Nove são detidos em protesto contra pacote de austeridade no Rio

PMs usaram o 2º andar de igreja para lançar bombas nos manifestantes; confronto foi o mais longo desde o início dos atos contra plano de corte de gastos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2016 | 19h29

RIO - O primeiro dia de votação do pacote de austeridade do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) levou uma batalha campal às ruas do centro da cidade nesta terça-feira, 6. O gás lacrimogêneo se espalhou por vários quarteirões, lojas foram fechadas no meio da tarde e escritórios liberaram os funcionários mais cedo, após o confronto entre policiais e manifestantes. Em Brasília para uma reunião na Câmara dos Deputados, Pezão afirmou que uma minoria aproveita para "fazer baderna" nos protestos.

Sindicatos de servidores públicos estaduais começaram o protesto contra o pacote em frente à sede da Alerj, por volta das 10 horas. Protestos têm ocorrido desde o anúncio do pacote de austeridade pelo governo fluminense, no início de novembro, mas ação da Polícia Militar ontem foi mais forte. A seção do Rio da Ordem dos Advogados do Brasil condenou a “violência desmedida” da PM.

O confronto começou por volta de 13h30 e durou até o início da noite. O clima se acirrou quando, do carro de som, manifestantes pediram a ocupação da casa – como em 8 de novembro

Policiais reagiram com bombas de gás e balas de borracha. Agentes do Batalhão de Choque usaram a Igreja São José, ao lado da Alerj, para lançar bombas – a Arquidiocese do Rio disse que vai apurar como os policiais entraram. A PM usou ainda um veículo blindado, conhecido como “caveirão”. A Polícia Montada e a Força Nacional de Segurança também atuaram.

“É uma covardia, uma reação completamente desproporcional. Os policiais também são servidores e agem assim. Eles estão protegidos por escudos e máscaras, nós mostramos a cara”, disse a agente penitenciária Zenilda Maria Andrade, de 59 anos, servidora há 27. 

Os conflitos chegaram à Avenida Rio Branco, por onde passa o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), construído para os Jogos Olímpicos, e cuja circulação foi suspensa à tarde. 

Os manifestantes atiraram pedras portuguesas, retiradas do calçamento, e fizeram fogueiras com lixo, papelão e placas de madeira usadas no isolamento de obras. Um banheiro químico foi queimado. 

A PM informou que 12 policiais ficaram feridos. Nove pessoas foram detidas, incluindo dois adolescentes, conforme a Comissão de Direitos Humanos da Alerj. O presidente do Sindicato dos Servidores do Sistema Penal, Gutemberg de Oliveira, foi atingido no olho direito e liberado após ser atendido no Hospital Municipal Souza Aguiar. Outros manifestantes foram atendidos por bombeiros, por causa do gás. 

Votação. Dentro da Alerj, as votações seguiram alheias aos confrontos, embora o gás tenha entrado no plenário. Parlamentares chegaram a usar máscaras. A deputada estadual Tia Ju (PRB) passou mal, foi atendida e passa bem, segundo a assessoria de imprensa do Legislativo. 

Estavam em pauta duas resoluções do Legislativo, para cortar gastos com a casa, e dois projetos de Pezão. As propostas do pacote eram menos polêmicas: um adota notificações eletrônicas em processos da Fazenda; o outro reduz em 30% o salário do governador e do alto escalão. As quatro matérias foram aprovadas. A previsão da Alerj é terminar de votar tudo até o dia 12, e não mais no dia 15.

À noite, em Brasília, Pezão afirmou que as propostas precisam ser enfrentadas. “São medidas duras”, disse. “É o sacrifício que a gente está pedindo a todos. O Executivo cortou na própria carne.” Para ele, o protesto foi marcado por uma minoria que se aproveita da discussão para “fazer baderna”. /COLABORARAM VINICIUS NEDER, CONSTANÇA REZENDE E DAIENE CARDOSO

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