Novo governo enfrentará pesadas dívidas das elétricas

O próximo governo terá de ficar atento a um possível agravamento da situação financeira das companhias energéticas, ainda no primeiro ano de mandato. Um estudo realizado pelo professor Maurício Tolmasquim, coordenador do Centro de Economia Energética e Ambiental da COPPE/UFRJ, revela que das dívidas totalizadas em R$ 32,7 bilhões, entre 21 concessionárias de distribuição de energia nos balanços do primeiro semestre, 31% deverão vencer até 2003.Além disso, segundo o estudo, R$ 22,4 bilhões do montante são compromissos em dólar. "É um fato assustador, que causa grande preocupação", diz Tolmasquim, um dos principais críticos das iniciativas adotadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso no setor elétrico. "O mais alarmante é que esses números se referem ao primeiro semestre deste ano, antes, portanto, da crise cambial atual, que deve ter ampliado significativamente esses valores", acrescentou.O estudo, realizado em conjunto com dois doutorandos da COPPE, deverá ser transformado em livro sobre as estratégias adotadas pelas companhias de energia elétrica desde as privatizações. O professor considera que o endividamento em dólar é maior nas companhias cujo controle está em poder de grupos estrangeiros. "Trata-se de um mecanismo de transferência de recursos para o exterior, por meio de endividamentos junto à matriz e aos bancos que com ela têm negócios", explica Tolmasquim.PressãoEle acrescenta que o quadro do endividamento não deve ser considerado para efeito de novos reajustes tarifários dentro dos processos de revisões ordinárias, que fazem parte dos contratos de concessão das distribuidoras privatizadas e deverão ser deflagrados no próximo ano. "Há uma pressão grande das companhias distribuidoras para elevar as tarifas, levando-se em consideração a situação econômico-financeira deste segmento", lembra ele. O professor acrescentou que as distribuidoras têm exibido índices negativos de retorno aos investimentos, com a persistência do consumo abaixo dos níveis normais aliada ao custo de duas dívidas. "Mas o endividamento faz parte da estratégia da própria companhia e não pode ser incluído entre os custos que serão repassados para o consumidor", acrescenta. "Seria insustentável repassar isso para as tarifas ou adotar um Proer para as companhias do setor, como sugeriram alguns."Jogo de cinturaTolmasquim destaca ainda que o próximo governo, seja qual for o presidente eleito, deverá ter muito jogo de cintura para lidar com a situação deste setor. "As companhias energéticas têm feito ameaças veladas de sair do País", afirma. "Seria péssimo para o próximo governo iniciar seu mandato nessa situação, que pode trazer problemas para a imagem do País", lembra. Existe, porém, um atenuante, diz Tolmasquim: "Sinto que há grupos nacionais se preparando para assumir essas posições, se necessário." Segundo ele, "muitos têm falado sobre a possibilidade de associações de empresas com fundos de pensão para investimentos nessa área". O professor acrescentou que, com um câmbio flutuante e uma crise de desvalorização do real, tornou-se difícil para as companhias estrangeiras obterem a remuneração que desejam em dólar. "Setorialmente, seria uma boa alternativa a assunção das posições por empresas nacionais, que são menos atingidas pela alta do dólar. Mas, em termos macroeconômicos, poderia fornecer um sinal externo desfavorável".

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