Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Nova disparada do dólar

Além da valorização do dólar em todo o mundo, o Brasil precisa lidar com o impacto produzido por outros fatores, como a incerteza política

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 20h30

Boa parte da esticada recente do dólar no câmbio interno, em especial nesta quinta-feira, tem a ver com o que aconteceu há dez anos.

Consultores e analistas vinham produzindo grande quantidade de textos, avaliações e projeções sobre o impacto no mercado financeiro interno que viesse a acontecer quando os grandes bancos centrais começassem o processo de reversão do mais impressionante despejo de dinheiro nos mercados. E é disso que se trata aqui.

Apenas para quem se sente um tanto afastado do assunto, o problema se colocou a partir de 2008, quando o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) começou a emitir US$ 4 trilhões com objetivo de comprar no mercado boa parte dos títulos que estavam largados na grande crise. O objetivo da megaoperação foi desempoçar o mercado, permitir que o crédito começasse a trabalhar para recolocar a economia em marcha e reabrir empregos. Outros grandes bancos centrais assumiram papéis coadjuvantes na execução dessa política. O resultado final foi positivo, a economia mundial reengrenou.

O risco era o de que a desova dos títulos incorporados ao balanço dos bancos centrais – e, com essa operação, o enxugamento dos dólares que haviam inundado os mercados – tiraria das tocas todas as feras, com graves ameaças às economias emergentes mais expostas a predadores, como a do o Brasil. Os juros subiriam lá fora, o dólar se revalorizaria, investidores e administradores de carteiras prefeririam atrelar-se a títulos mais seguros e, assim, exigiriam mais prêmios para ficar com os títulos do Brasil. Nesse ambiente, o dólar dispararia em reais, a Bolsa mergulharia, a inflação poderia voltar, o mercado de commodities (principal produto de exportação do Brasil) se retrairia e, a partir desse mix, outros efeitos secundários ruins aconteceriam. Muitos analistas chegaram a prever a ocorrência de um tsunami na economia brasileira.

Nesta quarta-feira, o Fed anunciou a segunda alta de juros no ano e avisou que a economia dos Estados Unidos vinha forte, com emprego firme, inflação em direção à meta (que lá é de 2%). Passou o entendimento de que haverá até dezembro mais um aumento dos juros (retirada correspondente de dólares dos mercados) ou, talvez, dois. O Banco Central Europeu saiu a dançar a mesma música. Ou seja, mais moderada do que agressivamente, o processo de reversão monetária está em curso.

Como fica o Brasil? O processo de valorização do dólar no mercado global e de retração da Bolsa começou há mais de um mês. Mas esse impacto está misturado com o produzido por outros fatores. Há as incertezas na área eleitoral, há as consequências da paralisação dos caminhoneiros e há a nova paradeira. Mas ficou a impressão de que os fatores internos só passaram a atuar com os externos no início da crise de desabastecimento e na quebra de política de preços da Petrobrás.

Não sobreveio o tsunami anunciado. Em compensação, o País vive hoje onda pessimista que a operação dos grandes bancos centrais tende a realimentar. Por mais que se garimpe por aí, está difícil encontrar fator positivo com peso suficiente para virar, se não o jogo, pelo menos esse astral negativo.

CONFIRA

» Esticada do dólar

Apesar de o Banco Central despejar US$ 5 bilhões em swaps, títulos em reais que dão reajuste pela variação cambial, o dólar subiu 2,5% na quinta-feira. O estresse foi pelo movimento do Fed, que valorizou o dólar, e pela falta de sinalização do Banco Central do que faria após gastar quase todos os US$ 24,5 bilhões que pretendia usar para conter o câmbio. Ou seja, o mercado testou o Banco Central. E a resposta veio depois do fechamento do mercado, com o anúncio de mais swaps na próxima semana em torno de US$ 10 bilhões. / COM RAQUEL BRANDÃO

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