Aly Song/Reuters
Aly Song/Reuters

Nova idade para aposentadoria na China gera opiniões adversas entre trabalhadores

Maioria dos chineses se aposentam aos 60 anos, mas com o envelhecimento da população e os fundos de aposentadoria diminuindo, o governo diz que isso deve mudar

Vivian Wang e Joy Dong, The New York Times

29 de abril de 2021 | 20h00

Para Meng Shan, um trabalhador de gestão urbana de 48 anos da cidade chinesa de Nanchang, a aposentadoria poderia começar o quanto antes.

Meng, que é o equivalente a um oficial de segurança desarmado e de baixo escalão, com frequência tem que perseguir vendedores ambulantes sem licença, uma tarefa que considera física e emocionalmente desgastante. O salário é baixo. A aposentadoria, mesmo com a mísera quantia paga pelo governo, finalmente ofereceria um descanso.

Portanto, Meng ficou desapontado quando o governo chinês disse que aumentaria a idade para a aposentadoria compulsória, que atualmente é de 60 anos para os homens. Ele se perguntou por quanto tempo seu corpo poderia aguentar o trabalho e se seu empregador o dispensaria antes que ele se tornasse elegível para uma aposentadoria.

“Para dizer a verdade”, disse ele em relação ao anúncio do governo, “isso é extremamente insensível conosco, trabalhadores de baixo escalão”.

A China disse no mês passado que "atrasaria gradualmente a idade legal de aposentadoria" nos próximos cinco anos, em uma tentativa de resolver uma das questões mais urgentes do país. O rápido envelhecimento da população significa uma redução da força de trabalho. Os fundos de aposentadoria do Estado correm o risco de se esgotar. E a China tem uma das idades para se aposentar mais baixas do mundo: 50 anos para mulheres cujos trabalhos requerem força física, 55 anos para mulheres que trabalham em funções administrativas e 60 anos para a maioria dos homens.

A ideia, porém, é extremamente malvista. O governo ainda não divulgou detalhes de seu plano, mas os trabalhadores mais velhos já lamentam o fato de terem sido enganados com os cronogramas prometidos anteriormente, enquanto os jovens temem que a competição por empregos, já acirrada, se intensifique.

E os trabalhadores com empregos que demandam força física como o de Meng, que ainda constituem a maioria da força de trabalho da China, dizem que ficarão exaustos, desempregados ou as duas coisas.

O anúncio foi feito durante a reunião anual da Assembleia Nacional Popular (ANP, o Parlamento chinês) e, posteriormente, os tópicos relacionados à aposentadoria estiveram em alta por dias nas redes sociais chinesas, acumulando centenas de milhões de visualizações e comentários críticos.

Em todo o mundo, o aumento da idade de aposentadoria tem surgido como um dos desafios mais difíceis que um governo pode enfrentar. A tentativa da Rússia de fazer isso em 2018 levou aos índices de aprovação mais baixos do presidente Vladimir Putin em anos. Ele acabou levando o plano adiante, mas autorizou concessões, algo raro para Putin.

Um plano de reforma da previdência na França provocou uma prolongada greve nos transportes no ano passado, forçando o governo a arquivar a proposta.

O próprio governo chinês abandonou uma tentativa anterior para aumentar a idade de aposentadoria em 2015, em face de um protesto semelhante.

Desta vez, ele parece determinado a seguir em frente. Mas também reconheceu a reação negativa. As autoridades parecem estar agindo com cautela, deixando os detalhes vagos por enquanto, mas sugerindo que o limite seria aumentado em apenas alguns meses a cada ano.

“Eles falam sobre isso há muito tempo”, disse Albert Francis Park, professor de economia da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong que estudou o sistema de aposentadoria da China. “Eles terão que realmente aplicar um pouco de firmeza para adotar a mudança.”

A China está em direção a uma crise de idade para aposentadoria há anos. Os padrões atuais foram estabelecidos na década de 1950, quando se esperava que o cidadão médio vivesse apenas até os 40 anos.

Mas, à medida que o país tem se modernizado rapidamente, a expectativa de vida atingiu quase 77 anos, de acordo com dados do Banco Mundial. As taxas de natalidade também despencaram, deixando o topo da pirâmide etária da população chinesa claramente com maior peso. Mais de 300 milhões de pessoas, cerca de um quinto da população, deverão ter mais de 60 anos em 2025, de acordo com o governo.

O resultado é o que os especialistas chamam de uma séria ameaça ao crescimento econômico contínuo e à capacidade de competir da China. No Japão e em muitos países europeus, os residentes tornam-se elegíveis para aposentadorias aos 65 anos ou mais. Em uma entrevista coletiva recente, You Jun, o ministro-adjunto de recursos humanos e seguridade social, disse que a China corre o risco de "desperdício de recursos humanos".

A reação negativa evidencia uma série de outras preocupações na sociedade chinesa em relação a questões como segurança no emprego, rede de proteção social e desigualdade de renda.

Os trabalhadores mais velhos talvez sofram mais. A China se modernizou tão rapidamente que eles tendem a ser muito menos qualificados ou escolarizados do que seus colegas mais jovens, fazendo com que alguns empregadores relutem em mantê-los, disse Park. Em vários setores, incluindo o de tecnologia, 35 anos é considerado o limite de idade para contratação.

Aumentar a idade para aposentadoria também corre o risco de minar outra grande prioridade do governo: incentivar os casais a terem mais filhos, para retardar o envelhecimento da população.

Em parte por causa dos recursos insuficientes de cuidado infantil, a grande maioria dos chineses depende dos avós para serem os principais responsáveis pelos filhos. Agora, os usuários de mídia social estão perguntando o que acontecerá se a geração mais velha ainda estiver trabalhando.

Lu Xia, 26 anos, disse que a perspectiva de uma aposentadoria mais tarde torna impossível pensar em ter um segundo filho. Mais filhos acabariam por significar mais netos para cuidar, mesmo que ela continuasse trabalhando.

“Com a aposentadoria acontecendo mais tarde, é difícil imaginar o que teremos que enfrentar quando formos avós”, disse Lu, que mora na cidade de Yangquan, no sudoeste de Pequim.

A menos que a China aumente o apoio a creches, os novos pais podem deixar o mercado de trabalho ou adiar ter filhos até que seus pais se aposentem, agravando a escassez de mão de obra, disse Feng Jin, economista da Universidade Fudan, a uma publicação trabalhista apoiada pelo Estado.

Ainda assim, os especialistas afirmam que o custo da falta de ação seria muito alto. Um relatório de 2019 da Academia Chinesa de Ciências Sociais previu que o principal fundo de aposentadoria do país acabaria em 2035, em parte por causa da diminuição da força de trabalho.

Isso preocupou alguns jovens, que se perguntam de onde virão suas próprias aposentadorias se nada mudar. “Acho isso muito justo”, disse Wang Guohua, um blogueiro de 29 anos da província de Hebei, sobre o adiamento da idade para aposentadoria. “Se as pessoas ainda estão vivas, mas não há mais dinheiro, isso afetará a estabilidade social.”

Wang acrescentou que não vê vantagem em se aposentar aos 60 anos, dado o quanto a expectativa de vida tem aumentado: “Você não terá nada para fazer”.

Meng, o trabalhador da gestão urbana, recebe cerca de US$ 460 por mês, um décimo dos quais ele paga para fundos de aposentadoria e seguro médico básico. Quando finalmente se aposentar, ele espera receber de US$ 120 a US$ 150 por mês.

Ele reconheceu que isso mal dava para viver. Mas disse que poderia fazer funcionar - mesmo que agora estivesse cada vez mais inseguro em relação a quando isso poderia se tornar realidade. “Tudo o que posso fazer é esperar”, disse Meng. “Continuar esperando até que eu tenha a idade certa. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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