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Novas regras do jogo político

O problema das leituras apressadas em meio ao turbilhão é que metade delas está errada. E, enquanto os acontecimentos ocorrem neste ritmo intenso, não saberemos qual a metade certa. Um ponto, no entanto, está incrivelmente ausente de boa parte das análises. Não são os partidos políticos, a imprensa ou mesmo agremiações diversas que levaram para as ruas a maior multidão em protesto já vista. Foram as redes sociais. É no Facebook que ocorrem debates, pelo WhatsApp que se marcam encontros, pelo Twitter que as notícias chegam primeiro, colhidas frescas dos sites. E, em todos, a qualquer hora, um boato nasce.

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2016 | 05h00

Não há novidade. Em 2013, quando as ruas foram tomadas por multidões que protestavam por não só vinte centavos, as redes sociais foram logo observadas. Toda a imprensa foi conversar com Manuel Castells, o sociólogo que mergulhou mais fundo na sociedade em rede. As pessoas que estão nas ruas, agora, podem não ser as mesmas de há três anos. Mas a lógica é a mesma.

O juiz Sergio Moro se inspirou na Operação Mãos Limpas italiana. Lá, uma das consequências foi esfacelar o sistema político-partidário. Ao fim do processo judicial, ficou claro que boa parte dos partidos estava entranhada pela corrupção estrutural do país. É bem possível que algo assim ocorra no Brasil. A lógica da fragmentação de partidos, das dezenas de siglas presentes no Congresso, passa pela divisão de cargos que, por sua vez, deságua na busca por diretorias em estatais e seus muitos contratos com empreiteiras.

Enquanto o governo tenta emplacar a interpretação de que o problema é o jornalismo, o judiciário ou algum tipo de conspiração ideológica, nas redes as conversas são bem mais objetivas. O problema é corrupção. E, daí, nasce a rejeição aos políticos. De conversa em conversa, a fúria é alimentada e aumenta a crise. O Congresso reage colocando-se a trabalhar sob pressão. Há um processo de impeachment em curso.

Só que não estamos mais em 1992. Após a posse de Itamar Franco, o Brasil reencontrou a normalidade. Em 2016 será diferente. Na hipótese de impeachment, as conversas online continuarão. Nos núcleos da esquerda governista, haverá revolta. E, no resto do País, cobrança. A Lava Jato não acabará. Políticos de vários partidos continuarão sob a ameaça de tornarem-se réus. O sistema partidário terá de ser reinventado. É uma oportunidade.

Na Itália deu errado. Silvio Berlusconi, um demagogo clássico, pegou carona no vácuo. Mas, desde então, algumas experiências surgiram. O Movimento 5 Stelle, partido fundado pelo comediante Beppe Grillo, tenta usar a força da internet para fazer política. Tem deputados eleitos que atuam em conversa permanente com seu eleitorado. Isso inclui a colaboração de eleitores na leitura de relatórios e pesquisa para a criação de leis. Em 2014, foi o segundo mais votado nas eleições para o Parlamento europeu.

Na Espanha, em dezembro, o Podemos conseguiu um quinto dos votos nacionais em sua segunda eleição, tornando-se a terceira força política do país. É também um partido que se organiza online.

São, ambas, experiências com uma democracia criada para o século 21. Embora sejam de esquerda, sua pauta passa ao largo das reivindicações típicas de décadas atrás. E nada impede que um partido de direita se organize da mesma forma. A política brasileira não escapa de ser reinventada. Quem continuar sem encarar a internet de frente o fará por sua própria conta e risco.

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