A crise é a mesma, o desemprego, não

Naiana Oscar e Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

12 Junho 2016 | 05h00

Dois mil e seiscentos quilômetros separam Florianópolis de Salvador. Mas a distância parece maior. De um lado, no Nordeste, está a cidade do desemprego. Do outro, no Sul, está a capital com a menor taxa de desocupação do País. “São realidades completamente distintas, com histórias de desenvolvimento econômico muito diferentes e que influenciam o comportamento dessas regiões em um momento de crise”, diz Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE. 

Com uma taxa de desemprego de 15,5% no primeiro trimestre do ano, a Bahia tem uma massa de 1,1 milhão de pessoas à procura de trabalho, segundo dados da Pnad Contínua. Em Santa Catarina, com índice de 6%, 219 mil estão atrás de um emprego. Embora uma taxa seja mais que o dobro da outra, ambas cresceram em ritmo acelerado ao longo do último ano por causa da deterioração do quadro econômico do País. Nos dois casos, a alta foi superior a 60%. 

Ainda assim, a distância entre esses Estados no quesito emprego se manteve. Em Salvador, trabalhadores fazem fila, de madrugada, para pesquisar vagas ou pedir o seguro-desemprego. Enquanto em Blumenau (SC), a três horas de carro de Florianópolis, alguns setores têm dificuldade em encontrar candidatos. A cidade foi a que mais criou vagas no primeiro semestre do ano no Estado. 

A formação econômica de Santa Catarina ajuda a entender o que faz com que a região tenha uma espécie de blindagem em relação à crise. “A economia catarinense está desconcentrada, espalhada pelo território e distribuída em vários segmentos”, diz Glauco José Côrte, presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc).

O economista Alcides Goularti Filho, professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) e pesquisador da economia regional, reforça essa ideia. “Santa Catarina não tem uma cidade que seja a mais importante do Estado, também não tem um setor industrial que se destaque mais do que outros. Sua força está na diversidade.” A indústria têxtil, por exemplo, concentrou-se em Blumenau e Brusque; a extração de carvão, no sul do Estado; a indústria madeireira, no Vale do Itajaí, enquanto no oeste a força é da agricultura. 

Na capital baiana, que, isolada, tem taxa de 17,4%, o aumento do desemprego é consequência do quadro de forte retração da atividade econômica no País, disse Sergio Sakurai, professor da Faculdade de Economia da USP/Ribeirão Preto. Ele acredita que o fim de obras públicas, como a construção da Fonte Nova ou avenidas de Salvador, já concluídas, e a obra do metrô, ainda em andamento, podem explicar em parte a situação. “Mas, se fosse só por causa delas, esse efeito já deveria ter se diluído e não deveríamos estar observando crescimento do desemprego nos dias atuais.” Para Sakurai, “a região parece estar em sintonia com o enfraquecimento generalizado da economia”. 

O diretor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Paulo Balanco, concorda. Para ele, há na região uma forte aceleração no desemprego após um ciclo de expansão da atividade econômica. Balanco ressalta que a região historicamente tem também alta informalidade, o que mascara o mercado, além de uma baixa qualificação profissional, “uma herança perversa da escravidão”. Mas alertou que a Bahia ainda sofre de “frágil acumulação de capital”. Para ele, não há como acomodar todo o contingente trabalhador em Salvador, cidade marcada pelo serviço, e não pela industrialização.

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Naiana Oscar, Enviada Especial a Blumenau

12 Junho 2016 | 05h00

Foi de boné azul, crachá pendurado no pescoço e com uma camisa de manga curta que desafiava os 6ºC da última segunda-feira que Marciel dos Santos, de 23 anos, chegou para trabalhar na fábrica de alimentos Hemmer, em Blumenau, depois de passar sete meses desempregado. Ele foi demitido, em outubro do ano passado, de uma metalúrgica da cidade. E, na época, não achou essa uma má notícia. Usou o dinheiro da rescisão para pagar dívidas e tirou um tempo para pintar a casa na certeza de que encontraria um novo lugar para trabalhar sem muita dificuldade, antes que o seguro-desemprego acabasse. “Eu sou de Blumenau, minha cidade é rica, é farta em emprego, por isso não me preocupei.” 

Mas a entrega de currículos esbarrou numa concorrência pesada, com gente de outras cidades e de outros Estados do País disputando a mesma vaga. A Farbe, uma indústria têxtil especializada em tecidos tecnológicos, tem um exemplo prático de como essa procura aumentou. A empresa anunciou pela internet 8 vagas de emprego e recebeu 600 currículos de interessados: só 150 eram de moradores da região. Desde o início do ano, a Farbe contratou 60 pessoas e fez o quadro chegar a 470 funcionários, depois de um ano de vagas congeladas. O fôlego veio após uma reestruturação interna e a decisão de investir em novos segmentos, já de olho na retomada da economia. 

Souza (D) e os cinco funcionários que trouxe da Bahia 

Entre os novatos da Farbe, está o paraense Diego de Barros Santos, de 19 anos. Seu último emprego, no Norte, foi como operário na construção de uma rodovia. A obra acabou e ele foi demitido em janeiro. “Com R$ 3 mil no bolso, vim tentar a vida em Blumenau, onde já morava uma prima minha”, conta. Em pouco menos de um mês, ele foi contratado para operar a máquina que lava tecidos e ganhar R$ 1,2 mil. “É um luxo porque, de onde eu vim, não tem mais emprego. E aqui está sobrando.” 

Ao menos é essa sensação que se tem em Blumenau quando se compara a cidade com o restante do País. No primeiro trimestre deste ano, o município do Vale do Itajaí, com quase 340 mil habitantes, criou 2,6 mil novos postos, segundo dados do Ministério do Trabalho. Foi a cidade de Santa Catarina – e a sexta do País – que mais criou vagas nos primeiros três meses deste ano. 

Nas ruas, a crise ainda não salta aos olhos. As calçadas do centro continuam limpas, sem um papel no chão. O único morador de rua que pedia esmola, na semana passada, na região central, estava em frente à catedral. Os blumenauenses reclamam, dizem nunca ter visto recessão como essa, mas é difícil encontrar alguém que tenha uma pessoa desempregada na família. O taxista Paulo Manes, de 63 anos, por exemplo, não conhece ninguém. Suas filhas estão trabalhando e o táxi ainda paga as contas, apesar de o movimento ter caído. “Aqui, nós ainda temos o pão, o diabo é conseguir a chimia (geléia)”, reclama. “Mas imagino, pelo que vejo na TV, que há lugares em situação bem pior que a nossa.” 

O taxista imagina. O baiano Junior Souza tem certeza. Ele se mudou de Salvador para o Vale do Itajaí em 2007 para trabalhar em uma gráfica. No fim de 2015, comprou máquinas na China e montou uma empresa que produz lacres para marcas de roupas como a Dudalina. Dos seis funcionários, cinco ele trouxe da Bahia. “Se quiserem me oferecer R$ 1 milhão por mês para trabalhar em Salvador, eu não volto”, diz Junior. “Isso aqui é a Europa.” 

O fato de a cidade estar sentindo menos não significa que a crise ainda não tenha chegado lá. No início do ano, a Malwee, de roupas, fechou uma fábrica e demitiu 300 funcionários. Grandes companhias, como Hering e a fabricante de motores Weg, não demitiram em massa, mas congelaram contratações. O comércio também sentiu. A principal rua de Blumenau, a XV de Novembro, tem uma dezena de imóveis para alugar em 1,5 km de extensão. “Tivemos queda na arrecadação, mas temos a vantagem de que nossa economia não é dependente de uma única atividade”, diz Napoleão Bernardes Neto, prefeito da cidade. 

A indústria têxtil, que por anos foi o motor da economia regional, divide espaço com setores como o de metalomecânico, alimentos e outros mais jovens. Hoje, costuma-se dizer que, em Blumenau, há mais empresas de tecnologia do que padarias. E é verdade: são 1.100 contra 78, segundo a prefeitura. A origem desse setor, que hoje dá impulso à economia local, está na própria indústria têxtil, que se enfraqueceu com a concorrência chinesa e agora tenta se recuperar com a virada do câmbio. 

Na década de 60, companhias como Hering, Karsten, Sulfabril e Teka criaram uma empresa de informática para modernizar seus sistemas. A Cetil chegou a ter 3,4 mil funcionários. Muitos deles, mais tarde, criaram os próprios negócios e fizeram Blumenau se tornar um polo de tecnologia. A empresa de software HBSIS, responsável pela contratação de cem pessoas entre janeiro e maio, é uma delas. A Senior, que também é cria da Cetil, preencheu 90 vagas até o mês passado e tem mais 40 em aberto na cidade. “Não está fácil encontrar candidatos”, diz o presidente da empresa, Carlênio Castelo Branco. “Áreas como a nossa, em Blumenau, vivem uma situação de pleno emprego.”

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Dieese mostra quadro ainda mais grave

Para a coordenadora da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana de Salvador (PED-RMS), Ana Margaret Simões, pesquisadora do Dieese, o quadro do desemprego na área da capital baiana, mostrado também nas pesquisas da Pnad Contínua, vem se agravando desde o fim de 2014, mas a situação tornou-se ainda mais dramática nos últimos três meses. </p>

Pablo Pereira, Enviado especial a Salvador

12 Junho 2016 | 05h00

Em abril, a PED apontou uma taxa de desemprego de 23,4% da População Economicamente Ativa (PEA) na região, resultado que mostra um retrocesso de uma década no mercado – desde julho de 2007, a taxa não alcançava essa marca. Houve um crescimento de 2,1 pontos porcentuais em apenas um mês – março registrou 21,3%. De acordo com os dados do PED-RMS, abril registrou 439 mil desempregados, 44 mil a mais do que no mês anterior. Houve um corte de 18 mil vagas e um crescimento da PEA de 26 mil pessoas.

Os setores de comércio, reparação de veículos (com menos 10 mil postos) e da construção (com redução de 8 mil vagas) puxaram a oferta de empregos para baixo. O pico dos desocupados na RMS, segundo o estudo, que soma desemprego aberto, desemprego oculto por trabalho precário, mais o desemprego oculto por desalento, ocorreu em 2003 quando a medição bateu nos 30% da força de trabalho. A média atual de tempo de um desempregado procurando trabalho é de 50 semanas, “o que chamamos de desemprego de longa duração”, explicou a pesquisadora. “Temos uma crise agravada por falta de investimentos, aumento dos juros e crise política”, disse. 

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O Estado de S. Paulo

12 Junho 2016 | 05h00

Zanetti e os sócios investem R$ 4 milhões em fábrica

Foi em meio a protestos pelo impeachment da presidente da República e estimativas de queda no PIB do País, no ano passado, que o empresário Valmir Zanetti, de Blumenau, decidiu iniciar uma das maiores empreitadas de sua trajetória empreendedora. 

Dono de uma loja de cervejas na cidade da Oktoberfest, ele está construindo, com um grupo de investidores, sua própria cervejaria, com investimentos de R$ 4 milhões. Os tanques já estão a caminho e a produção está prevista para começar no dia 12 julho. A decisão de investir num momento em que o País vive a pior recessão de sua história está ancorada em duas premissas: a de que Santa Catarina está numa situação mais confortável que a de outros Estados.

Zanetti é um entusiasta de Blumenau. Tanto que sua cerveja leva o nome da cidade. “É sinônimo de disciplina, organização, respeito, de querer fazer melhor”, diz. “Essa cultura herdada dos imigrantes alemães é um dos fatores que faz a cidade sofrer menos com uma crise econômica.” Ele ressalta ainda uma outra herança dos colonizadores europeus: a do cooperativismo. Os copos com a marca Blumenau, por exemplo, são feitos por uma empresa da região. “Antes de pensar no resultado ou no turista, tem que ser bom para nós, tem que incentivar a produção local.” / Naiana Oscar

Demitido no Rio Grande do Sul, programador se mudou para Santa Catarina

Pádua está há quatro meses em Blumenau 

O gaúcho André de Pádua, de 26 anos, está há quatro meses em Blumenau. Trocou de cidade, como tantos outros, para trabalhar. Ele ficou desempregado no fim do ano passado depois que a companhia que o empregou por seis anos fechou a unidade que mantinha em Passo Fundo, sua cidade natal. 

A unidade de tecnologia da informação, especializada na área da saúde, emprega 450 pessoas e atende clientes do grupo no mundo inteiro. Outras 80 vagas estão abertas na cidade. “Em um momento como esse é muito bom trabalhar em uma empresa que está contratando, divulgando vagas”, afirma. “É uma motivação a mais.” / Naiana Oscar

'Cheguei às 3h na fila; está difícil conseguir vaga'

Maíra Soares Ferreira madruga para garantir lugar 

Com o primeiro lugar da fila garantido à porta do posto, Maíra viu o dia amanhecer quando, às 6h, um funcionário iniciou o atendimento. Atrás dela já havia 135 pessoas aguardando a chance de ver listas de vagas e tentar deixar de ser mais um na estatística do desemprego ou encaminhar papelada para o seguro-desemprego. “A gente sabe que a situação do desemprego está bem difícil em Salvador”, disse Maíra. “Mas quero tentar me recolocar no mercado de trabalho.” / Pablo Pereira

'Disseram que hoje não tem nada pra mim'

Estão falando que já sou velho, disse Célio Roque Ribeiro

Perrengue bravo vive também Célio Roque Ribeiro, de 51 anos, desempregado em pleno sofrimento pela falta de oportunidades. Dizendo-se com experiência como operador de caldeira, especialista em forno baiano (secagem de féculas e farinhas), ele é também açougueiro e, nos últimos e duros tempos, vem tentando se salvar até como pedreiro.

O faz-tudo Ribeiro contou ao Estado, na terça-feira, no posto central do SineBahia, na Avenida Antonio Carlos Magalhães, que, em abril, retirou a última parcela do seguro-desemprego recebido após ter sido demitido por uma rede de supermercados, onde trabalhava no setor das carnes.

“Peguei um bico na reforma de uma escola, mas também acabou”, contou ele, com a senha P236 do posto na mão, que atende 400 por dia, em média. Com uma filha de 9 anos, o morador do bairro Mussurunga 2, periferia da capital, lembrou que, depois de trabalhar por 12 anos em São Paulo, retornou à Bahia em 2007 com o sonho de tocar a vida no Nordeste. Na passagem pelo Sudeste, trabalhou no bairro de Pinheiros, na capital, foi à luta em Itu e chegou a batalhar em Palmital, ambas no interior paulista.

Desde que voltou para a terra natal, vinha se mantendo em atividade até que, no ano passado, foi ceifado pela crise. “Mas eu tenho três profissões”, argumentou no Sine, na esperança de que a qualificação lhe garantisse nova chance. “Vamos ver o que eu consigo aqui”, disse, pouco antes de ser atendido no posto do governo da Bahia.

Amuado pela situação, explicou ainda que enfrenta o preconceito da idade. “Aqui estão dizendo que eu já sou velho, que para mim fica difícil uma vaga. Mas eu não desisto”, emendou. Ele ficou poucos minutos no guichê 11, de onde saiu às 13h30. “Disseram que hoje não tem nenhuma vaga”, relatou, ainda com a carteira de trabalho na mão. “Vou continuar batendo biela por aí.” / Pablo Pereira

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