Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Valadares volta a sonhar com os Estados Unidos

Com alta do dólar e crise da economia do País, cidade mineira revive processo migratório

Luiz Guilherme Gerbelli (textos) e Gabriela Biló (fotos), O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2015 | 03h00

O visto de turismo é a principal porta de saída de quem quer deixar Governador Valadares

GOVERNADOR VALADARES (MG) - Um roteiro se repete em Governador Valadares, Minas Gerais. A sensação entre os moradores é da volta de uma história já contada nos anos 80, quando muitos deixavam a cidade em plena década perdida para tentar construir uma nova vida nos Estados Unidos.

A recessão brasileira, a mais severa desde 1990, e a recuperação da economia americana dão suporte à retomada do sonho americano para uma população que vivencia plenamente a cultura da migração.

O fluxo migratório não é tão intenso como há 20 ou 30 anos, período no qual Governador Valadares ficou conhecida como “valadólares” por causa da quantidade de remessas de dólares que chegavam à cidade.

“O aumento do dólar tende a estimular essa vontade de migrar, mas não existe uma demanda no mercado de trabalho secundário dos Estados Unidos tão intensa como havia no passado”, afirma Sueli Siqueira, pesquisadora e professora da Universidade Vale do Rio Doce. “As pessoas falam, principalmente, mais do desejo de ir, e algumas, de fato, estão indo para os Estados Unidos.”

Poucos se arriscam a migrar para os EUA de forma ilegal. A cidade ainda tem os chamados coiotes ou cônsul - agenciadores que organizam a travessia de forma ilegal, principalmente pela fronteira do México. Hoje, a travessia ilegal está mais perigosa, porque os traficantes dominaram a fronteira mexicana, e mais cara: uma aventura dessas pode custar US$ 20 mil; na década de 80, o valor variava entre US$ 9 mil e US$ 15 mil.

Atualmente, a maioria dos valadarenses só se muda para os EUA com a certeza de ter um elo que faça parte da rede de contatos estabelecida nas últimas décadas, seja por meio de um parente ou por um antigo patrão, por exemplo.

O visto de turismo é a principal porta de saída de quem quer deixar o País. Muitos vão para os EUA e depois não voltam. Começam a trabalhar lá e vivem sob o risco de serem descobertos pelas autoridades locais.

A retomada do processo migratório já fez com que dois funcionários do consulado americano do Rio visitassem a cidade neste ano por causa do aumento do número de solicitações pelo visto. Toda quarta-feira um ônibus parte com moradores da região de Governador Valadares para o consulado americano no Rio. Na semana passada, por causa da grande demanda, deixaram a cidade dois ônibus com 80 pessoas a caminho do Rio. Cada um pagou R$ 322 pelo trajeto. “Os que estão regressando para os EUA são, principalmente, aqueles que montaram um negócio em Governador Valares. Uns fecharam esses negócios, outros deixaram com parentes”, afirma Edmilson Soares dos Santos, secretário de Desenvolvimento de Governador Valadares.

A demanda maior dos moradores pelo visto também fez com que a taxa de concessão tivesse um pequeno recuo, de 97% para 95%. Nas estatísticas de quem teve o visto negado está o jovem Bruno Fernandes Alves, de 24 anos. O pai, a mãe e a avó também não conseguiram o visto. Os quatro viajaram até o Rio em agosto. “A ida para os Estados Unidos é uma chance de recuperar as oportunidades que não tive aqui.” Bruno deve tentar o visto novamente em fevereiro. Ele trabalha com acabamento em obras e diz que esse trabalho é mais valorizado nos EUA. Para ele, o sonho americano é a chance de dar uma vida melhor para a filha de seis anos. 

Famílias transnacionais. O fluxo migratório é observado em Governador Valadares desde a década de 60. A presença de estrangeiros na cidade começou um pouco antes, na década de 40. Durante a 2ª Guerra, a cidade era importante fornecedora de mica para os EUA. Mais tarde os americanos também foram responsáveis pela ampliação da estrada de ferro Vitória a Minas - que corta toda a cidade.

Uma das famílias americanas - a do Mister Simpson - ficou na cidade e inaugurou uma escola de idiomas. Num convênio com o governo americano, alguns alunos viajaram para estudar inglês nos anos 60, em pleno auge da propagação da cultura americana pelo mundo. Os que retornaram trouxeram a ideia do sucesso americano, e o fluxo de migrantes se intensificou desde então levando a cultura de migração na cidade crescer.

Houve uma reversão desse processo apenas com a crise internacional de 2008. Nesse período, muitos valadarenses perderam o emprego nos EUA e, sobretudo, a partir de 2010, voltaram a Governador Valadares para aproveitar o bom momento da economia brasileira.

Ao longo das últimas décadas, a saída e a chegada dos valadarenses deu origem às famílias consideradas transnacionais - aquelas que têm parte vivendo no Brasil e parte morando nos EUA. Na microrregião de Governador Valadares, em alguns municípios, 82% dos domicílios chegam a ter presença migratória. “O retorno sempre existiu porque o projeto migratório é destinado para voltar algum dia, embora alguns tenham ficado por lá”, diz Sueli Siqueira, da Univale.

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'Nos EUA, os imigrantes vivem em estado de medo'

Para pesquisadora, mesmo quem tem documento sempre vai ser diferente: 'sempre vai ser um de fora'

Entrevista com

Sueli Siqueira, pesquisadora e professora da Univale

Luiz Guilherme Gerbelli , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2015 | 03h00

1. Quais as consequências dessa migração para a economia?

A migração não se constitui em um ciclo econômico. É uma mobilidade humana. O país de origem dos imigrantes é geralmente o perdedor no sentido econômico. Ele faz investimento na formação desse indivíduo e, na hora que tem a força de trabalho para desenvolver, esse trabalhador vai para fora. O destino só ganha. Recebe uma mão de obra saudável e jovem e descarta na hora que não precisa. Como aconteceu na crise, a deportação no período foi muito grande. 

2. Como é a condição de vida de quem decide migrar?

As condições de vida lá são extremamente degradantes. As pessoas vivem em estado de medo, principalmente quem não tem documento. E mesmo quem tem o documento sempre vai ser diferente, sempre vai ser um de fora. Mas como tem essa ideia de que lá é melhor do que aqui, o migrante pode viver na franja de uma sociedade rica, mas ele vai se sentir como se estivesse num mundo de riqueza.

3. É possível saber quantos brasileiros estão nos EUA?

Não temos esse dado. O censo americano não tem a categoria brasileiro nem a categoria latino. Tem a categoria hispânico, mas nós não somos hispânicos. Se existisse a categoria latino, poderíamos nos caracterizar como latinos. É difícil para o brasileiro se caracterizar. E o censo brasileiro de 2010 trouxe pela primeira vez essa preocupação e mesmo assim as questões sobre migração não deram muita dimensão da quantidade. Foram mais da localidade. 

4.Por que as pessoas ainda se arriscam a migrar ilegalmente?

É uma cultura. As pessoas correm o risco porque todos correm. Hoje, há outros caminhos (além do México). As pessoas vão pela Guatemala. Fazem caminhos até demorados para chegar aos EUA. Os descendentes de italianos, por exemplo, pegam a cidadania e não vão para a Itália. Vão para os EUA. Mas ao chegarem lá se tornam indocumentados no momento em que começam a trabalhar.

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Visto, deportação e sonhos de uma vida melhor

Veja as histórias de quatro valadarenses que já moraram ou pensam em ir para os Estados Unidos

Luiz Guilherme Gerbelli , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2015 | 03h00

'É UM SONHO DE CONSUMO’

Nos planos da microempresária Josilaine Rocha, de 29 anos, o encontro com o marido que mora nos Estados Unidos vai acontecer até o fim do ano. Em novembro, ela pretende conseguir o visto de turista e embarcar para o país.

O marido vive próximo de Miami e já está com o processo para a obtenção da cidadania americana em andamento. Em 2001, ele chegou aos EUA de forma ilegal. Fraudou documentos para conseguir embarcar. Viveu assim por dez anos e se casou com uma americana. 

Descoberto, coube ao pai dele assumir a culpa pela fraude na papelada e livrar o filho da Justiça americana. “Ele se casou lá, depois se separou e conseguiu a documentação por meio da ex-mulher americana.”

Sem culpa na Justiça americana, voltou ao Brasil. Josilaine o conheceu há quatro anos. O casal tem uma filha de dois anos, que também deve se mudar para os EUA. “Morar nos EUA é um sonho de consumo. Viver num país de primeiro mundo e ter mais segurança são questões de qualidade de vida.” 

Se os planos derem certo, ela vai deixar uma outra filha no Brasil, de oito anos. “Ela não larga a avó de jeito nenhum.”

CRISE REDUZ PERSPECTIVAS

Nuno Luiz Pereira, de 23 anos, está no quinto semestre de engenharia mecânica. Faltam mais cinco semestres para ele terminar o curso, mas quando sonha com os Estados Unidos não se importa em imaginar uma vida longe da engenharia, mesmo que isso implique num trabalho considerado secundário, como muitos migrantes fazem na economia americana. “No Brasil, as coisas estão muito difíceis”, afirma. 

Nas palavras dele, há um desapontamento com o excesso de corrupção no País e uma falta de perspectiva como a crise atual. “Não gosto das coisas erradas.” Nuno tem um tio que mora há dez anos nos Estados Unidos. 

‘NÃO GANHEI NADA NÃO’

A enfermeira Eliana Gonçalves da Cruz, de 54 anos, deixou o País ilegalmente em 1991. Embarcou para os Estados Unidos por um método conhecido como montagem - quando uma pessoa compra o passaporte com visto americano e troca apenas a foto do documento.

Tirou outro passaporte e voltou ao Brasil em 1998. “Na época, os valadarenses iam para os EUA com o objetivo de trabalhar e ganhar dinheiro para conseguir alguma coisa no Brasil”, afirma. “Mas não ganhei nada, não. Quando eu vim de lá trouxe US$ 10 mil.”

No Brasil, deixou um filho. Tentou levá-lo para os EUA, mas o pai do garoto não o deixou embarcar. Até entrou na Justiça para evitar a saída do menino do País. “Na época, era como se eu estivesse raptando meu filho.”

Nos Estados Unidos, engravidou novamente. Teve uma filha. Hoje, tem esperança de retornar aos EUA. A filha de Eliana se casou com um brasileiro naturalizado americano e já teve filhos. “Por ser legal, a minha filha vai fazer a carta de chamada. Se o governo dos Estados Unidos aprovar, eu vou para lá de forma legal”, afirma. “Não é difícil, não.”

Nos consulados espalhados pelo Brasil, a enfermeira já teve o visto negado quatro vezes.

DEPORTADO APÓS ACIDENTE

No ano passado, o motorista Ronaldo da Cunha Ferreira, de 44 anos, foi deportado dos Estados Unidos. 

Ronaldo entrou no país de forma ilegal. Saiu do Brasil com uma dívida de US$ 7 mil para ser quitada em três anos. Chegou aos EUA no fim de 2002, depois de passar o Natal no México.

Nos EUA, trabalhava das 5 horas da manhã até as 22 horas em dois empregos. Dividia a rotina entre um restaurante e um hospital. Ele foi descoberto quando se envolveu num acidente de carro. “Hoje, só volto para o Canadá ou Portugal.”

A família está dividida. Metade dos irmãos e o pai moram nos EUA, e o restante - a mãe já faleceu - em Governador Valadares.

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Cidade vê corte de empregos pela primeira vez desde 2009

Desaceleração da economia é sentida principalmente no comércio, que perdeu de janeiro a setembro 1.185 postos de trabalho formais

Luiz Guilherme Gerbelli , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2015 | 03h00

A crise econômica enfrentada pelo País também abateu Governador Valadares. Entre janeiro e setembro, as empresas da cidade fecharam 2 mil postos de trabalho com carteira de trabalho assinada. É o primeiro resultado negativo desde 2009 e o mais intenso observado desde 2003, pelo menos.

Os principais efeitos da desaceleração econômica são observados no comércio. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que esse setor já destruiu 1.185 postos formais este ano. Como no cenário nacional, a alta do desemprego e o aumento da inflação tiraram o ímpeto de compra das famílias locais. “O Brasil inteiro está em crise, não é só Governador Valadares. O poder de compra de quem mora aqui diminuiu. Ou as pessoas estão pagando dívida ou por receio, gastando menos”, afirma Edmilson Soares dos Santos, secretário de Desenvolvimento de Governador Valadares.

Casas coloridas espalhadas pela cidade são marca do processo migratório

Nas contas do empresário Sérgio Márcio Queiroz, de 46 anos, dono de uma loja de acessórios para automóveis no centro da cidade, as vendas neste ano já caíram 70%. “As pessoas estão comprando menos e há um agravante adicional: a seca”, diz. Ele vende acessórios para para-brisas de carros, como palhetas, e, portanto, o menor volume de chuva diminuiu a demanda pelo produto. 

Uma das expectativas da retomada da economia local está no possível aumento das remessas de dólares que podem começar por causa do aumento da emigração. 

Pelo menos nos últimos anos, o dinheiro enviado para Governador Valadares tem aumentado. Em 2014, foram registradas 30.666 transações, acima das 28.191 apuradas em 2013, segundo levantamento feito pela empresa Western Union. “A expectativa é que os números de 2015 mostrem um novo aumento”, diz o secretário. “O ciclo do dólar está voltando. Não acredito que deve ser na mesma proporção observada em outros anos, mas pode ajudar a aquecer a cidade.”

De fato, as remessas em dólar já desempenharam um papel importante na cidade. Elas ajudam a impulsionar o comércio e a construção civil. Muitos valadarenses constroem seus prédios ou abrem negócios próprios mesmo morando nos Estados Unidos.

Entre 2011 e 2014, a cidade recebeu US$ 91 milhões. A maior parte do dinheiro vem dos Estados Unidos (84%), seguido por Portugal (7%), um destino também procurado pelos moradores que buscam deixar o País. 

“Não se pode afirmar que houve uma dependência dos dólares. Mas ele sempre foi importante para a construção civil, sobretudo nos anos 80, quando ajudou a dar um boom”, afirma Sueli Siqueira, pesquisadora e professora da Universidade Vale do Rio Doce (Univale).

Marca da migração. As casas coloridas espalhadas por Governador Valadares se caracterizam como as principais marcas da migração na cidade. Normalmente, elas são construídas por quem morou nos Estados Unidos ou ainda vive por lá, e ficam mais visíveis na periferia.

Governador Valadares tem poucas características inspiradas nos EUA, apesar do fluxo migratório. Algumas residências dos primeiros habitantes americanos que participaram da ampliação da estrada de ferro de Vitória a Minas estão preservadas. São casas de madeira, construídas com base na arquitetura existente na região leste do território americano.

O período de presença americana, embora tenha deixado pouca contribuição arquitetônica, pode ser considerado de muito desenvolvimento para a cidade. O número de habitantes quadruplicou, o que tornou Valadares a cidade mais populosa da região.

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