contar com o talento de todo seu povo, homens e mulheres. É muito simples: se você ignorar parte das suas capacidades vai com certeza ficar aquém em termos de conquistas econômicas. O FMI tem mostrado muitas evidências nesse sentido”, afirmou.

Para sanar a desigualdade de gênero, ela disse que é necessário ter vontade política mas ir além da discussão e tomar passos concretos. Ela citou, por exemplo, a dificuldade de mulheres na Índia estudarem por medo da insegurança. “É um problema que pode ser resolvido”, disse.

Ao falar sobre sua própria experiência, a búlgara avalia ter uma “história típica de uma mulher de sua geração”. “Eu trabalhei mais duro do que qualquer homem só para ser igual. Por trabalhar mais e trabalhar mais duro, eu fui mais longe do que eles. E aqui estou, estou comandando o FMI”, disse, sob aplausos da plateia que por vezes não esperava o fim de suas frases. “Tenho filha e tenho neta, e quero que elas trabalhem tanto quanto os homens e sejam iguais apenas porque elas são.”

Em 56 minutos, Kristalina citou dados e pesquisas que indicam que empresas são mais lucrativas com mulheres no comando e governos menos corruptos com participação de mulheres na administração, mas também sobre a realidade de uma igualdade de gênero ainda distante. “No Fundo (Monetário Internacional), somos 25% mulheres nas posições mais altas. Vocês acham que é como deveria ser? Eu estou perguntando aos homens”, disse, sem continuar até que um homem da plateia respondesse "não". No FMI, disse ela, também há trabalho a fazer. “Faremos, porque será bom para o fundo e bom para o mundo.”

Kristalina agradeceu Lagarde por ter “quebrado o teto de vidro”. “Então para mim foi mais fácil passar sem cortes”, afirmou. “Como muitas da minha geração, por muito tempo eu não acreditei em advogar por igualdade de gênero, até perceber que tomar essa atitude manteria mulheres para trás, porque não estamos no ponto de que podemos ser 'gender blind' e vermos mulheres recebendo o mesmo tratamento quando aplicarem para a mesma posição.”

Um estudo divulgado hoje pelo FMI alerta para as necessidades de reduzir a carga de trabalho não pago das mulheres e redistribuir esse tipo de tarefa entre os gêneros. Segundo o estudo, políticas que ajudam a reduzir e redistribuir o trabalho não pago sugerem que os ganhos podem ser de aumento de 4% no PIB. Em média, as mulheres fazem 2,7 horas a mais de trabalhos não pagos por dia, na comparação com homens – o resultado difere de país para país, os mais ricos tem menor carga de trabalho não pago. Na Noruega, as mulheres gastam 20% mais tempo nos trabalhos não pagos do que os homens. No Japão, a porcentagem cresce para 380% e, n Paquistão, para 1.000%.

“Eu não estava ciente de que a quantidade de trabalho não pago, se fosse captado, representaria um aumento de 35% no PIB mundial”, disse. O trabalho não pago é definido como aquele que não é recompensado com o salário, em duas categorias: cuidado com crianças, idosos ou doentes; e cuidados com a casa, como limpeza, reparos, cozinha, planejamento e compras para a casa.

A diretora-geral do FMI se disse a favor das cotas. “Se não tivermos, levaremos um tempo muito mais longo para chegarmos onde queremos chegar. Não é a solução perfeita, mas é pragmática”, disse.

Ainda sobre as mulheres, pediu que as presentes na plateia não se desvalorizem. “Mulheres tendem a questionar mais a si mesmas”, disse. “Eu tive um caso em que estava entrevistando um homem e uma mulher para o mesmo trabalho, basicamente com as mesmas características. Os dois atendiam metade dos critérios para o trabalho e não atendiam a outra metade. A mulher me disse: 'eu não sei se sou a pessoa para esse trabalho, atendo apenas metade dos critérios'. O homem me disse: 'eu atendo metade dos critérios e estou te oferecendo minha incrível personalidade'”, afirmou.

Carga de trabalho invisível. A pesquisa do FMI divulgada hoje indica que as mulheres assumem um peso “desproporcional” do trabalho não pago. “Reduzir e redistribuir o trabalho não pago é uma questão macro crítica”, afirmam os pesquisadores Cristian Alonso, Mariya Brussevich, Era Dabla-Norris, Yuko Kinoshita e Kalpana Kochhar, no estudo “Reduzindo e resdistribuindo o trabalho não pago: políticas fortes para apoiar a equidade de gênero”.

“Claro que isso significa que (a carga de trabalho não paga) é injusta. Mas o maior problema é que é ineficiente, porque tira possivelmente mulheres muito habilitadas do mercado, que estão fazendo trabalhos que requerem muita pouca qualificação”, Kristalina.

Citando pesquisas de 2019, de 2007, 2017 e 2013, os autores do novo estudo do FMI apontam que mulheres escolhem trabalhos com tempo parcial para equilibrar o cuidado com a casa, ou se envolvem em trabalhos menos qualificados – e afirmam que um mercado de trabalho com menos mulheres implica em menos ganhos pela impossibilidade da exploração da complementariedade entre trabalhos de homens mulheres. A presença de mulheres em trabalhos de dedicação parcial é um dos fatores chave para a diferença salarial entre gêneros.

“Conforme a participação da mulher no mercado de trabalho cresce, uma parcela maior das atividades é feita no mercado no lugar de ser realizada em casa. Ao mesmo tempo, os homens gastam mais tempo no trabalho não pago, permitindo uma redistribuição entre gêneros e uma maior participação da mulher nos trabalhos pagos. Um aumento notável da participação dos homens no trabalho não pago nas economias avançadas pode ser um dos fatores que permite a mulheres participarem do mercado de trabalho nos últimos anos”, afirmam os pesquisadores. Eles defendem que os governos podem aliviar a carga de trabalho não pago quando investem de forma adequada em serviços públicos, como saneamento, acesso a água, transporte público e eletricidade, explicam os pesquisadores, entre outros incentivos.

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