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ArcelorMittal tem R$ 110 milhões para investir em até 15 startups em quatro anos Francois Lenoir/Reuters

Empresas criam fundos para investir em startups

Corporate Venture Capital, por exemplo, tem como objetivo buscar soluções para problemas internos e lucrar com valorização da startup

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

Uma tendência dentro das empresas para se aproximarem cada vez mais das startups e capturarem ideias inovadoras tem sido a criação do chamado Corporate Venture Capital (CVC) – semelhante aos fundos de Venture Capital. A diferença é que eles são formados com o capital de uma empresa que tem objetivos de buscar soluções para problemas internos. A ideia é descobrir tecnologias disruptivas e ideais para o negócio e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro com o crescimento da startup.

A ArcelorMittal, por exemplo, lançou em maio deste ano o Açolab Ventures, um CVC com orçamento de R$ 110 milhões para investir em até 15 startups em quatro anos, afirma Paula Harraca, diretora de Estratégia, ESG, Inovação e Transformação do Negócio da companhia na América Latina e Mineração Brasil. O grupo siderúrgico ficou em segundo lugar no ranking da “100 Open Corps” pelo segundo ano consecutivo.

“Estamos procurando startups mais maduras, com soluções já validadas para melhorar nossa competitividade e sustentabilidade”, diz Paula. Segundo ela, o objetivo do CVC é acelerar startups e pequenas empresas inovadoras no Brasil e na América Latina. “Queremos desenvolver novos produtos, soluções e serviços e explorar novas fronteiras e novos mercados.” A executiva conta que, desde 2018, a ArcelorMittal já investiu R$ 50 milhões em startups e já analisou mais de 7 mil empresas.

Outro que seguiu a estratégia foi o BMG. O grupo mineiro, que se manteve entre as três empresas com mais parcerias com startups nos últimos três anos, também tem um CVC para encontrar soluções nas suas áreas de atuação que vão do setor financeiro ao agronegócio e logística. Nos últimos anos, a empresa investiu em mais de 80 startups. “Temos de tentar unir forças. Assim como a startup, a grande empresa tem suas vantagens (como a estrutura para apoiar projeto)”, diz o presidente do BMG Uptech (o braço de inovação do Grupo BMG), Rodolfo Santos.

Além do CVC, um outro instrumento que começa a ganhar força dentro das empresas é o Corporate Venture Bulding (CVB), de acordo com o sócio e cofundador da The Bakery no Brasil, Felipe Novaes. O CVB é uma empresa que investe, constrói e desenvolve startups para grandes corporações. “Essa startup pode ser criada do zero ou a partir de um projeto existente.” 

Com conexões em universidades, startups e fundos de investimentos, a The Bakery – presente em 16 países – faz esse tipo de trabalho de forma industrial e rápida. No momento, a empresa tem dez startups em processo de construção para grandes empresas.

“Uma venture building constrói ou mata negócios de uma maneira mais eficiente, uma vez que diminui a curva de aprendizado dos empreendedores e interrompe o desembolso caso a ideia se mostre, de fato, inviável. Com isso, usa menos dinheiro do caixa das empresas no médio e longo prazos”, explica Rodrigo de Alvarenga, chefe de CVB e CVC da The Bakery.

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Grupos tradicionais aceleram parcerias com startups em busca de inovação

Entre maio de 2020 e junho deste ano, acordos desse tipo saíram de 13,4 mil para 26,3 mil, e o número de empresas maiores que buscam essas parcerias passou de 2,8 mil para 4,9 mil

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

A aposta das empresas tradicionais em parcerias com startups para avançar no campo da inovação vem crescendo. Entre maio de 2020 e junho deste ano, o número de acordos desse tipo praticamente dobrou, saindo de 13.433 para 26.348. O valor total de contratos fechados subiu de R$ 800 milhões para R$ 2,2 bilhões – um crescimento de 175%, segundo a plataforma 100 Open Startups. “A aproximação das empresas com os empreendedores vem crescendo ano após ano, mas ganhou ainda mais impulso com a pandemia e a necessidade de digitalização”, diz o cofundador da plataforma de inovação, Rafael Levy.

Esses números mostram uma clara mudança de perfil. Se, no passado, o desenvolvimento de novos produtos e de soluções vinham de programas de P&D e laboratórios criados dentro das companhias, hoje boa parte das inovações adotadas vem de fora.

A velocidade das mudanças tecnológicas tem sido um dos motores desse movimento. Nos últimos anos, as empresas entenderam que, se ficassem fechadas em seus ambientes, teriam mais dificuldades para inovar e poderiam perder competitividade diante dos concorrentes. Normalmente, o tempo e o dinheiro gastos dentro dos centros de pesquisa das empresas são maiores quando comparados à exploração do ecossistema de startups, formado por mais de 15 mil empresas, dizem especialistas.

Neste ano, o número de companhias que buscou startups para fazer parcerias saltou de 2.825 para 4.982 – aumento de 76%. “Ficamos bem impressionados com o crescimento. E agora percebemos que não são só multinacionais e grandes corporações. Começamos a ver médias empresas iniciando esse processo”, diz Levy. Isso traz mais competitividade para o mercado, cria novas oportunidades e incentiva a abertura de startups. É um círculo virtuoso. 

Jornada. Os números evidenciam que, daqui para frente, a jornada da inovação não será feita mais sozinha. Os executivos e empresários descobriram que é mais fácil inovar junto do que separado, e que o caminho é mais curto. “Hoje acredito que quase a totalidade das empresas de médio porte para cima vai ter uma experiência com startup nos próximos meses”, avalia Luiz Ponzoni, sócio da PwC Brasil.

No caso da gigante das bebidas Ambev, essa experiência se repetiu mais de 200 vezes no ano passado, o dobro dos contratos fechados nos cinco anos anteriores. A empresa ficou em primeiro lugar no ranking da 6.ª edição do “100 Open Corps 2021”  como a companhia que teve o maior engajamento com as startups – em 2020, a campeã foi a Natura. “Essa liderança vem de um contexto de transformação dentro da companhia, seja digital ou cultural. Estamos num mundo em que precisamos ter as portas abertas para a inovação”, diz o diretor de tecnologia da Ambev, Eduardo Horai.

Ele afirma que a Ambev tem hoje 11 programas de parcerias, aceleração e inovação. Num deles, a estratégia foi ouvir o que as startups tinham a oferecer de soluções, sem limitações de áreas e temas. Em outro, chamado de Aceleradora 100+, o objetivo é focado em ESG – sigla em inglês para as práticas ambientais, sociais e de governança. As startups precisam trazer soluções envolvendo questões de mudanças climáticas, agricultura sustentável, embalagem circular e gestão de água. Só nos dois programa, 26 empresas foram escolhidas para continuar desenvolvendo as soluções, diz Horai.

O executivo conta que a ideia de fazer as lives de música no ano passado, durante o isolamento social, surgiu da parceria com a startup Winnin. “Por meio de inteligência artificial, ela ajuda a dar insights que permitem acompanhar o que está ocorrendo no mundo. Foi a partir daí que tivemos a ideia de fazer as lives.” 

Contratação. Na Ambev, como em todo o mercado, não há um modelo padrão de parceria com as startups. Horai diz que, às vezes, as empresas só querem um suporte para desenvolver seus produtos e ideias. Mas pode ser uma cocriação e um acordo comercial também. Há ainda outras opções, como prestação de serviço e aquisição do produto.

Segundo a “100 Open Startup”, cerca de 80% dos acordos de inovação aberta (com parcerias) implicam transferência de recursos da empresa maior à startup. O valor médios dos contratos aumentou de R$ 140 mil em 2020 para R$ 270 mil neste ano. “Esse processo é simples, genial e dinâmico. Mas exige não só acompanhamento como uma integração maior com a startup”, diz Marcus Ayres, diretor de indústria e inovação da consultoria Roland Berger

Segundo ele, a inovação aberta tem um caminho de forte crescimento no Brasil nos próximos anos. Isso porque, até então, esse era um mundo limitado a grandes corporações e que agora começa a ser descoberto por mais empresas. Para muitas delas, no entanto, o modelo terá de ser um pouco diferente, diz Ayres. Nem todas as companhias têm condições de montar estruturas grandes para isso. “Mas temos Sebrae, Fapesp e Senai, além das câmaras de comércio, que podem ser um canal para encontrar parceiros.” Além disso, completa ele, é possível procurar outros grupos que tenham o mesmo problema e tentar uma solução em conjunto. O importante é buscar a inovação.

Rodolfo Santos, presidente do BMG Uptech, braço de inovação do Grupo BMG, concorda. “Temos de unir forças e aproveitar o melhor de cada um. Uma grande empresa é como um transatlântico, difícil de manobrar. A startup é como um iate, mais flexível.” A empresa, que ocupa a terceira posição do ranking da 100 Open Corp pelo segundo ano consecutivo, já investiu em mais de 80 startups. E deve continuar nesse ritmo nos próximos anos.

Essa também é a previsão da siderúrgica ArcelorMittal. A empresa manteve a segunda posição no ranking com soluções focadas nos problemas dos clientes, como crédito; em logística para varejo; e também na área de saúde para os funcionários. Segundo Paula Harraca, diretora de Estratégia, ESG, Inovação e Transformação do Negócio da companhia na América Latina e Mineração Brasil, hoje 70% das inovações feitas em parcerias são voltadas para o “core business” da empresa. Outros 30% estão relacionados a novos mercados e fronteiras de negócios.

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Área de inovação da Nestlé nasceu dentro do marketing

Nos últimos três anos, empresa avaliou mais de 1,4 mil empresas e trabalhou com 397 delas

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

Há cinco anos, a executiva Carolina Sevciuc foi encarregada de criar uma área de inovação na Nestlé, inicialmente incorporada ao setor de marketing. Durante o processo, estudou muito sobre inovação e, aos poucos, entendeu que a empresa precisava se abrir ao ecossistema de startups se quisesse manter a competitividade e estar à frente da concorrência.

Naquela época, a empresa era muito fechada e tinha seus próprios centros de tecnologia espalhados pelo mundo. “Então, você imagina o tipo de conversa que tivemos de ter nos mais diversos níveis da companhia, incluindo o jurídico”, diz Carolina, que é chefe de transformação digital da Nestlé – 5.º lugar no ranking da “100 Open Corps”.

Nos últimos três anos, a empresa avaliou mais de 1,4 mil empresas, trabalhou com 397 delas e fez projeto piloto com outras 100. Em termos de contratos, foram 35 fechados até agora. Hoje, a empresa tem uma plataforma de inovação aberta, o Panela, para facilitar o contato de startups e estudantes com a empresa.

Entre as experiências positivas da empresa, Carolina cita o caso da parceria entre o Empório Nestlé e a startup Supermercado Now. O acordo permitiu que os produtos da empresa, antes comercializados nas lojas físicas, fossem vendidos também de forma online. 

Outro caso é a parceria com a Ubivis, que tem ajudado na transformação digital e na implementação da indústria 4.0 nas fábricas da Nestlé. A startup montou um software robô de autoajuste na produção de chocolates na unidade de Caçapava, no interior de São Paulo. A solução ajudou a multinacional a diminuir perdas de dosagem de matéria-prima. 

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Na Basf, disparidade de tamanho deixou de ser problema

Programa de aproximação com startups trouxe cultura de inovação para empregados

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

O trabalho com as startups foi um aprendizado para a indústria química Basf. No início, a disparidade de tamanho entre as empresas era um grande problema, já que companhias maiores sempre exigem uma série de regras para seus fornecedores. “Pedíamos vários documentos que os empreendedores não tinham. Então, se quiséssemos trabalhar com eles teríamos de adotar algumas flexibilizações. O resultado foi tão positivo que hoje o processo é natural”, diz Renata Milanese, diretora da multinacional alemã.

Ela conta que nos últimos anos a empresa criou alguns programas para se aproximar das startups. Primeiro veio o Agrostart, uma aceleradora de startups voltada para soluções do agronegócio. Depois o Suvinil Fora da Lata, que também tinha o objetivo de se aproximar dos empreendedores. A última iniciativa foi o Onono, um hub de inovação que conecta clientes, startups e a Basf. Segundo Renata, esse foi um marco de transformação digital dentro da empresa, pois além das soluções também trouxe uma cultura de inovação para os empregados.

Criada em 2019, a central já conta com mais de 40 clientes ativos e uma base de mais de 10 mil startups que foram selecionadas em parceria com a Aevo (plataforma de gestão da inovação). “Temos vários projetos sendo desenvolvidos ali”, destaca Renata. Entre essas inovações estão a impressão 3D, cujo objetivo é criar soluções para melhorar a eficiência das fábricas da empresa. 

Na busca por parcerias, a Basf foca em soluções de mercado e aquelas relacionadas à operação e produção, além do desenvolvimento de novos produtos. 

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