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Condomínio em Champions Gate, na Flórida: 60% de clientes brasileiros Divulgação

NA CRISE, CRESCE O NÚMERO DE BRASILEIROS QUE INVESTEM EM MIAMI

Empreendedores estabelecem residência definitiva nos Estados Unidos e transferem seus negócios para o país com o objetivo de ‘dolarizar’ ganhos

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2015 | 16h47

MIAMI e SÃO PAULO

Imigrantes brasileiros com um novo perfil estão desembarcando na Flórida: são empreendedores que buscam “dolarizar” os investimentos e que, em muitos casos, estão desistindo de seus negócios no Brasil para gerar emprego e renda nos Estados Unidos e receber na moeda do Tio Sam. Parte desse contingente é formado por pessoas que antes viam Miami e Orlando somente como grandes outlets para gastar o dinheiro que ganhavam por aqui. 

Há números que evidenciam o poder econômico de parte dos brasileiros que estão migrando agora para a Flórida. Segundo especialistas em imigração consultados pelo Estado, a obtenção de um visto de negócios temporário exige o investimento pelo menos US$ 70 mil em uma nova empresa que gere postos de trabalho em solo americano. Para garantir a permanência definitiva, uma aplicação de pelo menos US$ 500 mil em atividade produtiva é necessária. Não é dinheiro que um cidadão comum costume ter disponível, mas não chega a ser um montante absurdo para os brasileiros que, nos últimos anos, compraram casas de veraneio na região.

Dados da Associação dos Corretores de Imóveis dos Estados Unidos mostram que dinheiro não é problema para os brasileiros que compraram casas nos arredores de Orlando e Miami. O preço médio das residências compradas por brasileiros na Flórida é de US$ 587 mil – entre os estrangeiros, só os chineses compram imóveis mais caros. 

Os números mostram ainda que cerca de 23 mil casas foram vendidas a cidadãos do Brasil desde 2008 na Flórida (leia quadro acima). De todos os imóveis vendidos a estrangeiros nos 12 meses encerrados em junho último, 9% ficaram em mãos brasileiras. Em alguns condomínios, como o Champion’s Gate, em Orlando, os brasileiros chegam a representar 60% do total de moradores. Segundo a Elite International, imobiliária voltada ao público brasileiro fundada há 25 anos em Miami, mais da metade das negociações são feitas à vista.

Uma parte desse público que comprou imóveis em Miami durante o período de “vacas gordas” e de dólar baixo que o Brasil viveu entre 2010 e 2013 agora considera transformar a antiga casa de férias em residência definitiva. Esses membros da classe A que estão deixando o Brasil para trás citam como motivos a crise econômica, a corrupção e, principalmente, a segurança pública. 

Em Miami, no escritório da Elite International, o Estado encontrou um empresário capixaba que havia trazido a família para Miami, mas continuava a trabalhar em Vitória (ele não quis se identificar). “Aqui, minha família fica tranquila. O americano não tem nada contra quem ganha dinheiro honestamente. O cara pode andar de Lamborghini e ninguém vai achar que ele é bandido.” O empresário contou que decidiu transferir a família para os Estados Unidos seguindo o exemplo do irmão, que já havia tomado a mesma decisão. 

O arquiteto Luiz Mori dos Santos, de 51 anos, conhecido por projetos de decoração de interiores para a classe alta de Curitiba, está na “ponte aérea” entre os Estados Unidos e Brasil há dois anos e meio. Embora afirme ter conseguido um visto definitivo por “habilidade extraordinária” – quando um profissional é acolhido em um país pelo seu talento –, Santos ainda não tem uma carteira relevante de clientes em solo americano. Por enquanto, o arquiteto ganha dinheiro em Curitiba e gasta na Flórida. Apesar de criar projetos à distância, viaja com frequência ao Brasil para acompanhar obras e manter o relacionamento com a clientela. “Passo dois meses direto em Miami e fico três semanas em Curitiba.”

Sem olhar para trás. Enquanto o arquiteto curitibano manteve um pé no Brasil, o empresário Osvaldo Macedo Neto, 41 anos, e sua esposa Luciana, de 43, decidiram vender tudo o que tinham para apostar suas fichas no projeto de construir um edifício de luxo não muito longe de um dos maiores símbolos do comércio de luxo de Miami, o shopping Bal Harbour, onde encontraram a reportagem do Estado. No início deste ano, o casal e os filhos Rafael e Gabriel – de 12 e 9 anos – trocaram a praia de Jurerê Internacional, em Florianópolis, por Boca Raton, no condado de Palm Beach.

A adaptação à cultura americana foi rápida, segundo Luciana. “A escola na Flórida é pública e toda a comunidade se esforça para torná-la melhor. Aqui, ensina-se as crianças a ir à luta desde cedo. São os alunos que limpam o refeitório na hora do almoço”, diz. A abertura da empresa para a construção do residencial idealizado por Osvaldo – um edifício “butique” de sete andares, voltado principalmente ao público brasileiro com muito dinheiro para gastar – também foi facilitada. Toda a papelada foi resolvida em 48 horas.

 Ao migrar para os Estados Unidos, Osvaldo atraiu um de seus sócios, Daniel Jevaux, de 31 anos, para a empreitada – eles repassaram os projetos em Florianópolis para um terceiro cotista da empresa, batizada nos dois países de Tross. Daniel conta que ele e a noiva tinham o entendimento de não terem filhos quando moravam em Florianópolis. Agora, diante da qualidade de vida e da facilidade para fazer negócios em Miami, ele diz estar disposto a mudar de ideia.

Identidade. A “fuga” do Brasil em um momento de crise com um discurso relacionado aos problemas sociais e econômicos abre a discussão para a questão da identidade, segundo o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Trata-se de um perfil nômade, sem muita identificação cultural”, diz o professor. “Diante disso, acho que o discurso de ‘não volto mais’ pode mudar ao sabor dos ventos da economia.” A tendência do migrante em exaltar as qualidades do novo destino também deve ser relativizada. “É tudo uma questão de referência cultural”, avalia Oliveira. “Para muita gente, a Flórida pode ser sinônimo de brega, kitsch.”

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CIDADANIA EUROPEIA PARA VIVER NA FLÓRIDA

Os detentores de dupla cidadania têm mais facilidade de se estabelecer em solo americano.

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2015 | 16h30

A vontade de viver na Flórida está fazendo alguns brasileiros enfrentarem o burocrático processo de obtenção da cidadania europeia. O esforço tem razão de ser: os detentores de dupla cidadania têm mais facilidade de se estabelecer em solo americano. O advogado de imigração Eduardo Costa da Silva, da Godke, Silva & Rocha Advogados, explica que os valores de investimento para concessão de vistos de negócios são bem mais baixos para cidadãos da União Europeia.

Silva diz ter clientes que estão tentando agilizar a obtenção da cidadania europeia com a meta de empreender na Flórida. “No caso da cidadania italiana, seria possível fazer todo o processo pelo consulado brasileiro, mas não é algo que eu aconselho. Acho que vale mais a pena passar uma semana em Roma, gastar o dinheiro com a viagem, para ganhar tempo.”

Organização. É justamente esse caminho que os primos Rahman Pesciotta e Flavio Miglorancia pretendem trilhar nos próximos meses. Eles decidiram vender todos os negócios no Brasil para capitanear a expansão da Ronaldo Academy, projeto de escola de futebol do empresário Carlos Wizard Martins (fundador da rede de idiomas Wizard) e do ex-jogador Ronaldo Nazário. Pesciotta e Miglorancia ficarão responsáveis por organizar a expansão da franquia na Flórida.

A ideia de ambos é acelerar a obtenção da cidadania italiana. Pesciotta, que está o processo mais adiantado, já se mudou para Miami. “Meu primo tinha uma empresa de automação e vendeu o negócio para os sócios”, explica Miglorancia, que ainda mora em Campinas, mas viaja com frequência à Flórida. Os dois pretendem estar prontos para abrir a escola de futebol – cuja mensalidade deverá custar US$ 159 por mês – ainda em 2016. A ideia é captar alunos firmando parcerias com escolas.

Além de lidar com a documentação e os processos necessários para a obtenção da cidadania italiana, Miglorancia terá também de arranjar compradores para as franquias que ainda mantém em Campinas. Ele é dono de uma loja Poderoso Timão (que vende artigos relacionados ao Corinthians) em um shopping e de duas unidades da Nutty Bavarian. Apesar dos negócios ainda estarem em funcionamento, o empresário diz que a decisão de mudar é definitiva: “Estou aqui agora, mas me mudo para lá no ano que vem.” 

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BRASILEIROS VIRAM REFERÊNCIA EM IMÓVEIS

Existem dezenas de imobiliárias na região especializadas em atender brasileiros

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2015 | 16h00

O cliente brasileiro é tão importante para o mercado imobiliário da Flórida que existem no Estado dezenas de imobiliárias e corretores especializados em atender executivos e empresários dispostos a comprar uma propriedade na região. Uma das mais famosas é a Elite International, comandada por Léo e Daniel Ickowicz, pai e filho. 

Eles viraram uma e referência não só em relação à compra de imóveis, mas também consultores informais sobre os procedimentos necessários para quem quer se estabelecer em Miami ou Orlando – destinos preferidos dos brasileiros. “Eu recebo uns cinco a sete e-mails por dia de pessoas que querem morar aqui”, diz Daniel.

Ao contrário do que ocorre em outros países, como Portugal, a simples aquisição de um imóvel nos Estados Unidos não dá ao brasileiro o direito de viver e trabalhar no país. O valor mínimo a ser investido para garantir pelo menos um visto temporário é de US$ 100 mil. 

Considerando o dólar próximo de R$ 4, um investidor brasileiro precisa de um patrimônio de pelo menos R$ 2 milhões, na opinião de Daniel, para se estabelecer na região sem enfrentar problemas com a imigração. “Não aconselharia ninguém a vir ilegalmente, a viver uma vida underground, em que não se pode ter nem carteira de motorista”, diz o diretor de vendas da Elite. “Acho que o primeiro passo para quem quer realmente vir para cá é consultar um advogado de imigração. O processo não é muito simples.”

‘Sabático’. Os Ickowicz migraram para os Estados Unidos para um “sabático”. A família morava no Rio de Janeiro e era dona de uma agência de turismo famosa na época, a Sky. Em 1990, o sócio de Léo foi sequestrado. O empresário, então com 40 anos, decidiu que era hora de levar a família para respirar outros ares. A ideia inicial era voltar – 25 anos depois, porém, pai e filho continuam em solo americano.

Hoje, o escritório da Elite tem cinco funcionários e 80 corretores associados. Depois de surfar a onda da aquisição de casas pelos brasileiros de classe média alta nos tempos de dólar baixo, agora quer atrair clientes realmente endinheirados para a compra de imóveis comerciais com garantia de aluguéis para grandes corporações. “É um jeito de dolarizar o investimento com um rendimento melhor do que a renda fixa aqui, que paga 1% ao ano.” 

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EMPREENDEDORES MIGRAM PARA MIAMI SEM MUDAR DE RAMO

Brasileiros abrem negócio nos Estados Unidos

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2015 | 16h24

Concorrer no mercado americano não é para amadores. O empresário Eduardo Santa Maria, 55 anos, que comprou uma franquia da rede brasileira Giraffas, está sentindo essa realidade na pele. Sua unidade da rede de fast-food, localizada em Miami, precisa concorrer com marcas estabelecidas há muito tempo no imaginário consumidor local. “É um mercado muito amplo, com oportunidades, mas a concorrência é selvagem.”

Na Flórida, onde mantém dez lojas, a Giraffas tem um modelo diferente do adotado no Brasil. Em solo americano, a rede vende culinária brasileira de baixo preço. Depois de passar um ano azeitando a operação de seu restaurante, Eduardo agora começa a pensar em abrir uma segunda unidade. “Estou em fase de consolidação”, diz o empresário. Ele diz que a recente reformulação no cardápio, que incluiu um geral corte nos preços (o prato mais caro agora custa US$ 9,99), animou as vendas. 

Apesar dos desafios, Eduardo – que já foi dono de restaurantes do McDonald’s no País – diz que a opção de viver em Miami é definitiva. “Zerei minha vida no Brasil. Vou ficar aqui”, diz o empresário, explicando que vendeu os negócios que administrava no País. Pai de duas crianças – de 12 e 9 anos –, ele acredita que os filhos do segundo casamento terão uma formação mais completa do que a dos já adultos. “Morar fora do País põe as pessoas em situações adversas (que ajudam na formação). Acho importante essa alternância de culturas.” 

Apesar de ter investido no restaurante e comprado casa na cidade de Aventura, entre Miami e Fort Lauderdale, o visto de Eduardo é temporário. “A burocracia ainda está em processo.” 

Facilidade. Por ter morado nos EUA e sido casada com um americano, Valéria Toledo, de 40 anos, teve uma facilidade cobiçada pelos brasileiros que planejam se mudar para Miami: o green card, documento que dá o direito de morar e trabalhar no país.

Depois de viver na Flórida por 11 anos, a empresária voltou para o Brasil em 2005 e morou em Curitiba e no Rio de Janeiro – na capital fluminense, estabeleceu uma clínica de estética que prosperou. O retorno à Flórida foi definido por um assalto à mão armada no ano passado. “Passei a ficar com medo de tudo, não saía mais de casa. Para quem vive sozinha estava ficando perigoso demais.”

O trauma com a violência fez a empresária alugar o apartamento em que morava, arrendar a clínica e ir embora com objetivo sem olhar para trás. Há sete meses em Miami, estabeleceu uma nova clínica – batizada Dermaclinic by Valéria Toledo – em um bairro chique. Com as economias que tinha, comprou um apartamento de US$ 350 mil e está refazendo sua vida.

Como tem o green card, Valéria não precisa, como outros brasileiros, gerar empregos em solo americano para garantir o direito de ficar legalmente no país. Por isso, além de trocar o Rio de Janeiro por Miami, também reduziu bastante sua carga de trabalho. Em Miami, a clínica de estética é um empreendimento individual, em que as clientes são atendidas somente com hora marcada. “Mudar foi uma escolha de qualidade de vida. Eu queria uma coisa menor.” 

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