Tiago Queiroz/Estadão - 12/12/2013
Tiago Queiroz/Estadão - 12/12/2013

Nova regra do crédito rotativo não beneficia maioria dos clientes

Mudança na regra dos cartões faz juro cair pela metade para quem paga em dia, mas não alcança boa parte dos clientes, já que 61% do crédito tem atraso

Fernando Nakagawa e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2017 | 05h00

BRASÍLIA- As novas regras para o rotativo do cartão de crédito estão em vigor há cinco meses. O objetivo da mudança era reduzir os juros proibitivos dessa modalidade. Na prática, para quem paga em dia, isso até aconteceu: o juro caiu praticamente pela metade desde março – de 431% ao ano para 221,4% em agosto. Mas quase dois terços de todo o volume de crédito contratado no rotativo continuam fora do alcance das novas regras. Os clientes que aderem ao parcelamento mais barato e não cumprem o pagamento previsto voltam para o “antigo rotativo”, com taxas superiores a 500% ao ano.

De acordo com as novas regras, o cliente pode optar por pagar o valor mínimo da fatura, mas no mês seguinte ele precisa quitar ou parcelar a dívida restante. Quem faz isso, dentro dos prazos, está no chamado “rotativo regular” e tem se beneficiado com juros mais baixos. Se não fizer o pagamento no prazo, o cliente entra no “rotativo não regular”.

Dados do Banco Central revelam que há mais consumidores que atrasam o pagamento do crédito rotativo do que os que pagam em dia. Em agosto, 61,5% de todo o saldo do crédito rotativo era carimbado como “não regular”. Ou seja, R$ 20,6 bilhões tinham atraso ou pagamento inferior aos 15% da parcela mínima. A outra parte de 38,5% ou R$ 12,9 bilhões equivalia às transações “regulares” – quando há pagamento em dia e quitação mínima de 15%.

Os dados mostram que o rotativo é uma operação majoritariamente de clientes atrasados. Em agosto, 39,2% das operações registravam atraso superior a 90 dias no pagamento e 14,1% estavam de 15 a 89 dias sem pagamento. Nenhuma outra operação sofre tanto com calotes.

Para essa maioria que não paga em dia, o juro segue nas alturas. Em agosto, bancos cobraram média de 506,1% – perto do visto há um ano, quando estava em 514,9%. Com esse juro, uma dívida de R$ 1.000 cresce para R$ 6.061 em um ano. É a operação de crédito mais cara entre todas as 59 linhas acompanhadas pelo Banco Central. Segunda linha mais cara, o cheque especial cobra 321%.

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Embora o Banco Central reconheça que “algumas questões” ainda precisam ser resolvidas na operação, a instituição considera o resultado das mudanças um sucesso, por conta da redução do juro que incide sobre o crédito rotativo pago em dia. O banco também cita o crescimento de quase 50% no uso do parcelado – operação com juro menor, de 161% – como opção para deixar o rotativo.

“A medida foi bem-sucedida ao possibilitar importante redução das taxas de juros”, diz o BC em nota. “Ainda há questões vinculadas (ao rotativo não regular) sobre o juro muito elevado e o saldo que permanece”, reconheceu o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha. O técnico diz que esse problema pode ser combatido com educação financeira, mas reconhece o efeito do cenário econômico. “São clientes que tinham renda e perderam o emprego ou aqueles que não planejaram a despesa”, disse.

A coordenadora de atendimento do Procon-SP, Renata Reis, diz que um dos principais problemas que têm levado consumidores ao atraso é a falta de clareza das informações prestadas pelos bancos. “Clientes não conseguem entender a sistemática do novo pagamento mínimo e o parcelamento proposto.”

O diretor executivo da Associação Brasileiras das Empresas de Cartão de Crédito (Abecs), Ricardo Vieira, argumenta que o juro cobrado dos clientes não regulares não deve cair porque “seria um estímulo ao não pagamento”. “Essa é uma taxa punitiva para quem não paga.”

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