Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Na crise, a classe C luta para manter o padrão de vida

Condomínio no Rio retrata como os brasileiros enfrentam a recessão e o corte nos programas sociais

Clarissa Thomé (texto) e Fábio Motta (fotos), O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 19h00

RIO - Mônica já recebeu o Bolsa Família. “Não era muito, mas dava para comprar cinco quilos de arroz, macarrão. Fazia um ‘efeito colateral’ bom.” A diarista Jane Beatriz paga parte da própria passagem porque as patroas não querem arcar com os custos das três conduções. O filho pretende cursar serviço social, mas não tem esperança de conseguir uma bolsa do ProUni. “Vai tentar o desconto para negros de uma faculdade aqui perto.” Nádia contava com o cartão Minha Casa Melhor para mobiliar o apartamento. Com o corte no programa do governo, que garantia R$ 5 mil, pagos em 48 parcelas, para a compra de móveis e eletrodomésticos, se endividou. “Pobre é metido a parcelar.” Sem receber há dois meses, Priscila vai trocar a carreira de técnica de enfermagem pela de fornecedora de quentinhas. “A crise não é uma coisa que a gente ouve falar, que está na casa do vizinho. Está na nossa casa.”

As histórias de moradores do Condomínio Vivendas das Gaivotas, em Cosmos, na zona oeste do Rio de Janeiro, são o retrato do que se passa nas casas do País. Inaugurado pela presidente Dilma Rousseff em maio, no programa Minha Casa Minha Vida, uma das vitrines dos governos petistas, o conjunto tem 485 apartamentos – 35% dos quais inadimplentes.

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CRISE FRUSTRA APOSTA DE EMPREENDEDORES

O ex-servidor público Marcos Santos, de 33 anos, juntou as economias e abriu uma loja de peças, acessórios e consertos de computadores e tablets em frente ao condomínio Vivendas das Gaivotas. A ideia era oferecer serviços “a preço razoável” para uma população de baixa renda. As coisas não vão bem. Primeiro uma chuva mais forte, em dezembro, inundou a loja e a água chegou a um palmo de altura. Havia equipamentos de clientes e Santos teve de arcar com os prejuízos. Desde o meio do ano, o movimento esvaziou. </p>

O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 19h00

Caiu tanto o movimento que ele instalou três computadores com acesso à internet. Como não tem licença eitura para abrir uma lan house, não faz propaganda da novidade. Quando entra alguém na loja, Santos fica na expectativa: “Mas o que mais tem é gente para perguntar se estou contratando. Mal está dando para um”.

Tiago Almeida, de 30 anos, também está sofrendo com a crise. Há seis anos, deixou a oficina mecânica em que trabalhava e abriu um pet shop, também próximo ao condomínio. Costumava dar banho e fazer a tosa em 120 cães por mês, a preços que variavam de R$ 50 a R$ 70. O movimento caiu pela metade. “Quando chega a 70 cães eu até fico feliz. Aqui na zona oeste o pessoal cobra até R$ 100. Mesmo cobrando mais barato, não consigo clientes”, acredita Almeida, que cogita voltar a trabalhar como mecânico. 

Dono de uma franquia de picolés, Charles Souza, de 40 anos, viu na vizinhança mais pobre uma oportunidade. O forte no seu comércio é a revenda. “A verdade é que quando o desemprego aumenta, o pessoal corre para cá. É uma forma de garantir uma renda. Com esse calor, a venda é certa”. Souza tem uma queixa: a conta de luz. Com 36 freezers, chega a pagar R$ 4 mil mensais. 

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‘A BANDEIRA VERMELHA ESTÁ PREJUDICANDO'

Na casa de Sílvia de Oliveira Simões, de 30 anos, só quem toma banho quente é o caçula, Fernando, de 12 anos. Ele tem distrofia muscular de Duchenne, doença progressiva em que os músculos vão se degenerando. Desde os 6 anos, o menino não anda. “Ele sente muito frio. Mas eu, meu marido e o mais velho, de 13 anos, só tomamos banho frio. Eles (a construtora) quiseram instalar aquecedor, mas eu abri mão para a conta do gás não ficar muito alta. E também porque tenho medo de vazamento”. Quando morava com a mãe, o botijão chegava a durar dois meses e meio. </p>

O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 19h00

O primeiro mês de casa nova foi de susto com a conta de luz: R$ 169. “Esse negócio de bandeira vermelha está prejudicando muito. Já não sei mais o que fazer. No último mês, veio R$ 100”, diz Sílvia, que não trabalha. Ela diz que não contava com o corte no Minha Casa Melhor”. “Mobiliei a casa com ajuda dos outros. Não posso tirar dinheiro da comida para comprar móvel, mas o Fernando precisa de uma cama de melhor qualidade”. 

Mônica Nunes da Silva, de 47 anos, era outra que esperava receber o cartão do Minha Casa Melhor. Mudou-se para o Gaivotas levando cama, cômoda, televisão e um tapete. O irmão deu o fogão. O filho pagou R$ 150 pela geladeira. Assiste à TV sentada na cadeira de praia emprestada pela vizinha do 204. “Antes morávamos todos no apartamento de três quartos que era da minha mãe, em Padre Miguel.”

Ex-auxiliar de serviços gerais do Tribunal Regional Eleitoral, Mônica está desempregada. “Tenho reumatismo, artrose nos joelhos, esporão, bursite. Também sou hipertensa e diabética. Não consigo colocação. Mas minhas contas estão em dia”, orgulha-se. As filhas pagam a prestação do apartamento de R$ 25. O genro, o condomínio. “O único luxo é o ventilador. Mesmo assim minha conta de luz veio R$ 80. Não consigo resolver.”

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‘AQUI DEVIA SE CHAMAR MINHA CASA MINHA DÍVIDA’

A diarista Jane Beatriz Thadeus, de 51 anos, não mede palavras: “Aqui devia se chamar Minha Casa Minha Dívida. O condomínio era R$ 50, passou para R$ 80 e queriam que fosse R$ 120. Imagina? O botijão de gás dava para um mês e meio, pelo menos. Agora, sou obrigada a pagar o gás encanado. E ainda tem a luz. Eu sabia que ia ter condomínio, mas não que não ia caber no meu orçamento.” </p>

O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 19h00

Diarista, viu a situação apertar quando passou a perder clientes. “Hoje em dia ninguém paga a minha passagem toda. Tem dias que eu pego o BRT, o trem e depois ando para economizar a outra passagem.” 

Ela mora com o filho caçula, que está terminando o ensino médio e quer cursar Serviço Social. “Não tenho esperança que ele consiga bolsa no ProUni. Teve corte, né? É mais certo o desconto para negros que tem numa universidade. Vai ser mais uma conta para pagar.” 

Mesmo com as dívidas, Jane ainda prefere o condomínio. Ex-moradora no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte, enfrentava tiroteios quase diários. “Um dia corri com a polícia e caí: tinha enfartado.”

A filha adolescente passa a semana na casa de um tio. Quer cursar o ensino médio em escola militar e faz preparatório. “Quando ela chega, quer assar um bolo. Eu deixo, né? Não vou reclamar que está gastando gás. O cursinho custa R$ 100. Às vezes, atraso uma conta para pagar outra. Mas sempre pago o curso dela.”

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‘A CRISE NÃO ESTÁ NO VIZINHO. ESTÁ NA NOSSA CASA’

Priscila Cristina Guedes Lopes, de 42 anos, é técnica de enfermagem especializada em alta complexidade. Trabalho cooperativada, com serviço de home care. Mas há dois meses não tem pacientes. Seu contracheque zerou. “As pessoas estão cortando o plano de saúde e não fui mais chamada. Ficamos só com o salário da Raquel, minha companheira, que trabalha no setor de informática de um laboratório.” </p>

O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 19h00

O casal costumava frequentar churrascaria e restaurante japonês, e receber amigos em casa “para uma cerveja”. “Isso acabou. Hoje raramente saímos e levamos a quantia certa que vamos gastar. Ela trocou o benefício do vale-refeição pelo vale-alimentação. Preferimos usar no supermercado porque as compras estão muito altas.”

As duas estão sem cartão de crédito. Tiveram de escolher entre pagar a fatura ou arcar com as outras despesas. “A crise não é uma coisa que a gente ouve falar, que está na casa do vizinho. Está na nossa casa”, resume Priscila. 

Priscila está pensando em oferecer quentinhas para os vizinhos do condomínio. “Comida as pessoas não têm como cortar.” 

A ambulante Rafaela Viegas, de 25 anos, não mora no Gaivotas. É vizinha no condomínio Vivenda das Castanheiras, erguido há cinco anos também dentro do programa Minha Casa Minha Vida. Ela vai ali a trabalho. 

Rafaela era encarregada em um posto de gasolina, que foi à falência e está há cinco meses desempregada. “Antes, a gente podia escolher a melhor oferta de trabalho. Agora tem de inventar um”. Foi o que ela fez. 

Pegou o dinheiro da rescisão e foi a São Paulo comprar roupas e calçados. “Vou de casa em casa das freguesas, nos salões de beleza. Vendo fiado e aceito parcelar. O bom é que o Facebook e o Whatsapp ajudam nas vendas.”

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‘NÃO TRABALHO E ATÉ PARA A FAXINA ESTÁ DIFÍCIL’

Fabiana Cruz, de 35 anos, o marido e as filhas moravam na Pavuna, ao lado do rio. Em dezembro, perdeu roupas, móveis e documentos numa enchente. “A gente passava as noites de chuva tomando conta do rio. Várias vezes acordamos no meio da noite praticamente boiando em casa. Em dezembro, foi pior. Foi tudo embora”. A família passou meses “morando de favor”, em casa de parentes. As coisas mudaram quando foi sorteada. “Nem acreditei. Vim para cá sem nada.” </p>

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 19h00

A geladeira e o fogão são “de segunda mão”. Ela e o marido dormem em cima de papelão, coberto por lençol. As filhas Taynná, de 13 anos, e Ketlin, de 10, se acomodam sobre colchão inflável que furou. “Elas não estão estudando. Ketlin nem sabe como escreve o nome. Não tenho Bolsa Família, não estou trabalhando. Até para faxina está difícil”. O marido carrega e descarrega caminhão. Trabalha em Belford Roxo e sai de casa às 3h30. “Aqui não chove dentro de casa, mas é tudo muito difícil. Tem o condomínio, a conta de luz, o gás. Agora querem colocar hidrômetro nos apartamentos e portão elétrico. Essas coisas são muito caras”.

Terezinha, o marido e o filho de 3 anos moravam com os pais dela. Chegaram a sair de lá algumas vezes. “Pagávamos aluguel e quando as coisas apertavam, voltávamos. Foram 13 anos assim. Em maio, fui sorteada. Foi um alívio ter minha liberdade.” O marido é formado em marketing, mas trabalha com telecomunicações. “É um setor que sempre tem demissões, mas quem se qualifica tem emprego.” Ela não terminou de montar o apartamento. “Ganhei o quarto do meu filho e já tinha geladeira e fogão. Mas não vou fazer dívida. Quero poder dormir.”

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‘SE RICO ESTÁ RECLAMANDO, IMAGINA A GENTE’

Não é só no condomínio do programa Minha Casa Minha Vida que as coisas estão difíceis. Nas casas simples da vizinhança, os moradores também estão alterando a rotina. A dona de casa Nívea Cândida Alves, de 42 anos, transferiu o filho mais velho da escola particular para uma instituição estadual e economiza, assim, os R$ 500 da mensalidade do primeiro ano do Ensino Médio. O caçula, de 10 anos, ainda não foi para o ensino público. “É difícil conseguir vaga assim no meio do Ensino Fundamental. No Estado, eles têm de abrir vaga no primeiro ano para todo mundo.” Nívea diz que o mais velho está estranhando a mudança. “Sente falta dos amigos, os professores faltam muito. Ele sempre chega cedo em casa.” </p>

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 19h00

Ela mudou hábitos também. Cortou a saída no fim de semana. Mantém o ar-condicionado desligado. “A não ser quando o calor fica insuportável”, ressalva. Nívea foi guarda municipal por 10 anos. Deixou o serviço público porque não tinha quem cuidasse dos filhos. O marido trabalha no setor de troca de óleo de um posto na Barra da Tijuca, na zona oeste. “Ali vai artista, empresário. Mas eles já não trocam óleo, não enchem tanque. Se rico está reclamando, imagina a gente”, afirma. “Para mim não está tão ruim. Tenho meu carro, meu marido tem o dele. Nunca deixei de pagar o INSS. Mas tenho uma irmã que tem quatro filhos e para ela está muito difícil.” 

A dona de casa Helena Porto, de 76 anos, foi a segunda moradora do condomínio Monteserrat, de casas lineares e sobrados, ao lado do Vivendas das Gaivotas. “Há 22 anos, isso aqui não tinha nada, era um sítio. Não tinha luz, não tinha um portão para fechar (o condomínio), o transporte era ruim. A gente viu uma melhora. Chegou o BRT. Agora as coisas estão difíceis outra vez. Eu sou pensionista, mas tem muito vizinho sofrendo com o desemprego.”

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