Marcello Casal Jr./Agência Brasil
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Celso Ming
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Novo corte dos juros. E pode vir mais

A percepção é de que a recuperação econômica será lenta, incentivando o Banco Central a irrigar mais dinheiro no País

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 19h23

O corte dos juros básicos (Selic) para 2,25% ao ano decidido na quarta-feira já havia sido anunciado oficialmente na reunião anterior do Copom, portanto já era esperado e estava no preço, como se diz no jargão do mercado financeiro.

A novidade é que este pode não ser o último da atual temporada de redução de juros, que começou em julho do ano passado, como afirmava o documento do Banco Central da reunião de maio. O comunicado de quarta-feira admite nova redução dos juros, mas adverte que “eventual ajuste futuro no atual grau de estímulo monetário será residual”. Não ficou dito quando será feito o ajuste nem em que proporção. 

A inflação tem tudo para continuar em queda. Como está no Boletim Focus, nada menos que 116 informantes consultados semanalmente pelo Banco Central projetam para todo este ano uma inflação inédita de apenas 1,6%, abaixo do piso da meta de 2,5% (4,0% menos da margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual). Para a decisão dos juros, o Copom reduziu sua projeção de inflação de 2,3% para 1,9%.

A percepção majoritária hoje é a de que, quando começar, a recuperação da economia será lenta, o que aponta para um consumo muito contido e, portanto, para uma baixa pressão de demanda, fatores que tendem a segurar a inflação. Daí por que o Banco Central se verá na obrigação de irrigar ainda mais a economia, para ver se pega no tranco.

Convém aqui fazer uma observação para aqueles que não têm tanta intimidade com o tema. Os economistas às vezes passam a impressão de que o Banco Central conta com uma espécie de máquina que manipula diretamente os juros: quando quer juros mais baixos aciona a máquina para achatá-los; quando quer o contrário, alivia a máquina dos juros.

Os juros são apenas o efeito da ação do Banco Central. A política consiste no manuseio do volume de moeda na economia. Pelo mesmo mecanismo da lei da oferta e da procura, quando aumenta a demanda por dinheiro, os juros sobem porque são o preço do dinheiro. Quando aumenta a oferta de dinheiro e a demanda não acompanha, os juros mergulham. Quando os juros caem, como agora, o Banco Central está injetando mais moeda, em proporção tal que a Selic se estabilizará em 2,25% ao ano.

Desta vez, o maior problema do Banco Central é o de que boa parcela dos recursos que estão no sistema não circula como em tempos normais, porque a atividade econômica está semiparalisada. E o crédito, que seria uma das correias de transmissão da política monetária, também enfrenta o alto endividamento das empresas e das pessoas físicas, num ambiente de baixo ou nenhum faturamento pelas empresas e de perda de salário ou de renda pelas pessoas físicas.

Esse empoçamento de recursos não é fenômeno exclusivamente brasileiro. Nos países avançados também há uma abundância nunca vista de moeda semiparalisada. Para enfrentar a crise, os governos dos países ocidentais já injetaram cerca de US$ 10 trilhões e os bancos centrais, outros US$ 6 trilhões, conforme informou dia 15 ao diário espanhol El País a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva.

A principal razão pela qual em tantos países os juros hoje são negativos ou estão ao redor de zero por cento ao ano é a de que não há muito o que se possa fazer com o dinheiro. É oferta demais e pouca opção de utilização de maneira a dar um bom retorno. Essa é a principal razão pela qual as bolsas estão galopando.

Em toda a parte e também aqui, o motor da política monetária vem acusando baixa eficácia. Deixou de ser o instrumento mais adequado para propulsar a economia. Daí por que cada vez mais gente se pergunta até que ponto cabe aumentar o volume de moeda se o sistema já não responde.

O momento recomenda a utilização da política fiscal não somente para socorrer empresas, mas, principalmente, para acionar projetos de investimento em infraestrutura que criem empregos e renda que, por sua vez, alavanquem o consumo e o setor produtivo. 

O problema é que, mais aqui no Brasil do que lá fora, o motor fiscal também está batendo os pinos e queimando óleo, não só pela pandemia, que derrubou a arrecadação e catapultou as despesas públicas, mas, também, pela baixa confiança inspirada pelo governo, que inibe o investimento privado.

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