Joshua Lott/Reuters
Joshua Lott/Reuters

Nove lições da crise financeira global

Há lições relevantes que não foram suficientemente internalizadas, algumas que não foram previstas na época da crise e, contudo, hoje são urgentes e importantes

Por Mohamed A. El-Erian*, Bloomberg

15 Setembro 2018 | 05h00

Uma lição foi aprendida que levou a mudanças importantes por parte de indivíduos e instituições. Foi o caso nesta década desde que a crise financeira quase levou a economia global a uma depressão prolongada que devastou a vida de muita gente por pelo menos uma geração. Mas há lições relevantes que não foram suficientemente internalizadas, algumas que não foram previstas na época da crise e, contudo, hoje são urgentes e importantes.

Abaixo um resumo do que foi realizado após a crise, o que ficou inacabado e as conseqüências inesperadas.

Realizações

Sistema bancário mais seguro. Graças às defesas reforçadas para o capital, um enfoque mais responsável dos balanços e da gestão da liquidez, os bancos não representam mais um risco sistêmico importante em muitos países avançados, especialmente nos Estados Unidos. O que não significa que todos os países e todos os bancos estão seguros. Mas o sistema como um todo não é mais o tendão de Aquiles das economias de mercado.

Um sistema de pagamentos e compensação mais robusto. O fortalecimento do sistema bancário foi parte de um esforço mais amplo, e bem sucedido, para minimizar o risco de “paradas bruscas” nos mecanismos de compensação e de pagamentos,  que são cruciais no âmbito da economia global.  – ou seja, a perda de confiança nos contrapartes que afeta até mesmo as transações financeiras mais básicas, paralisando as transações econômicas.

Uma cooperação internacional mais inteligente. A crise destacou a importância de estratégias mais sólidas não só para administrar uma crise, mas também para preveni-la. No topo da lista estão medidas como a maior harmonização da regulamentação e da supervisão, um amplo, e mais pontual,  compartilhamento de informações e um foco maior no monitoramento de bancos atuantes internacionalmente. Os países, individualmente, têm percepções de como melhorar seus controles macro e micro- econômicos.

Fracassos

Crescimento inclusivo ainda escorregadio. Vai demorar muito para os responsáveis políticos nos países avançados entenderem que a grande recessão provocada pela crise financeira tinha componentes estruturais e seculares importantes. Ideias excessivamente cíclicas inicialmente impediram a elaboração e a implementação de medidas necessárias para gerar um crescimento forte que também fosse inclusivo. Quando essas idéias evoluíram a abertura política estreitou. Mesmo hoje muitos países avançados ainda precisam adotar medidas para impulsionar um crescimento duradouro e conter a pressão que impede uma potencial expansão.

Incentivos internos desalinhados. A julgar pelos incidentes que têm provocado manchetes,  de comportamentos e processos inadequados nos últimos anos, os incentivos e sanções em vigor  no caso de algumas instituições financeiras têm de funcionar. Essas instituições ainda assumem alguns riscos impróprios e outras adotam condutas inadequadas, como também privilegiam excessivamente o curto prazo nos pagamentos de remunerações e mostram uma tolerância administrativa no tocante a ações que estão muito próximas da linha que separa atividades permissíveis das não permissíveis.

Escassez de balancetes responsáveis. Colocar títulos impugnados e corrompidos em balancetes separados era a chave para conter grandes distúrbios financeiros. Mas isto envolvia uma confiança nos grandes balanços públicos, embora sua utilização tenha deparado cada vez mais com uma reação política e social. As preocupações com os efeitos da distribuição, incluindo o favorecimento do lucro corporativo em detrimento dos salários, de Wall Street em detrimento da Main Street, e dos ricos em detrimento dos pobres, aumentaram a já reduzida disponibilidade desses instrumentos para serem usados em crises futuras.

Consequências inesperadas

O grande ficou maior e o menor mais complexo. Apesar dos avanços quanto às medidas a adotar quando um banco vai à falência, especialmente se for um grande banco, a estrutura de mercado que surgiu depois da crise financeira envolve instituições muito maiores, particularmente as sediadas nos Estados Unidos. O mesmo fenômeno pode ser observado no campo da gestão de ativos, que surgiu à custa de um gradual esvaziamento das companhias financeiras de meio porte. Por outro lado, na outra extremidade, das pequenas instituições, observamos a proliferação de atividades de tecnologia financeira, que, na maior parte, são testadas durante um ciclo recessivo.

O risco se transformou e migrou para áreas sub-regulamentadas. Esta mudança da estrutura do mercado está ligada a outro fenômeno – a transformação e a migração do risco para não bancos. Esta dinâmica é particularmente notável na medida em que,  beneficiando-se de anos de ampla liquidez global e uma volatilidade financeira inusitadamente baixa, surgiu uma promessa excessiva de provisão de liquidez e uma também excessiva venda de volatilidade nas suas várias formas. E parte disto se incorporou na estrutura do sistema através da proliferação do produto, incluindo os Echange Traded Funds, ou ETF – (são fundos de investimentos negociados na Bolsa similares como se fossem uma ação), que implicitamente prometem liquidez instantânea em segmentos do mercado estruturalmente sujeitos a repetidos bolsões de iliquidez.

Flexibilidade política reduzida. Há uma limitação de títulos negociáveis com alta liquidez e considerados dinheiro vivo em caso de uma crise porque os juros ainda estão na faixa de zero ou mais baixo em grande parte do mundo avançado fora dos Estados Unidos, e os balanços dos bancos centrais ainda são grandes, e os patamares de dívida estão muito mais altos do que antes da crise financeira global. Isto indica que, mesmo havendo vontade política suficiente, a capacidade para gerir uma crise e uma recuperação pode ter diminuído em relação a dez anos atrás.

Todos aqueles que, como nós, enfrentaram a crise financeira global em primeira mão, administrando ativos e títulos no setor privado durante a turbulência do mercado, observaram que a imprevisibilidade sem precedentes fez com que o impensável se tornasse realidade com uma inquietante regularidade. Reconhecemos o quanto foi feito para evitar que uma situação calamitosa afete gravemente as gerações atuais e futuras, e também as medidas importantes adotadas para reduzir a probabilidade e a severidade de outra crise global.

Mas isto não significa que está tudo bem. São necessárias novas medidas, da parte do setor público e também do privado para enfrentar desafios antigos que mereceram pouca atenção após a crise, e para compreender e solucionar algumas das conseqüências inesperadas de 10 anos de gestão e prevenção da crise. Felizmente hoje sabemos muito mais a respeito. O maior desafio é fazer com que o processo político elimine sua importância num momento em que não há uma crise vigente ou em vista no mundo avançado./Tradução de Terezinha Martino

* El-Erian é colunista da página de Opinião da Bloomberg. Também é conselheiro economic chefe na Allianz SE, empresa matriz da Pimco, onde atuou como CEO e co-CIO. Escreveu livros como "The Only Game in Town" and "When Markets Collide."

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