Mônica Scaramuzzo
As ruas do centro velho de Dubai concentram lojas populares e atraem turistas Mônica Scaramuzzo

O dia a dia no lado sem glamour de Dubai

Cidade do Oriente Médio atrai investidores para projetos bilionários, mas esconde contraste social

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 05h00

As ruas do centro velho de Dubai concentram lojas populares e atraem turistas

Al Ras é um bairro escuro e apertado, cheio de becos, incrustado na região do Deira, a cerca de 20 quilômetros do polo financeiro de Dubai, o mais populoso e um dos mais ricos principados que fazem parte Emirados Árabes Unidos. É nesse miolo de Al Ras que se concentram as “souks” (mercados livres) e que pulsa um lado menos glamourosa de Dubai, mas nem por isso desinteressante.

A economia informal domina essa região sustentada por vendas de versões “genéricas” de roupas e bolsas de marcas de luxo - como Louis Vuitton, Gucci e Chanel -, bijuterias e joias de ouro a preços convidativos. Entre os clientes, os turistas se misturam ao público local, que são imigrantes em sua maioria. O bairro de Al Ras é uma versão árabe da popular rua 25 de Março, no centro de São Paulo, considerada a meca paulistana dos consumidores em busca de boas pechinchas.

Os produtos falsificados são vendidos em microlojas dentro de galerias e até mesmo em porta-malas de carros. Andar pela região do Deira é uma aventura à parte. Uma realidade bem diferente da mesma Dubai que concentra investidores bilionários, formados em sua maioria por europeus e asiáticos, que buscam oportunidades de negócios, sobretudo na construção civil. 

O emirado de Dubai atrai dinheiro por ser um paraíso fiscal e também por ser um grande parque de diversões do Oriente Médio, que se orgulha de seus maiores arranha-céus e do maior shopping center o mundo. É comandado pelo sheik Mohammed bin Rashid Al Maktoum, da dinastia Al Maktoum que está no poder desde 1833. Dubai conta tem hoje 2,2 milhões de habitantes, sendo cerca de 90% estrangeiros. Os locais não são necessariamente de Dubai - migram de outros principados dos Emirados Árabes Unidos (são sete, ao todo) e de outros países do Oriente Médio.

Além do petróleo. Para fazer a economia girar e reduzir sua dependência do petróleo, Dubai começou, desde o início dos anos 2000, a atrair investidores de todo o mundo. Somente em 2015, a carteira de investimentos em construção, um dos maiores setores geradores de emprego do principado, atingiu US$ 194 bilhões, de acordo com dados levantados pela DMG Events, que organiza a maior feira de construção civil do Oriente Médio, a Big 5, que reúne empresas de diversos países interessados em investir na rica região. Comércio e turismo também contribuem para a economia local.

Nesses últimos anos, Dubai recebeu bilionários aportes em infraestrutura para a construção de estradas, de sua suntuosa linha de metrô (que corta a cidade em quase 50 quilômetros de extensão), de edifícios comerciais e de condomínios de luxo para acomodar executivos globais. O emirado, que viveu seu grande boom imobiliário no início dos anos 2000, foi abatido pela crise financeira de 2008, mas voltou a anunciar projetos ambiciosos - que incluem resorts, campos de golfe e torres comerciais - tudo em estilo opulento. Dubai é considerada uma das cidades mais abertas ao investimento estrangeiro do Oriente Médio.

Suas avenidas são largas - algumas com seis pistas de cada lado - e há muito trânsito na hora do rush, mas nada que possa ser comparado aos engarrafamentos de São Paulo. Andar a pé também é praticamente impossível. Tudo é muito distante.

Imigrantes. Não é preciso ir muito longe do polo financeiro e rico de Dubai para o cenário mudar completamente. As ruas ficam estreitas, os prédios são baixos e as lojas, coladas umas nas outras. Essa região, conhecida como Deira, é a chamada cidade velha de Dubai, parte mais popular e que deu origem ao local. 

É nessa região que se concentram os imigrantes responsáveis por erguer o grande paraíso artificial, como é conhecido o principado. Uma cidade com grandes construções, que mais parecem uma miragem. Boa parte desse contingente de imigrantes trabalha em megaprojetos de construção civil para empresas como Emaar, Meera e Damac, que tem uma parceria com a Organização Trump, que pertence ao atual pré-candidato republicano dos Estados Unidos, Donald Trump. O empresário que tem apregoado, em sua campanha eleitoral, banir os muçulmanos dos EUA é o mesmo que está à frente de importantes projetos resorts com campos de golfe em Dubai.

Quem não trabalha na construção civil tenta a vida como ambulante ou dono de lojas nas proximidades do mercado livre de Deira, que vendem desde especiarias e chás, concentrados no “spice souk” (mercado de temperos) até pashiminas (echarpes), burcas e chinelos Havaianas falsificados.

Luta. Foi neste cenário que o Estado encontrou o indiano Abdul Rahman, 27 anos. Desde que chegou a Dubai, há cinco anos, ele diz ter feito de tudo para ganhar dinheiro. “Aqui é melhor que a Índia, mas a vida não é fácil. Vida boa em Dubai só para os mais ricos. O custo de vida é muito alto e boa parte do que eu ganho mando para minha família na Índia”, diz Rahman, que mora com os primos bem longe do centro financeiro de Dubai. Rahman diz que ganha por mês cerca de 1.500 dirhams (ou cerca de R$ 1,5 mil), quase o dobro da metade do salário mínimo no Brasil, que atualmente é de R$ 788.

Até para ser ambulante não existe muito autonomia. Rahman se reporta a Ali Mamuti, de 45 anos. Mamuti fica sentado num banco entre as minilojas, controlando os vendedores mais jovens. Indiano da região de Kerala, Mamuti mora há 32 anos em Dubai e não tem família. Ele passa o dia sentado em um banco monitorando a “equipe” que caça compradores. De seu “escritório da praça”, dá ordens e orienta seus vendedores. Ele não reclama de Dubai, cidade que o acolheu ainda jovem, mas também não vê muitos motivos para rasgar elogios: “Tudo aqui gira em torno do dinheiro.” 

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‘Fugi do Taleban para tentar a vida aqui’

Imigrantes trabalham duro para ajudar suas famílias

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 05h00

Ali Ahmad tem uma lojinha de cerca de 4 metros quadrados em uma rua adjacente ao principal corredor do mercado de ouro de Deira, região central de Dubai. Vende echarpes coloridas de qualidade duvidosa a partir de 20 dirhams (cerca de R$ 20). Ahmad não diz quanto ganha por mês, mas afirmou que manda entre 2000 e 3.000 dirhams para sua família que mora no Afeganistão.

Com apenas 22 anos, Ahmad vive entre o Afeganistão e Dubai há pelo menos dez anos. “Não sou muito feliz aqui. Mas, pelo menos, Dubai é melhor que o taleban”, disse com um ar resignado. O taleban é um movimento fundamentalista islâmico que atua no Afeganistão e no Paquistão. A milícia tem origem nas tribos que vivem na fronteira entre esses dois países e se formou em 1994.

A família de Ahmad mora em uma região fronteiriça entre o Afeganistão e Paquistão, onde a força dos talebans é ainda maior. “Não tem nada para fazer no Afeganistão. É tiro para todos os lados. Vou e volto para lá todo ano. Viajo a cada três ou quatro meses para levar dinheiro para minha família”, disse ao Estado. Além da lojinha de echarpes, Ahmad também tem um comércio paralelo – vende bolsas de marcas de luxo falsificadas dentro do porta-malas do seu carro estacionado a poucas quadras de sua lojinha. 

Ahmad mudou-se para Dubai em busca de trabalho

Ahmad concordou em dar entrevista, mas não quis que seu porta-malas fosse fotografado pela reportagem. Para não perder oportunidade de fazer negócio, tentou a todo custo vender uma bolsa genérica para o Estado. Diante da recusa, puxa conversa e pergunta sobre o Brasil e futebol. Foi mais uma tática de venda frustrada. Depois emendou: “Tenho uma namorada brasileira. Ela se chama Ana Paula e mora em São Paulo. Falamos pela internet.”

A poucas quadras da lojinha de Ahmad, Sajim Herij, indiano de 22 anos, ainda não teve ainda a mesma sorte de ser empreendedor como o vendedor afegão. Herij vive há dois anos em Dubai e trabalha para na equipe de Ali Mamuti. Tentou emprego na construção civil, mas não deu certo. Disse que não tinha talento. Mora em um pequeno imóvel alugado longe de Deira. Longe da família, não faz coro aos colegas imigrantes. “Morar em Dubai é muito bom. Há várias oportunidades de emprego aqui”. Mas disse que não sobra muito dinheiro para se divertir.

Assim como nos Estados Unidos, os indianos e paquistaneses também dominam os táxis. Muhammad Zohaib, de origem paquistanesa, trabalha para uma espécie de cooperativa, mas faz bicos oferecendo-se para fazer pequenas viagens aos turistas. 

A contratação de mão de obra barata é comum nos principados que formam os Emirados Árabes Unidos. A massa de trabalhadores é formada, sobretudo, por imigrantes indianos e paquistaneses, muitas vezes em condições consideradas precárias. No ano passado, uma série reportagens do jornal britânica The Independent mostrou “um lado obscuro” de Dubai, escondido por trás dos arranha-céus e de todo o luxo.

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Condomínio de luxo terá energia solar

Batizado de ‘cidade sustentável’, projeto de Dubai foi desenvolvido para ser autossuficiente em energia limpa

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 05h00

A vida no deserto pode ter suas vantagens, mas seu preço é alto. A cerca de 30 quilômetros do centro financeiro de Dubai está sendo erguido um projeto batizado de “cidade sustentável” – um condomínio de casas de luxo abastecidas com energia solar desenvolvido pela construtora Diamond Developers.

As casas serão entregues no primeiro semestre de 2016, mas o projeto total, que prevê ainda um complexo comercial integrado ao condomínio – com supermercados, lojas de departamento e escolas privadas – deverá ficar pronto no início de 2017.

“O investimento neste projeto, o primeiro totalmente sustentável, foi de cerca de US$ 350 milhões”, disse Faris Saeed, presidente da construtora. O condomínio de luxo conta ainda com estábulos para cavalo, estufas irrigadas para produção no local de hortaliças e verduras, e carros elétricos para locomoção dos moradores dentro do condomínio. Essas estufas foram idealizadas para o consumo dos próprios moradores – uma taxa extra será cobrada por esse benefício –, e o excedente será vendido para a comunidade em uma feira organizada pela administração do condomínio.

O desembolso para fazer parte da cidade sustentável será alto. Uma casa de três quartos de alto padrão nesse condomínio custa cerca de US$ 1 milhão e uma residência de quatro quartos sai a US$ 1,2 milhão. 

Segundo Saeed, a construtora tem mais tradição em ativos imobiliários comerciais e este será seu primeiro dentro desse conceito voltado para energia limpa. “Construímos um conjunto comercial de sete torres na parte financeira da cidade.”

Condomínio de luxo usa energia solar e tem carros elétricos para locomoção dos moradores

Ao longo da rodovia que dá acesso à cidade sustentável, vários condomínios de luxo e resorts também estão sendo erguidos. Batizados com nomes pomposos, como Beverly Hills (alusão ao bairro de alto padrão da Califórnia, nos EUA), por exemplo, os condomínios são voltados para altos executivos, sobretudo estrangeiros, que buscam manter o mesmo padrão de vida e de conforto de seus países de origem. A ideia é que as famílias não precisem se deslocar para a região mais central de Dubai para fazer compras. 

Depois de um boom imobiliário em Dubai, o setor de construção enfrentou um período de crise entre 2009 e 2012, e agora está retomando seus negócios. Construtoras como Damac, Emaar, Meera e Nakheel voltaram a tocar seus projetos e as principais avenidas estão tomadas por obras. 

Os investimentos em projetos sustentáveis nos países do Oriente Médio deverão crescer nos próximos anos e devem receber incentivos dos governos locais, segundo os organizadores da Big 5, maior feira de construção civil da região, realizada na última semana de novembro.

O ministro do Meio Ambiente e Água dos Emirados Árabes Unidos, Rashid Ahmad bin Fahd, que participou da abertura do evento deste ano, afirmou que a prioridade dos principados que compõem os Emirados Árabes Unidos é tocar projetos de construção que não utilizem matéria-prima fóssil. Os governos desses emirados vão dar incentivos a construções que concentrem esforços em economia de energia. 

Com abundância de petróleo, mas escassez de recursos naturais, os países do Oriente Médio estão revendo parte de suas prioridades para o futuro. Toda a água consumida em Dubai e na maioria dos países árabes passa por um processo de dessalinização (retirada de excesso de sal e outros minerais). Agricultura praticamente é nula – por isso muitos fundos de investimentos administrados por famílias bilionárias árabes buscam fazer investimentos nesse segmento no Brasil, por exemplo. 

Infraestrutura. Nos últimos anos, Dubai também investiu fortemente em infraestrutura. O ritmo diminuiu durante a crise global, mas começou a ser retomado, segundo da DMG Events. Os investimentos em ampliação de aeroportos em Dubai, por exemplo, estão estimados em US$ 40 bilhões entre este ano e 2022 para atender à crescente demanda de passageiros e de movimentos de cargas da região. A nova estrutura terá capacidade para atender 100 milhões de passageiros ao ano.

Dubai também pretende investir na expansão das linhas de metrô, hoje com 47 quilômetros, mas ainda insuficientes para chegar a bairros afastados. A região dos Emirados Árabes Unidos também prevê projetos ferroviários, com aportes de US$ 25 bilhões.

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'Você quer pagar quanto?’

No estilo do bom negociador árabe, vendedores reduzem preços até convencer o cliente a ficar com o produto, especialmente os genéricos

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 05h00

São duas horas da tarde de uma quarta-feira no centro velho de Dubai. As minaretes (torres de mesquitas) começam a ecoar, convocando os muçulmanos para as orações. As portas dos pequenos comércios são baixadas. Quase todos os vendedores se recolhem. As ruas estreitas de Al Ras começam a ficar vazias e boa parte dos turistas acompanha com curiosidade a movimentação ao seu redor.

Faz parte da tradição nos países de origem árabe os muçulmanos se dedicarem às orações e parar tudo o que estão fazendo para se dedicarem à reza. As sextas-feiras são consideradas sagradas e geralmente os comércios não abrem. 

Mas nem todos os muçulmanos seguem essa regra à risca. “O que você está procurando?”, pergunta com uma voz baixa um vendedor da região do “Golden Souk” (mercado de ouro) da região de Al Ras. A reportagem pede para ver as bolsas falsificadas, mas antes pergunta o preço. “A gente conversa lá”, responde o vendedor, que não quis se identificar.

Após percorrer algumas vielas, sem falar nada, o vendedor entra em um prédio antigo e aperta o botão do elevador. Diz que seus produtos ficam estocados seis andares acima e que tem a nova coleção de bolsas genéricas de Louis Vuitton, Chanel e Prada com desconto. Ele sugere também mostrar sua “flagship store”, nome dado às lojas-conceito que servem como vitrine para mostrar a coleção.

Seguindo à risca a fama de bons negociadores árabes, o vendedor apresenta seu portfólio e negocia o preço a cada não que recebe. Uma bolsa da marca Kate Spade, que começou a ser negociada a 300 dirhams (cerca de R$ 300) baixou para 200 dirhams em menos de dois minutos e, diante das negativas, caiu à metade do preço. Ao desistir da compra, o vendedor solta: “Você quer pagar quanto?” 

Negociar preço faz parte da tradição entre os árabes. A regra só não vale para as lojas de luxo que fazem parte do Dubai Mall, com 1,2 mil lojas, a cerca de 20 quilômetros da região de Deira. Um chinelo Havaianas genérico no mercado popular chega a custar, por exemplo, 20 dirhams (cerca de R$ 20), sem pechincha. Um modelo legítimo sai, no mínimo, a 125 dirhams (R$ 125). E não tem como barganhar preço. O mesmo vale para os produtos de cashmere - a versão genérica sai a cerca de R$ 20 convertidos, com direito a pechincha, enquanto um modelo original não sai por menos de dez vezes mais.

No maior shopping do mundo, apenas um dos vários restaurantes instalados no local permite a venda de bebida alcoólica. Turistas e moradores só têm autorização para beber dentro de restaurantes e hotéis credenciados. Uma garrafa de vinho não sai por menos de 200 dirhams. 

Brasil. O chinelo da marca brasileira Havaianas, que recentemente foi adquirida pelo grupo J&F, da família Batista, dona da JBS (Friboi), é negociado em pelo menos três lojas do Dubai Mall. E uma loja chamada “Brazil” dentro do mesmo shopping não tem um produto brasileiro. Segundo a vendedora, o dono é árabe e os produtos são importados da França, inclusive os chinelos.

Comer bem também não é uma opção barata em Dubai. No suntuoso complexo de resort Jumeirah, um jantar a dois mais simples não sai por menos de 400 dirhams. O local é voltado para os turistas e homens de negócio do mundo árabe. As burcas - traje usada pelas mulheres locais - cedem espaço para as dezenas de dançarinas de dança do ventre. Uma diversão garantida sob medida para turista. 

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