Nova classe média tem mais jovens e empregos formais

Comparado à população total, grupo do meio também se destaca na indústria e no comércio, e já é mais da metade dos brasileiros

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

A nova classe média popular que surgiu no Brasil nos últimos anos é, comparada à população total, mais jovem, mais empregada no setor privado formal, mais concentrada na indústria de transformação e no comércio, e com uma proporção maior de pessoas com oito a dez anos de estudos. Em termos qualitativos, segundo o especialista Renato Meirelles, do Instituto de Pesquisa Data Popular, "se a nova classe média tivesse um rosto, seria o de uma jovem mulher conectada na internet".

Todos aqueles dados estão sendo preparados pelo economista Ricardo Paes de Barros, subsecretário da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, para o seminário Políticas Públicas para a Nova Classe Média, que será realizado em Brasília no dia 8 de agosto. A presidente Dilma Rousseff está escalada para fazer a abertura.

Barros nota que a emergência da nova classe média corresponde ao inchaço de um segmento do meio da pirâmide de renda no Brasil, com perda de espaço para as pontas mais pobre e mais rica. Isso ocorreu pela queda da desigualdade, com a renda dos pobres crescendo mais rapidamente do que a dos ricos, congestionando o meio da distribuição. Assim, aquele grupo médio saiu de 40% da população em 1999, ou 68 milhões de pessoas, para 52% em 2009, ou 99 milhões. "Hoje, já está com certeza acima de 100 milhões", diz Barros.

Nesse grupo, 9,3% das pessoas são jovens de 20 a 24 anos, proporção maior do que entre os pobres, de 7,7%, ou os ricos, com 7,8%. Entre os trabalhadores dessa classe média popular, 41,6% têm emprego com carteira assinada, comparado a 20,5% dos pobres, e 34,5% dos ricos. O grupo do meio tem 15,9% na indústria da transformação, ante 9,5% dos pobres e 13,5% dos ricos; e 19,8% no comércio e serviços de reparação, comparado a 13,8% dos pobres e 17,5% dos ricos.

Em termos educacionais, 38,9% do segmento médio tem de oito a 11 anos de estudo, comparado com 37,8% dos ricos, e 23,6% dos pobres. Os ricos, porém, tem uma proporção maior de pessoas com onze anos de estudo (27,9%) do que a classe média popular (23,5%). Esta, por sua vez, tem mais pessoas com oito a dez anos de estudo (15,4%) do que os ricos (9,9%).

Barros trabalha com um conceito de classe média estatístico, relativo aos que de fato estão no meio da distribuição de renda brasileira. Essa definição às vezes entra em choque com a ideia de que classe média no Brasil são os que vivem nos mesmos padrões do grupo assim classificado nos Estados Unidos e na Europa. Mas, enquanto lá esse segmento está de fato no meio da distribuição, no Brasil ele se situa entre os mais ricos.

Barros definiu esse grupo intermediário como os que têm renda per capita familiar entre R$ 250 e R$ 1.000, o que, numa típica família de quatro pessoas, significa renda entre R$ 1.000 e R$ 4.000. O seu critério foi justamente o de identificar o agrupamento do meio que cresce mais rapidamente do que a população como um todo, por causa da melhora da distribuição de renda. Portanto, tantos os que ele classifica como pobres, abaixo daquele intervalo, quanto os que chama de ricos, acima, estão perdendo espaço relativo na população.

As pesquisas de Meirelles ao longo dos dez anos do Data Popular, um instituto pioneiro com foco nas classes C e D, mostram que, de fato, esse grupo cada vez maior no meio da distribuição brasileira tem uma personalidade própria, diferenciada tantos dos ricos quanto dos pobres. Em muitos aspectos, como a aspiração à ascensão social, o gosto pela tecnologia e a importância crescente dada à educação, é um segmento com características sociológicas de classe média.

Na sua definição da classe média popular (ver infográfico acima), Meirelles trabalhou com a classe C, definida como os de renda familiar per capita de R$ 323 até R$ 1.388. Embora um pouco acima da conceituação de Barros, as duas definições têm a maior parte do seu universo populacional em comum.

Meirelles, que também participará do seminário, vê como uma característica marcante da classe média popular um papel ampliado nas famílias de jovens e mulheres, inclusive em termos de formação de opinião e inclinações políticas. Algumas características tornam claro por que isso ocorre.

Assim, enquanto nas classes A e B apenas 10% dos filhos ultrapassam o nível de escolaridade dos pais, esta proporção sobe para 68% no caso do segmento médio. Em um típica família de classe C, com um filho trabalhando, para cada R$ 100 que o chefe de família aporta para a renda familiar, o jovem traz R$ 53. Numa família de classe alta, o filho adiciona apenas R$ 11 para cada R$ 100 trazido pelo pai.

Outro traço das famílias do grupo médio é a importância que dão à tecnologia, e especialmente ao computador, como ferramenta de desenvolvimento pessoal. A classe C é mais otimista que os pobres e os ricos, e tem consumidores muito exigentes, atentos à relação custo e qualidade, já que seus orçamentos são menores que os das classes A e B.

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