Novas regras favorecem endividamento

Quando os bancos europeus compraram quantidades de bônus gregos ao longo dos anos, tornando-se mais vulneráveis a um default e ampliando a crise corrente, eles estavam fazendo apenas o que as autoridades reguladoras os encorajaram a fazer - e, aliás, ainda os encorajam.

Jack Ewing, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2011 | 00h00

Apesar da ameaça ao sistema bancário causada pela Grécia e as frequentes remarcações para baixo dos bônus gregos no mercado, os regulamentos bancários europeus mantêm a ficção de que a dívida grega não envolve risco. O mesmo vale para bônus da Irlanda, Portugal ou de qualquer outro país da União Europeia.

Os regulamentos, deixados intactos pelas novas regras bancárias da Comissão Europeia emitidas na quarta-feira oferecem um forte incentivo financeiro para bancos comprarem dívidas governamentais. Como o risco de prejuízos é oficialmente zero, os bancos não precisam guardar reservas adicionais quando compram dívidas públicas. Isso efetivamente reduz o preço.

"O pressuposto era de que Estados não quebram, o que obviamente não é verdade", disse Bert van Roosebeke, um especialista em bancos no Center for European Policy em Freiburg, Alemanha. "Isso é uma total maluquice." Os governos se beneficiaram dos regulamentos que ajudaram a criar um mercado para seus bônus e manter as taxas de juros baixas. Mas, agora que os problemas da Grécia estão abalando a zona do euro, a política parece imprudente.

As extensas posses de dívida soberana por bancos são uma questão central na crise, criando uma ligação perigosa entre problemas fiscais do governos e a estabilidade bancária. A exposição de instituições financeiras a bônus governamentais acrescenta uma camada adicional de complexidade no momento em que líderes europeus se esforçam para encontrar uma maneira de reduzir a carga da dívida da Grécia sem derrubar o euro.

"O fato de bancos privados possuírem uma fatia considerável dos bônus governamentais europeus e arriscarem uma parcela importante de seu capital nesse mercado torna mais difícil uma reestruturação", escreveu Kai A. Konrad, um especialista em legislação fiscal do Max Planck Institute num trabalho em coautoria com Holger Zschäpitz, um repórter do jornal Die Welt.

O tratamento favorável da dívida soberana pelos reguladores "é como um subsídio pelo qual os governos distorcem decisões bancárias, tornando os bancos mais propensos a financiar a dívida governamental do que a se engajar em seu negócio principal", escreveram os dois no artigo, publicado neste mês pelo Instituto Ifo de Pesquisas Econômicas em Munique. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

JORNALISTA DO ''THE NEW YORK TIMES''

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