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Gasto previdenciário já está perto de R$ 700 bilhões Wilton Júnior/Estadão

Governo estuda alternativa à fixação de idade mínima para aposentadoria

Ideia inicial no grupo que discute a Previdência é adotar idade mínima de 65 anos para homens e de 63 para mulheres, incluindo trabalhadores na ativa; dificuldade de aprovação, porém, deve levar ao uso de um sistema de pontos

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

A nova equipe econômica trabalha em uma reforma da Previdência que, se aprovada, vai alterar substancialmente a maneira como funciona hoje. Mais de uma dezena de pontos estão em análise. Se as propostas vingarem, vão mudar a forma de concessão e o prazo para aposentadorias e pensões, tanto urbanas quanto rurais, na iniciativa privada e no setor público. E não apenas dos futuros trabalhadores, mas também para quem já está no mercado. A idade mínima para a aposentadoria de trabalhadores da ativa está no pacote, embora o próprio governo tema que ela não avance nas negociações políticas.

Essa é, na verdade, a proposta mais ambiciosa. Avalia-se propor 65 anos para homens e 63 para mulheres. Seria uma mudança de paradigma: as regras atuais abrem espaço para que se aposente com 10 anos a menos.

A alteração, porém, seria feita com cuidado. Existe a compreensão de que os trabalhadores da ativa são muito diferentes. Há os que estão perto da aposentadoria e os que entraram no mercado ontem. Assim, a proposta é adotar uma regra de transição suave para quem está perto da aposentadoria e mais dura para quem está longe. 

Os especialistas acreditam que a adoção da idade mínima para trabalhadores da ativa é a melhor opção para deter desde já o crescimento vertiginoso do gasto previdenciário, que está perto de R$ 700 bilhões. Mas sondagens com parlamentares identificaram que a medida é polêmica e pode emperrar a reforma, que ainda não é politicamente palatável. Líderes de partidos não se comprometeram a dar apoio antes de conhecer, em detalhe, as propostas. 

Como plano B à idade mínima, estuda-se fazer a transição do modelo atual para o novo com a adoção de um sistema de pontuação. Para facilitar o entendimento e a implantação, esse sistema seria baseado na já existente regra 85/95 (cuja soma de tempo de contribuição e de idade dá 85 para mulheres e 95 para homens). Os valores iniciais, porém, seriam superiores aos atuais: 90/100, no mínimo. 

Foco. O novo secretário de Previdência, Marcelo Caetano, um dos maiores pesquisadores do tema, tem intimidade com a discussão. Já vinha organizando uma reforma há mais de um ano e sabe que mexer nas regras de aposentadoria de trabalhadores da ativa é explosivo. Por isso, vai estudar todas as possibilidades, segundo o Estado apurou. 

O economista Fábio Giambiagi, que viu muitas reformas naufragarem, está otimista: “Parece que chegou o momento”, diz. Mas tem duas preocupações. A primeira é política. “Se algum ponto tiver oposição, melhor tirar”, diz. A segunda preocupação é técnica: “Entendo que o governo deve ser ágil, mas montar uma reforma em 15 dias e levá-la à votação em 30, como foi anunciado, é correr o risco de algo dar errado – não precisava essa sangria desatada.”

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Gasto com Previdência vai a R$ 700 bilhões

Hoje quase 40% das despesas primárias do governo federal, cerca de R$ 450 bi, são pensões e aposentadorias do INSS, segundo especialistas

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

O último post do economista Mansueto Almeida em seu blog, terça-feira passada, dia em que foi confirmado como novo Secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, não pregou em favor do ajuste fiscal de maneira genérica. Almeida defendeu especificamente a reforma da Previdência. 

O economista apresentou dois gráficos para fundamentar o seu ponto de vista. O primeiro mostrava a aceleração no envelhecimento no Brasil. Hoje, cerca de 12% dos brasileiros têm mais de 65 anos. Em apenas 15 anos, 2030, essa fatia vai quase dobrar e corresponder a 22% da população. Em 2040, estará perto de um terço. 

O segundo gráfico apresentava o efeito da mudança demográfica na sustentação financeira da Previdência. Agora, há oito pessoas trabalhando para cada aposentado. Em 2040, serão quatro. Em outras palavras, alerta o economista Paulo Tafner, especialista no tema: a bomba-relógio da Previdência vai explodir no colo de quem, neste momento, está prestes a se aposentar pelas regras atuais. 

O modelo previdenciário brasileiro segue o princípio de um grande bolão. As pessoas contribuem enquanto estão no mercado de trabalho, sustentando quem já saiu e poupando para quando ela mesma receber quando sair. Hoje quase 40% das despesas primárias do governo federal – algo como R$ 450 bilhões – são pensões e aposentadorias do INSS. O gasto total com Previdência, incluindo INSS e servidores da União, Estados e municípios, está em R$ 700 bilhões.

Como o número de contribuintes está caindo, rapidamente, e a despesa crescendo, exponencialmente, o buraco se aprofunda. O déficit do INSS caminha para R$ 136 bilhões neste ano – na previdência pública federal, está perto disso. Na previdência do Estado de São Paulo, o rombo é de R$ 18 bilhões; na do Rio de Janeiro, R$ 12 bilhões; na de Minas Gerais, R$ 9,5 bilhões. 

Os especialistas asseguram que a conta, que já não fecha, pode descambar para o calote. O Rio, que atrasou o pagamento dos inativos, é apenas uma demonstração do que pode estar por vir. “Se nada for feito, pode acontecer aqui no Brasil o que aconteceu na Grécia: faltar dinheiro para pagar o aposentado”, diz Tafner. 

Tentativa. O projeto de reforma da Previdência, que está sendo montado pela nova equipe econômica, tenta reduzir, para depois estancar, a sangria financeira. A proposta para novos trabalhadores é rígida. Está em discussão a fixação de uma da idade mínima entre 65 e 67 anos para todos: homens e mulheres de qualquer carreira, incluindo funcionários públicos e categoria com aposentadorias especiais, como professores. 

Para trabalhadores da ativa, estão sendo avaliadas regras de transição entre o modelo atual (que permite a aposentadoria com pouco mais de 50 anos) e o novo modelo (que buscará a aposentadoria acima de 65 anos). A ideia geral é criar mecanismos para prolongar a permanência do trabalhador no mercado – por um período curto para quem está prestes a se aposentar pela regra atual e por um prazo longo para quem entrou há pouco no mercado. 

Uma prioridade é acabar com a vinculação ao salário mínimo, medida defendida pela grande maioria dos estudiosos da Previdência. “Infelizmente, não há condição de manter a vinculação”, diz Nelson Marconi, pesquisador e professor da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas. A vinculação com o salário mínimo foi uma espécie de acelerador das despesas da Previdência. De 2012 para cá, as aposentadorias tiveram aumento real – acima da inflação – de cerca de 13%. “Seria lindo dar aumentos assim sempre, para todo mundo – quem não quer? Mas é muita generosidade para os recursos existentes”, diz Marconi. 

A reforma vai mexer também com servidores públicos. Avalia-se o fim gradativo de aposentadorias especiais, num período de quatro e oito anos, e o fim da paridade de reajuste para trabalhadores na ativa e inativos, imediatamente. Também está em análise a elevação progressiva da taxa de contribuição até o teto permitido pelo Supremo Tribunal Federal, hoje de 14%, especialmente para Estados. 

Nem todos porém, concordam, que é momento para reformas. A CUT se opõe radicalmente. Vagner Freitas, presidente da entidade, diz que é preciso avaliar melhor o que provoca o déficit e abrir uma discussão com a sociedade – o que, na avaliação dele, esse governo não tem condições de fazer. “Governo de transição não pode fazer reformas”, diz Freitas. 

Na tentativa de equilibrar as contas da Previdência, já foram feitas duas grandes reformas que mexeram na Constituição de 1988. A primeira, em 1998, tomou três anos de discussões e fez mudanças profundas, como instituir a aposentadoria por tempo de contribuição. A segunda, em 2003, afetou principalmente servidores públicos. “O que se percebe hoje é que as reformas anteriores não foram suficientes; jogaram o problema para frente, o que nos obriga agora a sermos mais enérgicos e rápidos”, diz Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica e presidente do Insper. 

A PAUTA DA REFORMA

Novos trabalhadores

Estuda-se a fixação da idade mínima entre 65 e 67 anos para homens e mulheres, dos setores públicos e privados, incluindo quem hoje tem aposentadoria especial, como professores. 

 

Trabalhadores da ativa 

O governo avalia fixar a idade mínima de 63 anos para mulheres e 65 para homens que já trabalham. Como os ativos são muito diferentes – uns estão perto de aposentadoria e outros começaram a trabalhar agora, estudam-se regras de transição para acomodar as diferenças de tempo de serviço. A idade mínima, por exemplo, poderia iniciar em patamares mais baixos (60 para homens e 55 para mulheres, como foi a regra adotada para funcionários públicos em 2003) e ir aumentando progressivamente. 

 

Aposentadoria rural

Como só cerca de 9% da população ainda vive na zona rural, a proposta é tornar mais restritiva a regra de acesso e atender apenas quem vive e trabalha em áreas mais arcaicas do campo. Como se trata de uma aposentadoria que tende a desaparecer, o passo a seguir é transformá-la em benefício assistencial. 

 

Valor de pensão 

Avalia-se retomar o projeto defendido pelo ex-ministro Joaquim Levy, que estabelece pensão parcial para viúvas. Discute um porcentual entre 50% ou 60% para o benefício básico, com adicional entre 10% e 20% para cada filho menor de idade.

 

Acúmulo de benefícios

Discute-se uma redução progressiva da acumulação integral de pensão, caso o beneficiário receba também aposentadoria. Isso seria exclusivamente aplicado a novas pensões preservando-se integralmente as já recebidas. 

 

Sistema único

Existem hoje múltiplos sistemas previdenciários: o INSS e a previdência federal, estadual e municipal. Discute-se as bases para a integração de todos os trabalhadores em um sistema único.

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‘Sem reforma, vai faltar dinheiro para pagar os aposentados’

Segundo o economista Paulo Tafner, especialista em Previdência, a reforma da Previdência precisa cortar despesas desde já. Caso contrário, pode faltar dinheiro para pagar os aposentados lá na frente. </p>

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

Como sr. vê a intenção de se fazer a reforma da Previdência neste momento?

Já passou da hora de fazer a reforma. Vou dar um dado crucial. O gasto previdenciário, mantida a regra atual, vai crescer 5% todo ano. Isso significa que em 10 anos, será 60% maior. Em 15 anos, vai mais que dobrar. Os próximos 20 anos são cruciais. Haverá um intenso processo de envelhecimento. Vai entrar uma quantidade imensa de gente no sistema e não há fonte de arrecadação que banque.

Na prática, o que será isso?

Significa que pode acontecer aqui no Brasil o que aconteceu na Grécia: faltar dinheiro para pagar o aposentado. Aí você chama o cara e avisa: sabe aquele ‘dindin’ que você recebe? Então, vou cortar.

O sr. defende a adoção da idade mínima para trabalhador da ativa. Por quê?

Sem isso, não haverá efeito financeiro imediato no sistema para desacelerar o crescimento do déficit. Se a regra da idade mínima valer apenas para novos trabalhadores, o efeito só virá daqui a 40 anos, quando esses trabalhadores estiverem velhos e começarem a se aposentar. 

Outra medida que o sr. defende é a equiparação da idade de aposentadoria para homens e mulheres. Há quem considere injusto com as mulheres. 

Por que injusto? Antigamente, as mulheres cuidavam da casa, dos filhos. Antigamente. Agora elas estão no mercado de trabalho. Além disso, as mulheres vivem muito mais que os homens. Aí vão se aposentar antes que os homens? Por que essa diferença? Não faz sentido. As pessoas precisam entender uma coisa: os últimos governos foram avestruzes e não aproveitaram um bom momento para fazer a reforma da Previdência. Não há mais tempo, nem como adotar paliativos.

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‘Não se faz mudanças desse porte em um governo transitório’

O presidente da CUT Vagner Freitas se opõe à reforma da Previdência desde o governo de Dilma Rousseff. Na sua avaliação, idade mínima e equiparação entre homem e mulher ignoram a realidade nacional. </p>

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

Como o sr. vê a intenção de se fazer uma reforma da Previdência nesse momento?

Inoportuna. Primeiro porque não se faz reformas, mudanças desse porte, em um governo transitório. O Temer é um golpista. Não reconhecemos o seu governo. Mudanças assim são feitas com governos permanentes, representativos. Esse nem foi eleito. E, em segundo lugar, não podemos apoiar porque eles partem do princípio de que é preciso adotar a idade mínima e outras medidas para as quais a CUT já se opôs até durante o governo Dilma. 

Por que fixar uma idade mínima seria um problema?

O Brasil tem uma peculiaridade: as pessoas começam a trabalhar cedo. A classe trabalhadora começa aos 14, 15 anos. A classe média, só depois da faculdade. A aposentadoria por idade iria beneficiar quem começa a trabalhar mais tarde. É um equívoco, do tamanho do mundo, não reconhecer essa característica. E há outro problema: querem igualar a regra para mulheres e homens. 

Qual o problema nesse caso?

Você que é mulher deve saber que equiparar é desconhecer a real relação entre homem e mulher no Brasil. Mulher faz tripla jornada. Os homens não dividem tarefas domésticas. Vão penalizar as mulheres. 

Os defensores da reforma alegam que não haverá receita para pagar as aposentadorias se mudanças não forem feitas. Como o sr. vê esse argumento?

Esse é um bom debate. Realmente, há um grupo de economistas que usa essa argumentação, mas outro discorda. É preciso entender melhor como é gerado do déficit da Previdência. O que é deficitário? Por que é deficitário? Há sonegação? Reconhecemos que em 30, 40 anos vamos ter problemas com a Previdência, mas precisamos sentar em fórum legítimo para discutir outras medidas, não adotar essas, que são conservadoras. 

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Congresso ainda resiste à reforma

Líderes dos partidos dizem saber da necessidade das mudanças na Previdência, mas têm dúvidas sobre temas como a idade mínima

Isabela Bonfim e Julia Lindner, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

BRASÍLIA - Considerada prioridade na gestão do presidente em exercício Michel Temer (PMDB), a reforma da Previdência não conquistou ainda apoio do Congresso Nacional. Em conversa com oito dos principais partidos, a avaliação é de que, apesar de reconhecerem a necessidade da medida, nenhum dos líderes no Senado e na Câmara se comprometeu a apoiar a reforma antes de conhecer detalhes da proposta.

Nem os líderes do PMDB declaram apoio integral. “Ainda não chegou a proposta, não tem como saber se vamos apoiar”, disse o líder da bancada no Senado, Eunício Oliveira (CE). Para ele, “a proposta que vem do governo para o Congresso tem um peso maior, porque obviamente o governo terá de fazer algumas concessões. É natural que mandem uma proposta mais dura, para que se tenha no Congresso alguma parcela de negociação”.

Para Eunício Oliveira, é preciso conhecer a proposta primeiro para saber se o PMDB vai declarar apoio integral

O novo líder do PMDB na Câmara, Baleia Rossi (SP), diz que cada ponto precisa ser discutido exaustivamente. Apesar disso, ambos reconhecem a necessidade da medida. “Não tem como a reforma não ser feita. O País não aguenta, não vamos conseguir pagar essa conta”, diz Oliveira. “É inevitável. Se continuar do jeito que está, em dez anos ninguém mais recebe aposentadoria”, afirma Rossi.

A reportagem ouviu líderes do PMDB, PSDB, PP, PR, DEM, PTB, PSB e PT. Entre os partidos que agora compõem a base de Temer, a posição é a mesma: ninguém nega a necessidade da reforma para aliviar as contas públicas, mas, por enquanto, ninguém garante apoio integral e vários colocam em dúvida o critério da idade mínima para a aposentadoria, posição defendida pela equipe econômica.

Momento. “A reforma é absolutamente necessária, mas não conhecemos a proposta. O tema merece amplo debate. Evidente que, na situação do País, há outras medidas que precisam ser levadas na frente, uma delas é a questão da meta fiscal”, afirma o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA). Outros líderes ponderam que talvez não seja o momento ideal. “É imprescindível, mas em um momento em que as coisas começam a se estabilizar, começar com isso não é apropriado”, avalia o líder do PP, Aguinaldo Ribeiro (PB).

O PSB demonstra restrições. “Como se trata de um governo provisório, tem de levar em consideração que, para qualquer projeto que traga divisão no Congresso, este não seria o momento mais adequado”, diz o líder no Senado, Antonio Carlos Valadares (SE). Ele sugere que Temer traga a proposta após ser efetivado como presidente.

O PT deve liderar a oposição à reforma, junto com PCdoB e PDT. No Senado, o ex-líder do governo Dilma, Humberto Costa (PE), diz que ela é importante, mas não apoia a forma como querem apresentá-la. “A reforma não pode representar perda de direito para os trabalhadores e entendemos que deveria ser feita daqui a quatro anos.”

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Contribuinte corre ao INSS para calcular aposentadoria

Possíveis modificações nas regras da Previdência já preocupam quem está perto de se aposentar

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

As discussões sobre a reforma nas regras da Previdência, defendida pelo novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, causa preocupação entre quem está próximo de atingir o limite mínimo para se aposentar ou já reúne condições para solicitar o benefício no INSS. O principal receio é de que uma modificação nas regras altere o tempo mínimo de contribuição ou desvincule benefícios, como o do reajuste do salário mínimo.

A reportagem esteve na sexta-feira em uma agência do INSS do centro de São Paulo e, por uma hora, presenciou parte dessas preocupações. Cinco entrevistados relataram terem ido ao local motivados pelas discussões em Brasília, sendo que três não tinham agendado o atendimento no site do INSS, uma exigência do órgão. Todos procuravam calcular o tempo de contribuição para tentar adiantar o processo de aposentadoria.

“Eu ouvi falar que os caras (do governo federal) querem mudar a idade para se aposentar e corri para cá”, disse Gilson Alves da Silva, de 59 anos. Técnico em manutenção de ar-condicionado, ele tem 35 anos de contribuição – tempo suficiente para entrar com o pedido de aposentadoria. Mas tem receio de que uma nova legislação o obrigue a trabalhar por mais tempo. “Só não quero contribuir mais para um benefício que nem sei quando terei.”

Esse tipo de dúvida tem sido frequente para Willi Fernandes, consultor jurídico do Centro Paulista de Apoio aos Aposentados e Servidores Públicos (Cepaasp). “Desde quinta-feira retrasada, quando o novo governo assumiu, recebo ligações para consultas sobre o futuro da aposentadoria”, diz o advogado, que também registrou aumento na procura por parte de quem já é beneficiário da Previdência. “Muita gente está preocupada com a desindexação do benefício ao salário mínimo. Hoje, 65% dos aposentados recebem só um salário mínimo.”

A advogada Marta Gueller, especialista em previdência social, precisou reforçar os atendimentos telefônicos do escritório. “Os clientes querem fazer o cálculo para começar o processo”, diz. A especialista tem sugerido calma aos clientes. “Eu digo sempre que o governo vai ter de criar uma regra de transição, no caso de mudanças. E quem já atingiu o limite por idade tem direito adquirido, uma cláusula pétrea da Constituição. Para quem não tem a idade mínima, não adianta nada começar um processo agora”, afirma.

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‘COMO FICA SE EU PERDER O EMPREGO?

<span style="line-height:1.6">"Tenho 57 anos de idade e estou agora puxando para ver o meu tempo de serviço. Sempre trabalhei em fábricas. Eu sou especializado em fios de cobre, sou operador de máquinas extrusoras. Eu moro no Itaim Paulista, trabalho em Itaquera e estou com medo de perder o emprego na fábrica. As empresas daquela região estão todas sentindo essa crise e eu fico pensando o que vou fazer da vida se não tiver trabalho. </span></p>

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

Josias Pedro da Silva, 57 anos: ‘Estou preocupado’ 

Fiquei muito preocupado com essa história de mexerem no tempo da gente aposentar agora. Vim correndo, peguei um amigo e vim hoje mesmo, mas me falaram que tenho de entrar na internet e pedir para fazerem o cálculo primeiro. Vou marcar pela internet e voltar depois.

O que me preocupa também é ter de ir até os lugares em que eu trabalhei e pegar toda a documentação. Eu peguei o telefone de um advogado na Rua Líbero Badaró e vou conversar com ele, entregar tudo o que tenho para ele e ver isso o quanto antes. Sinceramente, eu acho muito complicado mudarem a regra para a aposentadoria agora. Tenho muito tempo de serviço."

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‘AUMENTAR A IDADE AGORA É UM ABSURDO’

<em>"</em><span style="line-height:1.6">Essa história de aumentar a idade é um absurdo. Isso não existe. Eu acho que já consigo me aposentar, mas isso na lei de hoje. Na nova, não sei. Tenho 57 anos de idade e estou trabalhando por uns 36 anos. Vim aqui hoje para ver como tenho de fazer para começar o processo. </span></p>

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

Luiz Augusto da Silva, 57 anos: ‘Vou contratar advogado’

Eu não sei se vou conseguir agora porque tem um tempo que não está contando. Acho que vou precisar contratar um advogado para me ajudar com isso. Sempre fui metalúrgico, mas fui mandado embora tem mais ou menos uns 15 anos e não conseguia encontrar outro trabalho em minha área. Para eu me manter, como eu já estava com idade, fui fazer outra coisa. Comecei a trabalhar na área da construção civil como auxiliar de construção.

O homem aqui no Brasil, depois que passa dos 40 anos, não encontra mais trabalho. Repara que eu estou fazendo uma coisa que é pesada para mim. Depois dos 60 anos, acho que vou ter muitas dificuldades. Estão falando que querem mudar (a Previdência) porque não vão ter dinheiro para pagar todo mundo. Eu acho que é só eles devolverem uma parte do que pegaram que está tudo resolvido, dá para pagar todo mundo."

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‘NÃO VOTEI PARA ALTERAREM AS REGRAS’

<span style="line-height:1.6">"Quando percebi que o governo estava tentando alterar a aposentadoria, obviamente eu vim procurar o INSS, até para ver o que posso fazer. Não marquei hora. Trabalho como secretária desde os 19 anos, e parei duas vezes quando fiquei grávida dos meus dois filhos. </span></p>

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

Silvana Donatti, 57 anos: ‘Trabalho desde os 19’ 

A primeira vez fiquei sem trabalhar um ano e meio e a segunda mais ou menos isso. Eu estava preparada para trabalhar mais três anos até fazer 60, mas o que estão falando de igualar o tempo do homem e o da mulher vai atingir principalmente as mulheres, que vão trabalhar mais cinco anos. Quero ver se dá para fazer alguma coisa para compensar o tempo que fiquei parada e, com essa situação, me aposentar logo.

Sem entrar na questão do impeachment, esse governo que está aí quer modificar a Previdência, reduzir o SUS, eu não consigo aprovar isso. Eu não votei em um governo para modificar a aposentadoria. Ninguém votou numa proposta dessas. Eles foram eleitos e no programa de governo ninguém falava nada disso. E duvido que ganhariam com uma proposta desse tipo na campanha.”

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‘SOU FAVORÁVEL A UMA REFORMA NA PREVIDÊNCIA'

<span style="line-height:1.6">"Eu me aposentei há oito anos e vim ao INSS hoje para uma outra coisa, para alterar um nome que estava errado no documento. Apesar de ter me aposentado cedo, com 47 anos e 35 anos de contribuição, eu sou contra, acho que é muito cedo mesmo.</span></p>

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

Beatriz Longo, 55 anos: ‘Estou aposentada desde os 47’

O problema foi que eu acompanhava a economia e fiquei realmente com medo de não ter aposentadoria. Desde a mudança de governo, do FHC para o Lula, eles começaram a gastar demais, a criar muitos ministérios e sabia que estava errado. Apesar de ser advogada, eu acompanho muito a economia, no jornal eu leio apenas economia e a parte de ciência, que gosto muito. E ao acompanhar isso, claro, deu medo pela situação da Previdência.

Particularmente, sou favorável à uma revisão na aposentadoria, acho que é necessário, mas tem de tomar alguns cuidados. Tem que definir melhor para quem não tem o direito adquirido e para quem tem, definir essa linha. Muita gente começou a pagar a Previdência com 18 anos, como eu, e as pessoas não podem perder isso a dois anos, a cinco anos de se aposentar. Acho que tem outros benefícios que podem ser cortados também.”

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