Novo governo português enfrentará crise econômica

O novo governo português, eleito no domingo, terá uma série de desafios pela frente. A Associação Empresarial de Portugal (AEP) alerta para uma crise que pode custar muito caro ao país e pede reformas com urgência. Os principais problemas são inflação alta, baixa competitividade, câmbio fixo, Estado ineficiente e alta dependência de investimentos da União Européia (UE), que mingüarão nos próximos anos com a inclusão de vários países do Leste Europeu. Em muitos pontos, a crise se assemelha à argentina antes da desvalorização. E a AEP alerta: ?essas dificuldades ainda nao provocaram instabilidade econômica, social e política porque a associação ao euro lhe serve como âncora.?Desde a entrada na UE em 1986, a economia portuguesa cresceu uma média de 3,6% ao ano até 2000, segundo dados do Banco de Portugal, principalmente impulsionada pelos baixos salários. O salário mínimo em Portugal de ? 345 (cerca de R$ 715) é muito superior ao de outros países em desenvolvimento com os quais muitos de seus produtos competem.Mas o modelo parece ter-se esgotado, já que o desemprego é baixíssimo (4%), mas o crescimento econômico está abaixo da média dos parceiros da União Européia. EM 2001, o PIB aumentou 1,7% e prevê-se uma taxa de 1,2% para este ano. E, segundo os dados da OCDE, organização dos países mais desenvolvidos do mundo, a produtividade também cresce abaixo da média da UE. Ou seja, a mão-de-obra barata de Portugal está toda empregada e a economia está desacelerando, pois não há uma expansão em setores mais dinâmicos.Contas públicas desequilibradasAs finanças também vão mal. A inflação em euro foi de 4,4% em 2001. Com a moeda única européia, é impossível realizar uma desvalorização para compensar a alta nos preços e nos salários. As taxas de juros também são fixadas pelo Banco Central Europeu (BCE), e não podem ser alteradas pelos governos nacionais. Ou seja, a economia portuguesa perdeu competitividade em relação aos seus principais parceiros comerciais e o governo tem poucos mecanismos para agir. Uma situação parecida com a que viveu a Argentina nos últimos anos do câmbio fixo.Agora, só resta ao governo controlar os gastos e as receitas para segurar a inflação. Mas as contas públicas apresentam déficit de 2,5%. Para escapar de uma advertência oficial da UE, o governo se comprometeu a zerar o saldo em 2004. Segundo Pedro Matos Branco, economista sênior do Banco Espírito Santo, ?o maior desafio é aumentar a competitividade com as restrições impostas pela adoção do euro e o desequilíbrio das contas públicas?.A AEP pede reformas do Estado para aumentar a qualidade dos serviços públicos sem elevar as despesas. E exige uma administração mais responsável das contas do governo. Uma das opções é reduzir fortemente os gastos e provocar uma recessão, até que preços e salários caiam. Mas um mercado de trabalho altamente regulamentado pode mostrar resistência.Por outro lado, fala-se em um pacto social com cortes nos salários e nos impostos para impulsionar investimentos. O governo ainda cortaria gastos, mas a receita aumentaria com um crescimento econômico mais vigoroso. Investimentos estrangeiros num ambiente mais competitivo favoreceriam o ajuste. Essa solução, porém, depende da boa vontade das partes envolvidas.Déficit externo elevadoOutro problema que deriva da falta de competitividade é a dependência de recursos externos. O saldo das contas externas apresenta um déficit de cerca de 9% do PIB. Mas conseguir divisas para cobrir esse rombo será cada vez mais difícil. Se a concorrência de países emergentes é cada vez maior, e a entrada de novos países do Leste Europeu na UE complica ainda mais a situação. Provavelmente a partir de 2004, subsídios, incentivos, investimentos e participação nos fundos de desenvolvimento terão de ser repartidos com cerca de dez países mais pobres, como Polônia, República Checa e Hungria. Daí a urgência das reformas.Segundo a AEP, o Estado está atrasado nas reformas e precisa ganhar eficiência. Melhor gestão das contas públicas, menos burocracia, mais investimentos em educação e tecnologia estão na ordem do dia. O ideal, para os empresários, é aumentar a competitividade por ganhos de produtividade, com expansão de empresas competitivas globalizadas. Ao governo, caberia proporcionar um ambiente significativamente mais favorável, e há pressa.

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