Nova MP cria ''ruído'' e bolsa cai 10%

Tensão externa também pesa e faz dólar disparar 6,4%, para R$ 2,38; ações de bancos têm perdas expressivas

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

23 Outubro 2008 | 00h00

A quarta-feira seria um dia difícil para o mercado brasileiro em qualquer circunstância, uma vez que, no exterior, o temor de uma recessão global voltou a dominar os negócios. Com a Medida Provisória 443, que abre a possibilidade de o Banco do Brasil e a Caixa comprarem instituições financeiras privadas, o que era ruim ficou péssimo. Apesar de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ter dito que "não há bancos quebrando" no País, muitos investidores viram na medida um sinal de que alguma instituição pode estar com dificuldades. As ações do setor despencaram e puxaram para baixo o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa). O principal termômetro da bolsa brasileira deslizou 10,18% e atingiu o menor nível em dois anos. Às 17h18, o recuo do indicador superou os 10% e acionou o chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe o pregão por meia hora. No ano, a queda do Ibovespa já chega a 45,1%. As ações ordinárias (ON) do Banco do Brasil perderam 14,6%, as preferenciais (PN) do Bradesco, 10,7%, as preferenciais do Itaú, 11,5%, e as Units do Unibanco, 13,8%. O dólar comercial disparou 6,44% e atingiu R$ 2,38, maior valor desde maio de 2006. No ano, a moeda americana acumula valorização de 34%. Segundo analistas, a desconfiança sobre a saúde de algumas instituições financeiras - todas de pequeno porte - se soma ao ambiente internacional ainda tenso. O Índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, caiu 5,69%. A Bolsa de Tóquio abriu hoje com baixa de 6%. Operadores atribuíram o mau humor à perspectiva de resultados corporativos negativos. Um diretor de um grande banco estrangeiro que atua no Brasil avalia que há exagero na reação dos investidores. "O sistema bancário brasileiro é saudável", disse. "É estranho dizer isso, mas parece que os investidores daqui estão com inveja dos problemas lá de fora." Para outro especialista, o argumento é correto, mas não explica tudo. Ele observa que muitas incertezas pairam sobre o mercado financeiro nacional, todas advindas da exposição de empresas às operações de derivativos com taxa de câmbio. Como já é sabido, Sadia, Aracruz e Votorantim perderam milhões de reais com esse tipo de transação. Segundo essa fonte, o tamanho total da exposição é desconhecido. Para piorar, muitos bancos que venderam o produto financeiro também são os garantidores da operação. Ou seja, o impacto potencial nas instituições financeiras é igualmente desconhecido. Um economista de um importante banco brasileiro não nega que realmente existem essas dúvidas. Mas pondera: "Dificilmente esse componente microeconômico tem o potencial de provocar uma crise macroeconômica em um país como o tamanho do Brasil." Segundo ele, é um situação muito menos complicada do que a enfrentada, por exemplo, pelos Estados Unidos, onde a crise das hipotecas de alto risco engolfou toda a economia.

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