Nova linha de crédito à construção terá R$ 3 bi

Indústria em geral também poderá ter medida semelhante e governo ainda avalia o alongamento do prazo de recolhimento de impostos

Lu Aiko Otta, O Estadao de S.Paulo

29 Outubro 2008 | 00h00

Preocupado em proteger o País dos efeitos da freada na economia global, o governo anuncia hoje uma linha de crédito de capital de giro de R$ 3 bilhões para a construção civil. A indústria em geral poderá ser beneficiada com medida semelhante. Existe ainda a possibilidade de os prazos de recolhimento de impostos serem alongados para aliviar as empresas. Essas medidas foram anunciadas ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante o 3º Encontro Nacional da Indústria, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).Segundo Mantega, o socorro às construtoras virá da Caixa Econômica Federal, mas não sairá do FGTS. A taxa de juros ainda será definida. O setor pede que a nova linha de crédito não custe mais que a Taxa Referencial (TR) mais 9% ao ano.O dinheiro pode ser usado para operações de fusão entre construtoras, segundo informou o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Safady Simão. Poderá ser usado também para adiantar fluxo de caixa a construtoras que venderam a prazo, numa operação chamada compra de recebíveis. As construtoras em melhores condições poderão recorrer a essa linha de crédito para comprar empreendimentos de concorrentes. A contabilidade é feita de forma segregada: cada empreendimento é comercializado e construído por meio de uma Sociedade de Propósito Específica (SPE). Essa SPE poderá ser vendida de uma construtora para outra.Segundo Simão, o montante prometido por Mantega é suficiente para evitar a paralisação imediata do setor, cujo crescimento projetado para este ano é de 8,5%. "No ano que vem, deveremos ter uma desaceleração e estamos justamente batalhando para que a queda não seja muito grande." O mesmo ocorre no setor de infra-estrutura. O presidente da Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, passou os últimos dias em romaria pela área econômica do governo em busca de apoio para sua proposta de um fundo específico para financiar a infra-estrutura. Os bancos oficiais e fundos de pensão poderiam comprar cotas desse fundo, de cerca de R$ 10 bilhões, e assim garantir que os R$ 100 bilhões em projetos de infra-estrutura já contratados não parem.FORTE IMPACTOÉ fato, porém, que a economia real brasileira já começa a sentir o baque da crise mundial, segundo o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto. "O tranco na liquidez tem-se refletido e se traduz em redução do nível de atividade.""Vamos ter forte impacto na economia real", afirmou Mantega, sem rodeios. "O mundo todo vai desacelerar e o travamento do crédito se transmitiu rapidamente para o nível de atividade." Ele ressalvou que os efeitos serão menos sentidos pelos países emergentes, não porque acredite no descolamento entre as economias avançadas e os países em desenvolvimento, mas porque esse último grupo está em melhor posição para enfrentar as turbulências, até pelo fato de ter sofrido mais duramente os efeitos de crises anteriores.O ministro reconheceu que os bancos têm adotado uma posição de comedimento e precaução diante da crise, o que tornou as linhas de crédito mais escassas e caras. Essa atitude, disse ele, é "natural" no atual cenário econômico. Mantega observou, ainda, que as medidas anunciadas pelo governo levam algum tempo para surtir efeito. No caso da nova modalidade de redesconto - com a possibilidade de o Banco Central emprestar a bancos tendo como garantia suas carteiras de crédito - havia até um empecilho legal, o que levou o governo a editar uma medida provisória.Ainda assim, os técnicos são cautelosos. "Todos têm medo, mas o redesconto vai começar a funcionar", disse o ministro.

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