PIB CAI NO 1º TRIMESTRE E IMPACTA O DIA A DIA DOS BRASILEIROS

Pé no freio da economia aumenta desemprego, reduz movimento do varejo e derruba as vendas de imóveis

Rodolfo Mondoni e Patrícia de Oliveira, especiais para O Estado, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 09h05

A economia brasileira ficou praticamente estagnada em 2014, com crescimento de apenas 0,1%, e pode ter uma forte retração neste ano. No primeiro trimestre de 2015, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 0,2% na comparação com o quarto trimestre de 2014. O próprio governo já projeta um recuo de 1,2% do PIB brasileiro ao fim de 2015, em linha com a expectativa do mercado financeiro. E o freio na economia já impacta no dia a dia dos brasileiros.

No primeiro trimestre, a taxa de desemprego atingiu 7,9%, o maior nível desde 2013, quando o índice estava em 8%, segundo dados da pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

A diminuição da renda do brasileiro provocou uma queda do varejo. No acumulado do ano, as vendas do setor recuaram 0,8%, também segundo o IBGE.

O enfraquecimento da economia também respingou no setor imobiliário. Em 2014, as vendas de imóveis em São Paulo caíram 35%, segundo o Secovi-SP. E, por ora, não há sinal de recuperação. A venda de imóveis novos na capital paulista recuou 0,7% em fevereiro de 2015 em relação ao mesmo mês do ano passado. Veja abaixo como a crise econômica vem afetando a vida de estudantes, empresários e consumidores.   

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Rodolfo Mondoni e Teresa Patrícia Oliveira, Especiais para O Estado

29 Maio 2015 | 09h00

Mayara Teodoro, de 25 anos, mora com seu marido e filho em uma casa alugada em Piracicaba, interior de São Paulo. Há dois anos pagam aluguel e não vão conseguir o sonho da casa própria em 2015. 

"Desistimos por causa do juro e pela mudança no valor da entrada, no caso de compra de imóveis usados", disse a ex-funcionária pública, que deixou seu emprego há duas semanas para cuidar do filho de 9 meses.

Com sua saída do mercado de trabalho, a única fonte de renda passou a ser o salário do marido, Mateus Teodoro, de 24 anos. Estudante do quinto semestre de física no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), Mateus trabalha como operador no turno da madrugada da Arcelormittal, e como autônomo instalando sistemas elétricos e de segurança residencial. 

Em 2012, o casal comprou um apartamento, mas, com o nascimento do filho, acharam melhor mudar para uma casa. Colocaram o apartamento à venda, mas não conseguiram comprador. Optaram, então, por solicitar o distrato para receber o valor que já haviam pago à construtora. 

Depois de muita discussão, o distrato foi aceito e o valor passou a ser restituído em parcelas. Com essa questão resolvida, foram à Caixa para simular o financiamento de um imóvel que tinham interesse, com a intenção de utilizar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

"Descobrimos que o valor era mais alto do que esperávamos. Para uma casa de R$ 200 mil, a entrada era de pouco mais de R$ 80 mil. E com uma taxa de 9% ao ano". Como não conseguiram chegar a um acordo, o casal resolveu desistir da compra. "Decidimos guardar o dinheiro e continuar juntando. Quem sabe o ano que vem". 

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Rodolfo Mondoni e Teresa Patrícia Oliveira, especiais para O Estado, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 09h00

O personal trainer Carlos Eduardo, de 51 anos, reconhece que o número de alunos caiu por causa da crise econômica. Atualmente, atende quatro clientes fixos, mas já chegou a ter o dobro.

Além de atender na academia, Carlos dá aula particular na casa de alunos e leciona a disciplina de Educação Física em uma escola da capital paulista. Atualmente, consegue garantir uma renda mensal de R$ 3 mil. "Tendo em vista a situação econômica, não podemos abrir mão de outras atividades", destaca.

Ele diz que a demanda pelo seu trabalho se mantém, já que está associada à área da saúde. Mas nem sempre é possível fechar o negócio, devido à dificuldade econômica que os brasileiros estão passando. Com o orçamento apertado, as pessoas têm procurado alternativas para fazer atividades físicas sem mexer no bolso.

Além disso, parte dos condomínios da cidade já têm salas de ginástica bem equipadas. E os parques públicos incentivam as caminhadas, sem a necessidade de acompanhamento por parte de um profissional.

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‘Quando o cliente pede salada com tomate e cebola, são cobrados R$ 2 à parte’

Aumento do preço dos alimentos reduziu movimento em restaurante

Rodolfo Mondoni e Teresa Patrícia Oliveira, Especiais para O Estado

29 Maio 2015 | 09h00

A forte alta do preço do tomate e da cebola levou o Bar dos Amigos Perdizes cobrar a salada separada do prato principal, conta a proprietária Thais Pereira Caetano. 

Algumas semanas atrás, o quilo do tomate custava R$ 2, agora está R$ 8. "Quando o cliente pede salada com tomate e cebola, são cobrados R$ 2 à parte e a maioria gosta de salada", diz. Por esse motivo, ela procura sempre uma alternativa, como uma salada de folhas ou legumes.

Há três anos, Thais e seu marido, Giliarde Caetano Pereira, juntamente com o sócio Giovani Ferreira, resolveram investir no negócio de uma lanchonete, no bairro paulistano de Perdizes. No início, eles vendiam, em média, 60 almoços. Com a crise, o número caiu pela metade.

No inicio do ano, o preço da refeição aumentou, tendo em conta a alta dos preços dos produtos no atacado. Segundo a proprietária, muitas pessoas optaram por levar comida de casa para o trabalho, daí a redução. 

As compras são feitas três vezes por semana, em atacados que vendem em grandes quantidades, para se obter um preço mais baixo. Atualmente, o espaço recebe clientes de baixa e média renda e emprega dois funcionários. Atualmente, a refeição mais barata sai por R$ 11 e a mais cara, R$ 24.

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‘Tenho dívida de R$ 7 mil na faculdade e não sei como vou pagar o próximo semestre’

Sem Fies, estudantes fazem dívidas e tentam bolsas para manter o sonho de cursar uma faculdade

Rodolfo Mondoni e Teresa Patrícia Oliveira, Especiais para O Estado

29 Maio 2015 | 09h00

A brasiliense Sara Pires, de 20 anos, formou-se em 2014 no curso técnico de Contabilidade. Esse ano, decidiu ingressar na faculdade de Ciências Contábeis e, para isso, foi em busca do Programa de Financiamento Estudantil (Fies), do governo federal. Para sua surpresa, teve seu pedido recusado. 

"Consegui fazer minha inscrição, mas quando levei para a faculdade, eles disseram que tinha de ser um valor menor. Depois disso não consegui mais abrir a página do Fies", disse Pires. 

A saída para o impasse foi conseguir uma bolsa com a faculdade de 40%, mais 10% pela pontualidade no pagamento, o que fez a mensalidade cair para R$ 452. Para arcar com os gastos, a estudante conta com a ajuda financeira de seu pai, José Santana da Silva. 

Ele mora e trabalha em Planaltina (DF), fazendo estofado de sofás e banco de automóveis. Para complementar sua renda, o tapeceiro de 38 anos trabalha de vigilante em um hospital em Paranoá, cidade a 30 km de sua residência. 

A estudante também conseguiu um estágio há dois meses no Conselho Federal de Psicologia, na área de licitação. "A sorte é que meu curso é barato. Mas, se eu sair do estágio, provavelmente terei de deixar a faculdade", diz. 

O estudante de Educação Física Clauze dos Santos Silva, de 21 anos, teve problema semelhante. A diferença foi que não consegui renovar seu contrato. "Estou desempregado e não tenho como pagar a faculdade. Estava contando com esse financiamento, agora estou com uma dívida de R$ 7 mil e não sei como vou pagar o próximo semestre", disse.

O estudante disse que teve dificuldades em acessar o site do Fies e que outros colegas de classe passaram pela mesma situação. Esses problemas se arrastaram, até que o prazo se encerrou. Depois de várias tentativas, ele conseguiu fazer sua inscrição e levou os documentos para a faculdade avaliar.

"Eles disseram que havia problema na mensalidade. Tentei arrumar, mas não consegui mais concluir minha inscrição. Por que alguns alunos conseguiram e outros não?", questiona. 

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'Estou fazendo freelas pra ganhar bem menos'

Desempregada desde agosto do ano passado, publicitária não encontra vagas compatíveis com seu nível de experiência

Rodolfo Mondoni e Teresa Patrícia Oliveira, Especiais para O Estado

29 Maio 2015 | 09h00

A publicitária Juliana Aquino, de 33 anos, enfrenta dificuldades para encontrar um novo emprego desde que foi demitida em agosto de 2014.

Com quase dez anos de formada, Juliana reclama da falta de vagas adequadas ao seu perfil. "Está muito difícil. Só aparecem vagas para juniores. 

Estou fazendo freelas pra ganhar bem menos do que ganhava, porque não aparecem propostas compatíveis".

Antes de ser demitida, Juliana trabalhou por três anos no mercado imobiliário, no setor de marketing de uma incorporadora. A justificativa para sua demissão foi algo que tem se tornado cada dia mais comum: "a desaceleração do mercado".

A saída para manter as contas em dia nesse período em que está fora do mercado de trabalho é conseguir empregos temporários e aproveitar o tempo para se qualificar. "Fiz três cursos de marketing online no início do ano. Cortei todos os gastos possíveis e estou vivendo com o mínimo dos freelas. Tinha uma reserva boa que acaba agora em junho", disse.

Uma das estratégias da publicitária para encontrar emprego é participar de grupos no Facebook que oferecem vagas. Além disso, ela disse que é preciso estar aberta a novas possibilidades. 

"Consegui por meio de um desses grupos um freela de assistente de produção gráfica, em uma agência com um foco que nunca havia trabalhado. E estou concorrendo a uma vaga que encontrei no mesmo grupo. Estou torcendo pra dar certo logo", desabafa. 

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Rodolfo Mondoni e Teresa Patrícia Oliveira, Especiais para O Estado

29 Maio 2015 | 09h00

Maria das Graças Arantes, 63 anos de idade e 30 de experiência no mercado imobiliário, diz que antes da crise conseguia vender dez imóveis por mês. Hoje, à empresa leva quatro meses para comercializar dois imóveis. "O brasileiro não tem mais poder de compra", afirma.

 

Segundo a proprietária da Estilo Imóveis, o setor imobiliário desempregou muita gente, principalmente as empresas de grande porte. Ela diz que muitas estão paralisadas, porque não têm como pagar aluguel de R$ 5 mil e manter uma folha de pagamento muito alta, já que não estão conseguindo vender.

"Neste momento, a construção de prédios está paralisada e os que já estão construídos não estão sendo vendidos", diz ela.

De acordo com Maria das Graças, a mudança de regras da Caixa Econômica Federal, responsável por 70% dos financiamentos imobiliários do País, afetaram o mercado. 

"Estou com um processo de financiamento de R$ 150 mil parado a 60 dias que não sai. A aprovação já existe, mas o banco não tem recurso para liberar e ninguém diz quando será assinado", diz.

Maria da Graça explica que os corretores de imóveis trabalham para ganhar em torno de 6% a 8 % do valor da venda. Hoje em dia, ela tem de reduzir a comissão, senão o negócio não fecha. "Acho que o Brasil estacionou, porque o mercado imobiliário parou de se movimentar", afirma ela. 

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