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Ahmad mudou-se para Dubai em busca de trabalho Mônica Scaramuzzo

‘Fugi do Taleban para tentar a vida aqui’

Imigrantes trabalham duro para ajudar suas famílias

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 05h00

Ali Ahmad tem uma lojinha de cerca de 4 metros quadrados em uma rua adjacente ao principal corredor do mercado de ouro de Deira, região central de Dubai. Vende echarpes coloridas de qualidade duvidosa a partir de 20 dirhams (cerca de R$ 20). Ahmad não diz quanto ganha por mês, mas afirmou que manda entre 2000 e 3.000 dirhams para sua família que mora no Afeganistão.

Com apenas 22 anos, Ahmad vive entre o Afeganistão e Dubai há pelo menos dez anos. “Não sou muito feliz aqui. Mas, pelo menos, Dubai é melhor que o taleban”, disse com um ar resignado. O taleban é um movimento fundamentalista islâmico que atua no Afeganistão e no Paquistão. A milícia tem origem nas tribos que vivem na fronteira entre esses dois países e se formou em 1994.

A família de Ahmad mora em uma região fronteiriça entre o Afeganistão e Paquistão, onde a força dos talebans é ainda maior. “Não tem nada para fazer no Afeganistão. É tiro para todos os lados. Vou e volto para lá todo ano. Viajo a cada três ou quatro meses para levar dinheiro para minha família”, disse ao Estado. Além da lojinha de echarpes, Ahmad também tem um comércio paralelo – vende bolsas de marcas de luxo falsificadas dentro do porta-malas do seu carro estacionado a poucas quadras de sua lojinha. 

Ahmad mudou-se para Dubai em busca de trabalho

Ahmad concordou em dar entrevista, mas não quis que seu porta-malas fosse fotografado pela reportagem. Para não perder oportunidade de fazer negócio, tentou a todo custo vender uma bolsa genérica para o Estado. Diante da recusa, puxa conversa e pergunta sobre o Brasil e futebol. Foi mais uma tática de venda frustrada. Depois emendou: “Tenho uma namorada brasileira. Ela se chama Ana Paula e mora em São Paulo. Falamos pela internet.”

A poucas quadras da lojinha de Ahmad, Sajim Herij, indiano de 22 anos, ainda não teve ainda a mesma sorte de ser empreendedor como o vendedor afegão. Herij vive há dois anos em Dubai e trabalha para na equipe de Ali Mamuti. Tentou emprego na construção civil, mas não deu certo. Disse que não tinha talento. Mora em um pequeno imóvel alugado longe de Deira. Longe da família, não faz coro aos colegas imigrantes. “Morar em Dubai é muito bom. Há várias oportunidades de emprego aqui”. Mas disse que não sobra muito dinheiro para se divertir.

Assim como nos Estados Unidos, os indianos e paquistaneses também dominam os táxis. Muhammad Zohaib, de origem paquistanesa, trabalha para uma espécie de cooperativa, mas faz bicos oferecendo-se para fazer pequenas viagens aos turistas. 

A contratação de mão de obra barata é comum nos principados que formam os Emirados Árabes Unidos. A massa de trabalhadores é formada, sobretudo, por imigrantes indianos e paquistaneses, muitas vezes em condições consideradas precárias. No ano passado, uma série reportagens do jornal britânica The Independent mostrou “um lado obscuro” de Dubai, escondido por trás dos arranha-céus e de todo o luxo.

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