Clayton de Souza/Estadão
Demitido em Pernambuco, Santos voltou a Rio Grande  Clayton de Souza/Estadão

Desempregados são mantidos pela igreja

Sem perspectivas, muitos ex-trabalhadores estão em tratamento por dependência química; desemprego aumentou o uso de drogas

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2015 | 15h33

No modesto sobrado de oito cômodos, localizado no bairro de São Miguel, 28 ex-trabalhadores – a maioria do Polo Naval de Rio Grande – se amontoam em camas e colchões espalhados pelo chão. Além da condição de desempregados, alguns também enfrentam o drama da dependência química. São ex-usuários de drogas à espera de uma nova oportunidade para se recolocar no mercado. 

Os desempregados contam com a ajuda do pastor da igreja que mantém o local. Com os currículos numa pasta, Joel Marques de Souza sai todos os dias pelas ruas da cidade tentando convencer os empresários a dar uma nova chance aos trabalhadores. Mas a vida não anda fácil por lá. Com a crise da Petrobrás e os desdobramentos da Operação Lava Jato, a cidade não para de demitir. 

Alguns estão há mais de oito meses desempregados. “Sem perspectiva, o uso de drogas cresceu muito em Rio Grande”, diz Souza. Segundo ele, trabalhadores que vieram de outros Estados ficaram na cidade acreditando que haveria novas contratações, gastaram toda a indenização e ficaram sem dinheiro para voltar para suas cidades natal. “Em alguns casos, tivemos de fazer uma vaquinha na comunidade para comprar a passagem de volta para o Rio Grande do Norte, São Paulo e Amazonas.”

Hoje quase todos os ex-trabalhadores que estão na casa de recuperação são gaúchos, como Alexandre Ávila, de 34 anos. Antes do polo naval, ele trabalhava no ramo de informática como autônomo. Em 2005, com o frenesi causado na cidade pelo início da construção da P-53, a primeira plataforma construída em solo rio-grandino, ele fez um curso de pintor industrial e começou a trabalhar no setor. Passou por todos os estaleiros (Rio Grande, EBR e Quip, hoje QGI – Queiroz Galvão e Iesa Óleo e Gás). 

Demitido em Pernambuco, Santos voltou a Rio Grande

Mas há oito meses vive uma tormenta. Desempregado, foi parar na casa de recuperação enquanto a mulher e os dois filhos (de 5 anos e 3 anos) foram viver com a sogra. A indenização acabou e ele não encontrou uma nova oportunidade. “Já procurei emprego em todos os cantos e não consigo encontrar. Nos estaleiros não há emprego e, como autônomo, o mercado está muito inchado. Estou frustrado.”

De volta. A maioria dos desempregados, no entanto, ainda acredita na retomada do Polo Naval de Rio Grande, apesar das constantes demissões. O mineiro Osvaldo Daniel dos Santos não fazia ideia das dificuldades quando decidiu retornar a Rio Grande em busca de trabalho. Sem emprego desde agosto, depois de cinco anos no Estaleiro Atlântico Sul, em Pernambuco, ele está morando na igreja com outros desempregados.

A mulher, grávida de três meses, ficou em Pernambuco até ele se recolocar no mercado. “Meu objetivo é trazê-la logo para cá. A situação está difícil, mas ainda tenho esperança de conseguir uma vaga aqui”, diz Santos, soldador há 22 anos. Sua primeira passagem por Rio Grande foi em 2005, quando trabalhou na construção da P-53. Ficou dois anos e oito meses na cidade. Depois desse período, além de Pernambuco, trabalhou no Rio e em Minas Gerais. “Tudo que tenho veio da indústria naval. Ela não pode acabar.”

Tudo o que sabemos sobre:
criseRio Grande

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.