'Você quer pagar quanto?’

No estilo do bom negociador árabe, vendedores reduzem preços até convencer o cliente a ficar com o produto, especialmente os genéricos

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2015 | 05h00

São duas horas da tarde de uma quarta-feira no centro velho de Dubai. As minaretes (torres de mesquitas) começam a ecoar, convocando os muçulmanos para as orações. As portas dos pequenos comércios são baixadas. Quase todos os vendedores se recolhem. As ruas estreitas de Al Ras começam a ficar vazias e boa parte dos turistas acompanha com curiosidade a movimentação ao seu redor.

Faz parte da tradição nos países de origem árabe os muçulmanos se dedicarem às orações e parar tudo o que estão fazendo para se dedicarem à reza. As sextas-feiras são consideradas sagradas e geralmente os comércios não abrem. 

Mas nem todos os muçulmanos seguem essa regra à risca. “O que você está procurando?”, pergunta com uma voz baixa um vendedor da região do “Golden Souk” (mercado de ouro) da região de Al Ras. A reportagem pede para ver as bolsas falsificadas, mas antes pergunta o preço. “A gente conversa lá”, responde o vendedor, que não quis se identificar.

Após percorrer algumas vielas, sem falar nada, o vendedor entra em um prédio antigo e aperta o botão do elevador. Diz que seus produtos ficam estocados seis andares acima e que tem a nova coleção de bolsas genéricas de Louis Vuitton, Chanel e Prada com desconto. Ele sugere também mostrar sua “flagship store”, nome dado às lojas-conceito que servem como vitrine para mostrar a coleção.

Seguindo à risca a fama de bons negociadores árabes, o vendedor apresenta seu portfólio e negocia o preço a cada não que recebe. Uma bolsa da marca Kate Spade, que começou a ser negociada a 300 dirhams (cerca de R$ 300) baixou para 200 dirhams em menos de dois minutos e, diante das negativas, caiu à metade do preço. Ao desistir da compra, o vendedor solta: “Você quer pagar quanto?” 

Negociar preço faz parte da tradição entre os árabes. A regra só não vale para as lojas de luxo que fazem parte do Dubai Mall, com 1,2 mil lojas, a cerca de 20 quilômetros da região de Deira. Um chinelo Havaianas genérico no mercado popular chega a custar, por exemplo, 20 dirhams (cerca de R$ 20), sem pechincha. Um modelo legítimo sai, no mínimo, a 125 dirhams (R$ 125). E não tem como barganhar preço. O mesmo vale para os produtos de cashmere - a versão genérica sai a cerca de R$ 20 convertidos, com direito a pechincha, enquanto um modelo original não sai por menos de dez vezes mais.

No maior shopping do mundo, apenas um dos vários restaurantes instalados no local permite a venda de bebida alcoólica. Turistas e moradores só têm autorização para beber dentro de restaurantes e hotéis credenciados. Uma garrafa de vinho não sai por menos de 200 dirhams. 

Brasil. O chinelo da marca brasileira Havaianas, que recentemente foi adquirida pelo grupo J&F, da família Batista, dona da JBS (Friboi), é negociado em pelo menos três lojas do Dubai Mall. E uma loja chamada “Brazil” dentro do mesmo shopping não tem um produto brasileiro. Segundo a vendedora, o dono é árabe e os produtos são importados da França, inclusive os chinelos.

Comer bem também não é uma opção barata em Dubai. No suntuoso complexo de resort Jumeirah, um jantar a dois mais simples não sai por menos de 400 dirhams. O local é voltado para os turistas e homens de negócio do mundo árabe. As burcas - traje usada pelas mulheres locais - cedem espaço para as dezenas de dançarinas de dança do ventre. Uma diversão garantida sob medida para turista. 

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