Tulio Kruse/Estadão
Tulio Kruse/Estadão

Novas empresas chegam enquanto indústrias antigas demitem na região de Campinas

No coração do maior entroncamento rodoviário do País, aposta é no investimento de longo prazo enquanto queda na indústria continuar

Tulio Kruse, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2015 | 16h06

Uma das regiões mais competitivas economicamente do País por sua infraestrutura de transportes e seus parques tecnológicos, a região metropolitana de Campinas vive um momento contraditório. Enquanto a agência de promoção de investimento do governo estadual, a Investe SP, comemora um crescimento de 176% nos valores que administrou até agosto deste ano na região – de R$ 1,3 bilhão em 2014 para R$ 3,6 bilhões –, o cenário não é bom para empresas que já estão instaladas na região há mais tempo. 

De janeiro de 2013 até agosto deste ano, a indústria da região perdeu cerca de 20.750 postos de trabalho, segundo a diretoria regional do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo). No mesmo período, os novos empreendimentos levados à região com auxílio da Investe SP criaram 7.470 novos empregos diretos, resultando em um saldo de aproximadamente 13.280 postos de trabalho desativados na indústria da região.

No entanto, a região continua atraindo dinheiro estrangeiro e nacional em um momento que, segundo um dos diretores da Investe SP, a disputa entre os Estados por investimento está mais acirrada. Pelo menos R$ 3,6 bilhões já foram investidos em novos empreendimentos na Grande Campinas até agosto de 2015. Isso corresponde a 40% de todo o investimento em projetos para o Estado administrados pela Investe SP, segundo a própria agência. 

A americana Wenger do Brasil – fábrica de equipamentos para rações anunciou investimento de R$ 35 milhões para dobrar sua capacidade de produção. A chinesa BYD deve inaugurar uma fábrica de equipamentos movidos a energia solar em Campinas até o final do ano. Em agosto, a primeira fábrica nacional de painéis solares inaugurou suas operações na região. A Bionovis, uma joint-venture que une laboratórios farmacêuticos brasileiros e estrangeiros, planeja produzir os primeiros medicamentos de alta complexidade no Brasil categoria que até agora é totalmente importada no País.

“A gente sofre um pouco menos que o resto do País porque a competitividade da área metropolitana de Campinas é imensa”, diz o diretor do escritório regional do Ciesp em Campinas, José Nunes Filho. Ele cita a infraestrutura de rodoviárias e a presença de centros de pesquisa próximos como a fatores que favorecem Campinas. Segundo Nunes, as demissões nas indústrias da região só começaram em abril deste ano, o que foi considerado uma vantagem. Outras áreas do Estado começaram a dispensar empregados no fim de 2014. "Eu não tenho dúvida que foi um bom negócio [investir na região metropolitana de Campinas], pois se estivessem em outro lugar provavelmente teriam quebrado."

O Estado consultou cinco empresas que se instalaram ou expandiram negócios nos últimos dois anos na cidade de Valinhos, apontada pela Investe SP como um dos focos de investimento na região. Todas as empresas disseram que foram afetadas pela crise econômica, com queda de produção. Ao mesmo tempo, todas se mostraram satisfeitas com a infraestrutura da região e indicaram que suas dificuldades são passageiras.

Fabricante de equipamento hospitalar, a Suprimed relatou a maior diminuição de demanda entre as empresas consultadas, mas disse que o mercado se estabilizou a partir do segundo semestre deste ano. “Historicamente é um mercado menos sensível as crises, no entanto este ano sentimos diminuição na demanda em torno de 10%, principalmente no segundo trimestre deste ano”, diz o diretor de Vendas e Marketing da Suprimed, Danilo Magri.

Segundo os últimos dados do IBGE, a indústria paulista recuou 12% em julho de 2015 na comparação com o mesmo mês de 2014. Os principais setores afetados foram de equipamentos de informática (-46%), autopeças (-19,5%) e produtos alimentícios (-14,6%). Foi o terceiro pior resultado no período, perdendo apenas para Amazonas (-18,2%) e Ceará (-13,7%).

Dólar. Com a alta do dólar, que durante a semana bateu o recorde histórico fechando a R$ 4,13 na quarta-feira, 23, o momento é ruim para a importação de maquinários necessários para a instalação da fábrica. Os representantes da empresa explicam que o investimento está sendo feito pela matriz americana, e que a maior parte dos gastos é feita também em dólar. 

“As máquinas que nós iríamos importar, como elas estão atreladas ao dólar, isso não nos afetou demais”, diz Lais Betty de Souza, gerente administrativa da Wenger. Ela diz que a maior parte dos seus clientes, fabricantes de ração para animais, são exportadores. “Acreditamos que no Brasil, por ser um País cuja agroindústria é o que está ainda sustentando a economia, e o processamento de alimentos depende dessa área, a gente tem base.”

O representante da Ciesp na região, porém, diz que está preocupado com o impacto da alta do dólar e do aumento da carga tributária na produção. “Um real desvalorizado gera inflação,  o que deve refletir em todas as áreas, de energia e combustíveis fósseis principalmente, então isso é preocupante” diz José Nunes Filho. “O governo quer resolver seu problema de caixa aumentando ainda mais a carga tributaria, o que vai onerar a produção e vai ficar ainda mais difícil produzir.”

Otimismo. O prefeito de Valinhos, Clayton Machado (PSDB-SP), bate com força os pés na terra de um novo canteiro de obras e diz junto a uma plateia de cerca de 50 pessoas: “Seja abençoada esta terra e que a Wenger do Brasil seja próspera neste lugar, porque a sua prosperidade é sinônimo da minha vitória.” Nesta quarta-feira, 23, a inauguração da pedra fundamental da Wenger do Brasil, onde o político pediu a benção, foi parte de uma série de empreendimentos anunciados recentemente na cidade – do qual fazem parte a primeira fábrica nacional de painéis solares em grande escala e o primeiro laboratório de medicamentos de alta complexidade do País. Pisando sobre um dos territórios mais economicamente competitivos do País, Machado aposta na atração de investimentos para atravessar a crise econômica com menos turbubulência.

Até o fim do ano, o governo estadual promete entregar a obra de prolongamento do Anel Viário Magalhães Teixeira, que vai conectar as rodovias Bandeirantes, Anhanguera e Dom Pedro I, e também facilitar o acesso de Valinhos ao Aeroporto de Viracopos. A obra é a principal justificativa do prefeito Machado para manter o otimismo. Para a Investe SP, a explicação para a região reter investimentos é a logística e a posição estratégica.

“A região é farta em mão de obra qualificada em todos os segmentos, principalmente a que envolve valor agregado e na inovação tecnológica”, diz Juan Quiróz, presidente da Investe SP. Por causa da concentração de polos tecnológicos, centros de pesquisa e universidades na região, que criam um mercado com alto nível de consumo com boa remuneração, Quiróz se refere se refere à grande Campinas como “uma ilha de prosperidade". No entanto, nem todos estão otimistas como ele.

“Estão vindo investimentos, eu não tenho dúvida, pois a maioria dos investimentos estão vindo para a nossa região pela maior competitividade que temos”, explica o diretor da Ciesp de Campinas José Nunes Filho. “Por outro lado, os que já estão instalados, os mais antigos, estão sofrendo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.