Novas reflexões sobre afrouxamento quantitativo

Nas últimas semanas, os mercados financeiros globais deram uma nítida guinada, e para melhor, apesar das evidências de uma nova desaceleração econômica em várias partes do mundo. Os prováveis motivos são fundamentalmente dois: as medidas ousadas (pelo menos na Alemanha), porém controvertidas, do Banco Central Europeu (BCE) para aperfeiçoar o funcionamento da União Monetária Europeia - e dirimir em parte os temores de um contágio global - e o choque e o espanto provocados pelo recente anúncio do Federal Reserve (Fed, banco central americano) a respeito da terceira rodada de afrouxamento quantitativo, o QE3, como é conhecido mundialmente. Eu prefiro defini-lo como "QE Infinity".

JIM O'NEILL, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h11

QE Infinity! A medida mais recente do Fed é realmente drástica. Devo admitir que, até o anúncio, eu - equivocadamente - não me impressionaria tanto se o Fed anunciasse uma ampliação do seu compromisso de manter os juros perto de zero até 2014 (o que fez de fato) ou novos preços dos ativos financeiros (o que ele fez também em termos de hipotecas). Aos poucos, acabei me convencendo de que as medidas adicionais eram modestas, e que os seus benefícios seriam apenas marginais. Na realidade, comecei a pensar, em termos de análise dos custos/benefícios, talvez os custos superassem os benefícios que eu considerava apenas modestos. Afinal, que diferença faz, em termos concretos, para os consumidores ou para os produtores, se o Fed promete manter os juros no ponto em que estão até 2015, em lugar de 2014, e se as suas compras adicionais de ativos mantêm os juros a longo prazo menores em alguns pontos-base em termos de rendimento? Como um dos meus colegas da GSAM (Gestão de Ativos Financeiros do Goldman Sachs) me disse há alguns meses, se as companhias não conseguem ganhar dinheiro com os rendimentos de dez anos a 2%, é improvável que 1,5% represente a salvação para elas! O que eu não levava - suficientemente - em conta, era que a declaração de intenções do Fed, que acompanha estas medidas, seria tão enérgica a ponto de implicar que as autoridades do banco aumentavam a importância de uma parte do seu mandato em relação à outra, ou seja, uma clara declaração de que desejam que o desemprego caia mais rapidamente do que está ocorrendo e que continuarão comprando ativos até que isso aconteça. Daí o que eu disse a respeito do QE Infinity (que extraí de um GSAM Portfolio Manager). Também é preciso levar em conta outro aspecto fundamental da declaração do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc). Apesar de sua decisão de "abrandar", o Fed na realidade eleva sua previsão do Produto Interno Bruto (PIB) para os próximos três anos, que interpretei como mais um sinal de sua determinação. Esta se tornará uma meta, e não uma simples previsão.

Portanto, o que acontece com a relação custos/benefícios? Os custos do QE "convencional", ou pelo menos os do QE1 e do QE2, eram essencialmente de dois tipos, no meu ponto de vista. Em primeiro lugar, encorajando os investidores a optarem por ativos considerados de risco, uma acusação fundamentada seria que o Fed contribui para aumentar os preços das commodities mais do que estes deveriam alcançar. Para consumidores, e particularmente os de commodities das nações importadoras, esse fato não é nada positivo. Em segundo lugar - e isto se relaciona aos aspectos a prazo mais longo, particularmente os custos "de saída" -, o Fed chama a atenção política para o fato de que isso poderia afetar a futura independência da instituição e seu mandato.

Os mercados acrescentaram efetivamente um terceiro custo aos dois anteriores, com a afirmação de que o aumento das expectativas de inflação é uma consequência inevitável do QE3. E, na realidade, as expectativas de inflação calculada no mercado de títulos do Tesouro protegidos contra a inflação (Tips) respaldam esse conceito. Mas estas são as expectativas de inflação da bolsa. Elas não são necessariamente precisas, principalmente porque esses parâmetros costumam ser voláteis.

Uma medida mais confiável, a pesquisa sobre as expectativas de inflação para cinco anos da Universidade de Michigan, na qual são ouvidas pessoas reais, é mais reveladora. Trata-se de um parâmetro que permanece estável há anos, e sugere que o banco central americano tem grande credibilidade.

Pretendo observar as duas próximas pesquisas com mais atenção.

Em termos de benefícios, ainda é possível que sejam limitados, mas o Fed está claramente procurando ser mais ousado em seu propósito do que antes, aumentando as perspectivas de compras ilimitadas de ativos. E, por fim, concentrando seus esforços adicionais, inicialmente, no mercado hipotecário, ele está apoiando um setor da economia que já está se recuperando. Indicadores publicados recentemente mostram um aumento dos sinais de recuperação do setor da habitação, e a medida adotada pelo Fed só poderá aumentar sua confiança.

O BCE deveria empreender QE total? Alguns observadores estão excepcionalmente preocupados com a possibilidade de que, quando o Fed indica o caminho, o BCE - principalmente sob a presidência de Mario Draghi - o seguirá. E estão preocupados em razão da mesma preocupação com a suposta inevitabilidade da inflação, e da possível desvalorização do euro. Considero esses temores infundados, principalmente porque o BCE provavelmente está muito longe de encarar as coisas de maneira tão agressiva quanto o Fed. Durante todas as suas explicações públicas sobre a política do BCE, Draghi fez questão de destacar que todas as compras de títulos dos países da periferia serão esterilizadas, e que essas compras se darão somente se e quando os países solicitarem a ajuda. Não se trata de um banco central que segue os passos do Fed, pelo menos ainda não. A este respeito, o BCE não tem um duplo mandato, e como está demasiado ansioso por dizer aos observadores, respeita totalmente, e planeja ater-se ao seu mandato no que se refere à meta inflacionária. Na minha mente ocorre um debate legítimo sobre a eventualidade de se conceder ao BCE um mandato semelhante ao do Fed, mas isso não está no programa.

Seria interessante rever a discussão do QE do BCE no caso de a economia da zona do euro enfraquecer a ponto de cair numa recessão ainda maior, porque isso sugeriria que, conforme seu mandato declarado e aceito, o BCE está falhando (pressupondo-se que a inflação caísse inevitavelmente abaixo de 2%). Mas este é um assunto para outro dia.

O Banco do Japão seguirá o Fed? Se o BCE não está nem perto da agressividade do Fed, que dizer do Banco do Japão? Este banco central andou sugerindo intermitentemente que faria algo um pouco diferente até o fim de 2012 e considerando as décadas perdidas do Japão, o país tem a maior necessidade disso. Afinal, continua apresentando um crescimento reduzido, sua dívida pública continua crescendo consideravelmente - fazendo com que a da Europa e a dos EUA pareçam pequenas em relação aos respectivos PIBs - e agora, depois do tsunami, pretende mudar seu planejamento na área energética para que o país provavelmente se torne um importador durante muitos e muitos anos no futuro.

O Japão precisa parar de crescer tão pouco, parar com a armadilha do endividamento elevado antes que esta se torne uma crise impossível de se frear nas mesmas proporções da crise grega, mas numa enorme escala. Isso é algo que será preciso observar com toda a atenção por ser potencialmente muito negativo para o iene.

Um QE maior ajudará ou prejudicará o Brasil? Como pergunta final, o que significaria para o Brasil um QE mais ambicioso e ousado? Não fosse pelas questões fundamentais do real e da competitividade do Brasil a longo prazo, acho que a resposta seria inequivocamente positiva. Se mais QE significa mercados acionários mais confiantes e, com isso, mais esperança de que a economia mundial melhore e - ao contrário dos importadores de commodities - o aumento dos preços de commodities for útil para o Brasil, é difícil ver aspectos negativos. Mas existe a questão do real. No ano passado, admirei os esforços das autoridades brasileiras em reduzir a atratividade do real por acreditar que para evitar a doença holandesa e os desafios da autêntica competitividade no longo prazo, o Brasil precisava frear o vigor excessivo de sua moeda. A situação continua a mesma hoje, principalmente depois das recentes iniciativas para aumentar a competitividade mediante algumas reformas. Se o governo conseguir isso, o Brasil não deverá temer o QE Infinity nos EUA, nem nós, aliás, principalmente porque é evidente que não durará para sempre. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

 

 

* JIM O'NEILL É PRESIDENTE DA GESTORA DE RECURSOS DO GOLDMAN SACHS E CRIADOR DO TERMO BRIC. ESCREVE A CADA DOIS MESES COM EXCLUSIVIDADE PARA O 'ESTADO'

 

 

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