NO INTERIOR, AS NOVAS CAPITAIS DO CONSUMO

NO INTERIOR, AS NOVAS CAPITAIS DO CONSUMO

Estudo mostra que cidades perto das capitais e com grande número de jovens das classes C e D vão crescer mais rápido

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 21h00

Motor da economia entre 2004 e 2013, com crescimento real de quase 5% ao ano, o consumo das famílias avançou só 0,9% em 2014. Neste ano, por causa da recessão, o resultado deve ser pior. A expectativa de economistas é de queda de até 2%.

Se as projeções se confirmarem, será a primeira retração anual desde 2003. Apesar do cenário, no curto prazo, de desaceleração do consumo, a perspectiva é favorável no longo prazo. Entre 2014 e 2024, o consumo dos brasileiros deve ter um incremento de cerca de R$ 800 bilhões, o equivalente ao mercado do Reino Unido, aponta um estudo feito pela consultoria McKinsey. Só em bebidas alcoólicas, esse desembolso extra em dez anos equivale a dez vezes as vendas da Ambev.

O grande desafio é descobrir onde está esse potencial de consumo. E o estudo fez o mapeamento dos maiores mercados. “Há bolsões de crescimento do consumo nesse universo de desaceleração”, afirma Fabio Stul, sócio-diretor da consultoria e responsável pelo estudo. Para identificar esses bolsões, os consultores dividiram o País em 550 microrregiões, usando critérios econômicos e demográficos. Eles avaliaram as oportunidades de venda de 60 categorias de produtos em cada região, com base em projeções feitas por um grupo de estatísticos que fica na Índia. A conclusão é que há no País cinturões com potencial de crescimento do consumo muito acima da média anual de 1% a 3% projetada para o Brasil como um todo até 2024.

Esses cinturões de crescimento do consumo estão fora das regiões metropolitanas e agrupam cidades do interior do País que ficam num raio de 75 quilômetros a 200 quilômetros das capitais. Além da localização privilegiada, o traço comum entre esses bolsões de consumo é o grande número de famílias jovens das classes C e D, que ascenderam socialmente e ainda têm uma grande demanda insatisfeita.

“Os cinturões têm potencial para ampliar o consumo num ritmo muito maior do que a capital e o interior como um todo”, explica Rogério Hirose, sócio da consultoria. No Estado de São Paulo, por exemplo, o consumo dos bolsões deve crescer um ponto porcentual acima do da capital e do interior do Estado como um todo até 2024. Na Bahia, essa diferença no ritmo de crescimento chega a 1,5 ponto e no Piauí é de 2 pontos porcentuais.

Localizada a 100 quilômetros da capital paulista, às margens das Rodovias Bandeirantes e Anhanguera – tida como polo tecnológico com sede de empresas importantes como IBM, Dell e ZTE –, Hortolândia é apontada pela consultoria como um cinturão com potencial de crescimento do consumo superior ao da cidade de São Paulo nos próximos anos. Além de empresas de tecnologia, a cidade diversificou sua vocação e atraiu companhias de outros segmentos, como a Bombardier, de vagões ferroviários, e a farmacêutica EMS. O município acaba de receber uma loja da catarinense Havan, que funciona como um ímã na atração de consumidores de cidades vizinhas.

Santo Antonio de Jesus, no Recôncavo Baiano, é apontado como outro bolsão de consumo. A 200 quilômetros de Salvador, a cidade tem 100 mil habitantes. Mas esse contingente chega a 1,6 milhão, por atrair consumidores de cidades vizinhas que vão às compras no comércio local, avaliado como o mais barato da Bahia. 

Estrutura. Municípios com fatia maior de famílias das classes C e D podem ampliar as compras com velocidade 25% maior em relação a cidades com maior peso de famílias de alta renda na população, conclui o estudo. Também as cidades com maior proporção de jovens têm potencial para expandir o consumo num ritmo 18% maior do que aquelas com uma população mais velha.

“Há fatores estruturais no Brasil que ainda vão permitir ter um crescimento razoável do consumo até 2024”, afirma Stul. Entre os fatores, ele aponta o bônus demográfico. Em 2022, a fatia de brasileiros na população economicamente ativa, entre 18 e 50 anos, estará no pico da geração de renda e consumo. “As empresas que identificarem esses bolsões vão surfar na onda do crescimento”, diz Hirose.


Tudo o que sabemos sobre:
Consumocomércio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Comércio à moda antiga predomina no Recôncavo

Santo Antônio de Jesus atrai consumidores de 47 cidades com uma das maiores feiras; nas lojas, o velho carnê dos varejistas é o pilar das vendas

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 21h00

SANTO ANTÔNIO DE JESUS (BA) - São seis horas da manhã em Santo Antônio de Jesus (BA) e a feira livre, que vende de alimentos a confecções, está a todo vapor. Já foi melhor seis meses atrás, quando a crise não era tão aguda e a unidade de Paraguaçu do Estaleiro Enseada, em Maragogipe, a 70 km dali, não tinha demitido 5 mil trabalhadores em razão da Operação Lava Jato.

Mas quarta-feira é um dia forte de feira, sobretudo para quem vende roupas. Frank Batista saiu às três e meia da madrugada de Feira de Santana, a cerca 100 km, e veio com o patrão para animar a clientela da barraca onde trabalha. E ele faz de tudo para chamar atenção. Estoura o saco de roupas no chão e provoca uma explosão. Depois sobe em cima da banca e joga as peças. São blusas, camisetas, vestidos espalhados por todos os lados. Algumas peças arremessadas sobre os clientes, outras espalhadas pelo chão nada limpo. Mas isso não importa. Como em toda boa feira, trocadilhos, músicas inventadas animam a performance. “As pessoas animadas gastam mais”, diz Batista, que há dez anos tem esse trabalho.

Assim como Batista, os comerciantes, sejam ambulantes, feirantes ou estabelecidos em grandes lojas no comércio de rua ou no shopping center, se multiplicam pela cidade. Na década de 80, a associação comercial lançou o slogan “Santo Antônio de Jesus: o comércio mais barato da Bahia” e a fama pegou. “Não deixamos a venda sair da cidade”, conta Herivaldo Nery, vice-presidente do sindicato patronal do comércio varejista. Faz 30 anos que os lojistas optaram por cortar margens, negociar mais com os fornecedores para ganhar nas quantidades vendidas. “Aqui ninguém explora preço.”

Outra característica do varejo local é o crediário com recursos dos próprios lojistas. Na Comercial São Luis, fundada em 1941 – a loja mais antiga de departamentos da Bahia –, o carnê responde por 45% das vendas de 25 mil itens: do tijolo ao celular.

De fora. “Aqui o comércio é à moda antiga”, diz Keila Brandão, gerente executiva. Cerca de 40% dos 14 mil clientes ativos do carnê, a maioria da classe C, são de fora. Na verdade, a população dessa pequena cidade de 100 mil habitantes encravada no Recôncavo Baiano chega a dobrar diariamente. Esse contingente, vindo de 47 municípios nas redondezas de Santo Antônio de Jesus, é atraído pelo comércio local, pelo serviço médico – são 40 clínicas instaladas no shopping center e 4 hospitais –, pelas quatro universidades e até por serviços básicos, como emissão de carteira de identidade.

Edmunda dos Santos, de 81 anos, e o marido Josezito dos Santos, de 76 anos, moradores da área rural do município vizinho de Amargosa, pegaram uma lotação às quatro horas da manhã para ir ao shopping center em São Antônio para renovar a carteira de identidade. “Venho sempre aqui para consulta médica”, conta a aposentada, que aproveitou para fazer uma pausa na frente de loja de grife no shopping.

Polo. A localização estratégica faz de Santo Antônio de Jesus um polo de convergência regional de três rodovias: a BR-101 que liga a Salvador; a BA-046 que é a conexão até Itaparica; e a BA-026, que é ligação com as cidades localizadas a oeste do município. Também a perspectiva da construção de uma ponte ligando Itaparica a Salvador amplia a posição estratégica da cidade. É que a ponte encurtará o escoamento de mercadorias pelo Porto de Salvador.

Atualmente, a população flutuante da cidade movimenta o comércio local que já respondeu no passado por 95% do PIB do município de R$ 1,147 bilhão. Mas nos últimos tempos cresceu a fatia da indústria. “O distrito industrial ficou pequeno”, diz Maria da Conceição Gonzalez, gerente da Superintendência de Desenvolvimento Industrial da Bahia. Até dezembro, um novo distrito será inaugurado. Com 440 mil m² e capacidade para 40 indústrias, há 9 empresas com processos em andamento para se instalar no polo em troca de benefícios fiscais. Há também mais 15 empresas interessadas.

Fora do distrito, os investimentos não param. A farmacêutica Natulab investiu R$ 130 milhões na segunda fábrica, com a geração de 300 empregos. A gaúcha Ramarim, de calçados, acaba de inaugurar uma indústria com 300 empregos. E a Bahia Vidros investiu R$ 11 milhões em máquinas para modernizar a linha de produção. 

Tudo o que sabemos sobre:
ConsumocomércioFeira de Santana

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

De cidade dormitório a polo industrial

Em 10 anos, Hortolândia atraiu 300 indústrias de vários setores, como tecnologia de informação, farmacêutico e ferroviário

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 21h00

HORTOLÂNDIA (SP) - Até cinco anos atrás, a professora de inglês Alessandra Batista, de 39 anos, casada e mãe de Mariana, de 2 anos, trabalhava numa escola particular em Campinas (SP) e ganhava R$ 1,2 mil mensais. Em 2010, ela prestou um concurso para ensino público em Hortolândia (SP). No ano seguinte, o inglês passou a fazer parte do currículo da 1.ª à 4.ª série do ensino fundamental da rede pública e a professora mudou de emprego. “Meu salário melhorou muito”, conta ela, que recebe hoje R$ 3 mil mensais na escola pública.

Diariamente, Alessandra percorre 20 km de Campinas, onde mora, até Hortolândia, onde trabalha. A professora faz parte de um grupo de trabalhadores que inverteram a mão de direção do fluxo de pessoas que antes moravam em Hortolândia e trabalhavam em Campinas. 

Em 2005, Hortolândia, cerca de 100 km de São Paulo, era uma cidade dormitório e liderava o ranking de indicadores ruins: 17,2% da população do município em idade de trabalhar estava desempregada. Na época, era praticamente o dobro do índice de desemprego da Região Metropolitana de Campinas. Por conta do quadro econômico, a cidade era tida como uma das mais violentas do Estado de São Paulo.

No 1.º semestre deste ano, enquanto Campinas fechou 4.595 postos formais de trabalho, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados aponta que Hortolândia criou 42 empregos com carteira assinada. O resultado pode parecer pequeno, mas perto do desemprego que predomina no País, o município é um destaque positivo.

“Neste ano, o PIB (Produto Interno Bruto) do município – estimado em R$ 8,5 bilhões – deve crescer”, prevê Dimas Correa Pádua, secretário municipal de Indústria, Comércio e Serviços. Ele sustenta essa projeção, que vai em sentido contrário ao esperado para o País – queda de até 2% do PIB–, nos investimentos previstos. De 2013 a 2015, a cidade está recebendo R$ 2,2 bilhões de investimentos.

A Havan, rede catarinense de lojas de departamentos, é uma das empresas que apostaram em Hortolândia. Faz nove meses que a empresa abriu uma unidade na cidade. “Decidimos abrir loja em Hortolândia pelo grande crescimento econômico que a cidade teve nos últimos anos”, diz o diretor-presidente, Luciano Hang. Ele conta que o desempenho da loja está um pouco acima de outras unidades na mesma fase por causa do poder aquisitivo da cidade e da região.

Outro grupo que está apostando na região é a incorporadora imobiliária Trade Invest. O grupo vai aplicar R$ 100 milhões num complexo multiuso de 44 mil m² de área construída que inclui hotel, torres de escritórios, de apartamentos residenciais e galeria de lojas. Luiz Roberto Pessoa Gonçalves, diretor da empresa, disse que a decisão de investir nesse projeto que prevê a construção do maior hotel da região, com 198 apartamentos, foi tomada porque se constatou uma deficiência de hospedagem para atender a forte demanda de executivos de grandes empresas.

“Ainda não sentimos a crise”, afirma Guilherme Quinteiro, coordenador de marketing do Shopping Hortolândia. Com 85 lojas e voltado para as classes B e C, o shopping fechou o 1.º semestre com crescimento de 5% nas vendas. Ele conta que recentemente foi procurado por uma grande rede varejista interessada em abrir uma loja física no shopping por descobrir que Hortolândia liderava as vendas online da rede.

Indústria. Apesar de o comércio estar atraindo importantes varejistas para a região, o motor da economia local é a indústria, especialmente da área tecnológica. IBM, Dell Computadores, ZTE, por exemplo, estão estabelecidas em Hortolândia. A proximidade do polo de tecnologia de Campinas fez crescer o número de empresas correlatas.

Mesmo com a especialização, o secretário municipal observa que a indústria é diversificada e, na sua opinião, isso explicaria o fato de a economia da cidade ter sentido até agora menos o impacto da crise.

Atraídas pelo mercado, 300 indústrias se estabeleceram no município nos últimos dez anos. “Temos um polo ferroviário com indústrias importantes na produção de vagões e metrô, como a Bombardier, AmstedMaxion, CAF”, exemplifica Pádua. Também o segmento farmacêutico é outra vertente do município, onde estão as fabricantes EMS e Galderma. No momento, Pádua diz que a crise tem desdobramentos nas empresas de eletrodomésticos e nos segmentos metalúrgico e automobilístico.

Tudo o que sabemos sobre:
ConsumoComércioHortolândia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Na cidade dos motores, turismo atrai empresas

Conhecida por ser sede da Weg Motores, a catarinense Jaraguá do Sul começou a sediar lutas da UFC e entrou na rota de investidores

Marcos Dias de Oliveira, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 21h00

JARAGUÁ DO SUL (SC) - Tradicional polo de fabricação de malhas e sede da Weg, a principal fabricante de motores elétricos do País, Jaraguá do Sul, a 200 km de Florianópolis (SC), começa a aparecer como centro de eventos esportivos. Etapas da UFC, da Liga Mundial de Vôlei e da Liga Nacional de Futsal são disputadas num dos mais completos palcos para o esporte: a Arena. Esses eventos têm atraído um grande número de turistas para a cidade de 160 mil habitantes, que começa a receber investimentos também no setor de serviços.

A incorporadora imobiliária Trade Invest, por exemplo, tem um projeto de investimento, ainda em fase de aprovação, para construir um shopping center de 26 mil m² de área de lojas (ABL), torres residenciais, de escritórios e um hotel, exatamente para atender à essa demanda por serviços. “Percebemos que quem vêm para a cidade assistir a esses eventos têm de se hospedar em Curitiba (PR), que fica a mais de 100 km”, diz o diretor da incorporadora, Luiz Roberto Pessoa Gonçalves.

A incorporadora pretende investir R$ 200 milhões nesse empreendimento. Já adquiriu uma área de 110 mil m² no município. O executivo está animado com o projeto, ressaltando que o desemprego é praticamente zero na cidade. Isso torna a região atraente em termos de renda e consumo. Mas o outro lado da moeda é a escassez de mão de obra.

Emprego. Jaraguá do Sul vive um bom momento de empregabilidade e de expansão de suas empresas, apesar da crise que afeta o País. No primeiro semestre deste ano, o município posicionou-se na terceira colocação no ranking das cidades que mais abriram postos de trabalho. Hoje o município é o quinto maior do Estado, do ponto de vista econômico, com a renda per capita de R$ 45.069,49 e 77% da população morando em casa própria.

O fato de a cidade ter várias empresas que competem no mercado mundial – com produtos e serviços de considerável valor agregado e mão de obra local relativamente qualificada – contribuiu para o baixo índice de desemprego, mesmo em períodos de crise, como o atual. Além disso, a economia é diversificada. O parque fabril inclui segmentos como vestuário, alimentício e eletromecânico. No segundo trimestre, a Weg, por exemplo, faturou R$ 2.349 milhões, com crescimento de 29% sobre o mesmo período de 2014. Além da indústria, o comércio varejista é outra força da economia local e o setor é quarto maior empregador de Jaraguá do Sul.

Emprego estável se traduz em consumo. O professor Alaan José Kruk, 37 anos, por exemplo, está otimista, apesar da crise. Ele decidiu pesquisar antes de comprar um automóvel zero na faixa de R$ 50 mil. Para ele, crises sempre existiram e não devem ser motivo para desmotivação. “Depois do carro pretendo adquirir um apartamento numa das praias do litoral catarinense.”

O encarregado que trabalha numa empresa do setor de malharia, Reinaldo Francisco, é outro que está confiante Ele decidiu comprar uma máquina de lavar roupa nova. “A outra queimou e decidimos (com a mulher, Suziane de Fátima) aproveitar o crediário sem juros para comprar uma nova.” Ele conta que a empresa onde trabalha há seis anos está em plena produção, por isso acredita que o seu orçamento não será afetado.

Perspectiva. Para impulsionar o desenvolvimento da cidade, o prefeito Dieter Jenssen encomendou ao Instituto Jourdan um plano que define a política de desenvolvimento, onde são apontadas ações de curto, médio e longo prazos. Uma das metas é facilitar a instalação de novas empresas na cidade em um tempo recorde de 90 minutos. Prospectar condomínios empresariais e empresas voltadas aos segmentos de Tecnologia da Informação (TI), setor energético e automobilístico e foco alternativo nas atividades de design, moda, economia criativa e hoteleiro, estão entre as metas.

Tudo o que sabemos sobre:
Wegeventosinvestimentos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.