Andrew Kell/Reuters - 23/8/2021
Andrew Kell/Reuters - 23/8/2021

Nova York: esperança de retomada da economia é abalada em meio à alta de casos e variante Delta

Planos para a reabertura de escritórios em Manhattan, dos espetáculos da Broadway e da volta dos turistas foram frustrados com o aumento de infecções por covid; desemprego na cidade é o dobro da média nacional

Nelson D. Schwartz, Nicole Hong e Patrick McGeehan, The New York Times

26 de agosto de 2021 | 10h00

NOVA YORK - Para a cidade de Nova York e sua economia de trilhões de dólares, o próximo mês de setembro deveria marcar um retorno à vida normal, um momento em que os teatros da Broadway voltariam a funcionar, as lojas e os restaurantes retomariam o zum-zum-zum dos clientes e turistas, e os funcionários dos escritórios preencheriam as ruas outra vez.

Mas esse marco tão esperado foi por água abaixo por causa da variante Delta do novo coronavírus. Grandes empresas, uma após a outra, adiaram os planos de voltar às gigantescas torres comerciais de Manhattan. Feiras e conferências foram canceladas novamente. E algumas pequenas empresas viram seus clientes desaparecerem.

É um retrocesso para uma cidade que ficou atrás do resto do país na recuperação econômica, com uma taxa de desemprego de 10,5%, quase o dobro da média nacional. Agora, em vez de ver a recuperação completa com a qual contava, Nova York está enfrentando novos desafios.

“A variante Delta é uma ameaça significativa à recuperação da cidade”, disse Mark Zandi, economista-chefe da consultoria Moody's Analytics. "Isso não vai ser fácil. Ainda vai levar um bom tempo até que a cidade de Nova York recupere seu ritmo econômico.”

Os casos de covid-19 aumentaram acentuadamente na cidade desde o início de julho, atingindo o nível mais alto desde abril. As hospitalizações não aumentaram tanto e a taxa de mortalidade permaneceu baixa. De qualquer maneira, a situação é preocupante o suficiente e a cidade começou a exigir que proprietários e funcionários de bares, restaurantes, academias e locais de entretenimento fechados apresentassem comprovante de vacinação - algo que não estava previsto no início de junho.

Há sinais de esperança ou, pelo menos, de determinação. Os shows da Broadway, um grande ímã para turistas, estão prestes a recomeçar em setembro, assim como as aulas presenciais nas escolas da cidade, o que libertará alguns pais, mães ou responsáveis para retornar ao mercado de trabalho. Mas mesmo com a cidade patrocinando uma semana de comemoração pela reabertura, que teria como ponto alto um show no sábado passado no Central Park que foi interrompido por um raio, o cancelamento de feiras e outros grandes eventos tem aumentado.

Recuperar o ritmo pode ser dolorosamente lento. James Parrott, economista do Center for New York City Affairs na The New School, espera que a cidade crie de 20 mil a 30 mil empregos nos próximos meses, em vez de 40 mil e 50 mil, devido à variante Delta.

O número total de pessoas empregadas continua mais de meio milhão abaixo do que era antes da pandemia, com perdas acentuadas persistindo nos setores de lazer e acomodação e em outros segmentos de trabalho braçal. A recuperação desses empregos no setor de serviços depende em parte do retorno dos funcionários de escritórios que têm trabalhado remotamente - e até mesmo deixaram a cidade.

Escritórios ainda vazios

Muitas empresas tinham como objetivo trazer os funcionários de volta ao escritório logo após o feriado do dia do trabalho (comemorado na primeira segunda-feira de setembro), pelo menos por meio período. Mas esses planos foram descartados. O Facebook, que emprega 4 mil pessoas em Nova York, adiou o retorno até janeiro; enquanto as gigantes do mundo das finanças BlackRock e Wells Fargo atualmente planejam um retorno em outubro.

“Dados, não datas, são o que motivam nossa estratégia para voltar ao escritório”, disse o Facebook em um comunicado. “Continuamos monitorando a situação e trabalhando com especialistas para garantir que nossos planos de retorno ao escritório priorizem a segurança de todos.”

A Boston Properties, empresa de investimento imobiliário que temm mais de um milhão de metros quadrados de imóveis na região de Nova York, disse que cerca de 40% daqueles que ocupavam os locais antes da pandemia voltaram aos seus prédios no início de junho, com base no uso de crachás para entrar nos edifícios. Em agosto, em meio à alta da variante Delta e às viagens de férias, esse número caiu para cerca de 30%, segundo Owen Thomas, presidente da empresa.

“Acho que o retorno ao escritório é uma questão de ‘quando’, e não uma questão de ‘se’”, afirmou. “A variante Delta está afetando o quando.”

Ao mesmo tempo, os eventos corporativos presenciais estão novamente em perigo. Zandi, o economista da Moody's, tinha duas palestras presenciais marcadas para setembro e outubro, mas elas recentemente foram transformadas em eventos remotos.

“As pessoas estão nervosas com a variante”, disse ele. “No mínimo, isso abala a recuperação de Nova York e, se os casos continuarem a aumentar, atrasará a recuperação.”

Turismo aquém do esperado

A enorme indústria de viagens e lazer de Nova York também está tendo uma recuperação desigual. Mais do que qualquer outra cidade dos Estados Unidos, Nova York depende dos turistas internacionais. Portanto, a decisão do governo Biden no final de julho de continuar impedindo a entrada de visitantes da Europa e de várias outras partes do mundo foi um baque. 

“Isso está apenas reforçando que a recuperação não vai acontecer em uma linha reta”, disse Fred Dixon, presidente da NYC & Co., a agência que promove o turismo na cidade.

Tendo dado como perdido a maior parte do turismo estrangeiro em agosto, quando Nova York geralmente fica repleta de turistas europeus, as autoridades do setor de turismo temem que a variante possa afastar os visitantes durante a crucial temporada de férias de fim de ano também.

Os turistas americanos, de outras partes do país, voltaram a Nova York em números cada vez maiores, disse Dixon - o tráfego de pedestres na Times Square tem sido acima de 200 mil por dia, superior ao de maio e junho -, mas as pessoas não ficam tanto tempo nas ruas ou gastam tanto quanto os turistas estrangeiros.

No Loews Regency, um hotel localizado na Park Avenue conhecido como um ponto de encontro para figurões da política local e turistas, a ocupação tem ficado em torno de 75%, de acordo com Jonathan M. Tisch, presidente da rede Loews Hotels. Mas chegar às taxas de ocupação total do final de 2019 e início de 2020, disse ele, exigiria o retorno daqueles que viajam a negócios, principalmente dos turistas internacionais.

“Se você pudesse me dizer o impacto da variante Delta, eu poderia lhe dizer a taxa de ocupação para o resto do ano”, disse Tisch. “É uma grande incógnita.”

Caroline Hirsch, dona do clube de comédia stand-up Carolines on Broadway, não cancelou nenhuma apresentação e está seguindo em frente com os planos para o New York Comedy Festival (Festival de Comédia de Nova York), que está programado para começar em 8 de novembro e terá mais de cem apresentações em toda a cidade.

Mas, neste mês, ela percebeu pela primeira vez desde a reabertura em maio que algumas pessoas que compraram ingressos não apareceram.

“Começamos muito bem”, disse Caroline. “Pensávamos que tínhamos superado a parte mais difícil. Agora há outro obstáculo. Estamos todos com o futuro incerto outra vez."

Caroline espera que a nova recomendação da cidade de exigir comprovante de vacinação de pelo menos uma dose para entrar em muitos estabelecimentos fechados deixará o público mais confortável. A exigência entrou em vigor na última terça-feira e, em 13 de setembro, a cidade começará a multar as empresas que não a cumprirem.

Outros proprietários de negócios estão menos otimistas quanto ao decreto; ele teve como resposta pelo menos um recurso judicial. E à medida que setembro se aproxima, a perspectiva de ambiente de negócios pujante como antes da pandemia, que parecia tentadoramente possível há alguns meses, está se revelando ilusória.

No Shambhala Yoga & Dance Center em Prospect Heights, no Brooklyn, uma leva de alunos se matriculou depois que as aulas presenciais recomeçaram no final de abril, quando os esforços de vacinação estavam a todo vapor. Mas, nos últimos dias, o comparecimento deles diminuiu e ficou instável com as notícias dos surtos da variante, disse Deanna Green, proprietária do local.

“Assim que vimos a incerteza em relação às vacinas e à variante Delta, percebi uma pequena mudança”, disse Green. Algumas aulas de ioga que normalmente tinham 10 alunos passaram a ter apenas seis ou sete este mês, afirmou.

“Nós realmente dependemos de um fluxo constante de pessoas entrando pelas portas”, disse ela. “Eu gostaria que houvesse um nível de certeza maior.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.