Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

CASA AGORA É LENHA PARA FOGÃO

Muitos moradores da comunidade do Km 60 estavam acostumados a simplesmente se embrenhar no mato e trazer galhos de árvores que achavam pelo caminho para fazer comida. Nos últimos anos, porém, as empresas de exportação de frutas, que compraram grandes pedaços de terra na região, começaram a cercar as propriedades. Quem se arrisca a invadir quando ninguém está olhando corre o risco de ter de se explicar com a polícia – ou até a um destino pior.

O Estado de S. Paulo

30 Maio 2015 | 16h47

Dona Zilma Lopes Ribeiro, 68 anos, demora para atender a porta de sua casa de alvenaria recém erguida – ainda falta parte do reboco – e pede desculpas. Não está em seus melhores dias, acha que pegou a febre chikungunya, mas pode ser qualquer outra doença. Tem os olhos bem vermelhos, mas isso não a impede de se movimentar de um lado para o outro freneticamente. Mesmo depois da hora do almoço, faz questão de ligar o fogo para mostrar o poder do equipamento que ela mesma construiu na varanda atrás de sua casa. Faz todo o tipo de comida que exige mais tempo no fogo ali – doces, carnes e feijão. É um jeito de economizar o gás de cozinha, cujo botijão de 13 kg não sai por menos de R$ 54 em Limoeiro do Norte. O fogão “de rico” só é usado para esquentar a comida ou ferver água e leite.

Resultado: é difícil encontrar lenha disponível em áreas abertas. E o pouco que sobrou quase sempre é de má qualidade, afirma o professor Adeildo Cabral, do IFCE. Lenha “verde”, como dizem os moradores de Limoeiro do Norte, demora mais para queimar, tanto que muita gente simplesmente decide deixar o fogo aceso o dia todo. Esses fatores ampliam a quantidade de partículas emitidas e também o tempo de exposição dos habitantes à poluição interna – é a pior das combinações, diz Cabral.

Dona Zilma não tem esse problema, já que seu fogão, apesar de improvisado, fica do lado de fora de sua casa. A aposentada também não tem dificuldades para encontrar lenha. Depois de conseguir uma ajuda do governo para levantar uma casa de alvenaria, ela está, de certa forma, reciclando a morada antiga, em taipa (combinação de madeira e barro molhado), que ainda é bastante comum na região.

Ao desmontar as caixas de madeira que formaram a estrutura de sua casa por décadas, dona Zilma não deixou que os feixes fossem levados para longe e simplesmente jogados fora. A antiga residência continuou ali, empilhada no fundo do quintal, junto com uma televisão antiga que não funciona mais, bem ao lado da criação de galinhas e do porco – que está em fase de engorda – trazido por um dos filhos. Todos os dias, antes de acender o fogo, ela mesma atravessa o quintal, machado à mão, e pica a madeira em pedaços que possam ser acomodados no fogão. E não vê problema nisso: “Aqui em casa, sou o homem e a mulher”.

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