Novo afrouxamento
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Novo afrouxamento

A inflação veio acima do esperado e conteve uma queda mais intensa da Selic, como pressionava o mercado financeiro; corte foi de 0,75 ponto percentual

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2017 | 21h15

A estirada de 0,54% mostrada pelo IPCA-15 de fevereiro (veja gráfico no Confira) serviu de advertência de que não convém baixar a guarda com a inflação.

E pode ter sido a principal razão pela qual o Copom passou ao largo das pressões de setores do mercado financeiro por um corte de 1 ponto porcentual nos juros básicos (Selic) em vez do 0,75 ponto porcentual que acabou prevalecendo.

O IPCA-15 é o mesmo medidor de inflação conhecido por Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com a diferença de que calcula a variação de preços no período de 30 dias compreendido entre o dia 15 de um mês e o dia 15 do mês seguinte, e não entre dois meses completos.

Esta é a fase do ano em que se concentram os reajustes de preços administrados, ou mesmo de preços livres, como tarifas da condução urbana, telefone e anuidades escolares. É o que explica  o salto de 5,17% em educação, de 0,66% nos transportes e de 0,84% nas tarifas de comunicações. Por causa deste cenário, esse 0,54% mostrado pelo IPCA-15 veio mais alto do que as projeções do mercado para todo o mês (0,48%).

A maior concentração de reajustes, comum no início de cada ano mas, desta vez, em proporção menor do que a dos anos anteriores, é a principal razão pela qual não se deve rever a expectativa benigna de que a inflação deste ano convirja para o centro da meta (4,5%) ou até abaixo disso, como aponta o último levantamento feito pela Pesquisa Focus (4,43%).

A inflação mais alta em fevereiro deverá contribuir para segurar as pressões para que o Conselho Monetário Nacional deva reduzir para 4,0% a meta de inflação de 2019. Meta de inflação mais baixa exige trabalhar com um volume de moeda mais apertado e, portanto, juros mais altos do que os que seriam necessários para cumprir uma meta mais alta. Em todo o caso, ainda há tempo para amadurecer uma decisão sobre esse tema, o que apenas deve acontecer em junho deste ano.

O corte dos juros básicos foi o quarto consecutivo. Em outubro, quando houve o primeiro corte, a Selic estava a 14,25% ao ano e agora está a 12,25%.

O comunicado do Copom divulgado após a reunião desta quarta-feira limitou-se a atualizar as avaliações do comunicado da reunião anterior. A principal informação é a de que “o comportamento da inflação é favorável; o processo de desinflação é mais definido e indica desinflação nos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária”. Enfim, se continuar assim, o corte dos juros continuará.

E, mais uma vez, o Banco Central avisa que a política fiscal tem de ajudar. Sem equilíbrio das contas públicas e a aprovação das reformas, o processo de desinflação ficará prejudicado. Mas não deu nenhuma indicação de que poderia aumentar o ritmo dos cortes anteriores.

Duas consequências práticas: (1) mais cedo ou mais tarde, os juros mais baixos chegarão à ponta do crédito. E a espera por juros mais baixos pode segurar a decisão de aumentar a tomada de financiamentos. E (2) juros mais baixos reforçam a opção dos aplicadores de recursos por segmentos de mais risco, principalmente ações.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução do IPCA-15.

Veio mais

A arrecadação de janeiro apresentou aumento real, de 0,79% sobre janeiro de 2016. Esse aumento não apareceu nos impostos que mais refletem o comportamento da atividade produtiva, não necessariamente por paralisia nessa área. A razão pode ser o atraso no recolhimento de impostos pelas empresas.

Erramos

Erro na Coluna de domingo: não é o Êxodo que fala do bode expiatório; é o livro do Levítico.

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