Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Novo registro de compras com cartão estreia com problema e gera apreensão entre lojistas

Comerciantes tiveram dificuldade para acessar dados dos pagamentos recebidos após nova regra do Banco Central criar registro de recebíveis para ampliar o crédito ao varejo; em alguns casos, os valores 'sumiram'

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 18h05

A nova regra do Banco Central (BC) para o registro de recebíveis de cartão no Brasil estreou nesta segunda-feira, 7,  em meio a problemas operacionais, segundo apurou o Estadão/Broadcast. Com a implementação do novo sistema, lojistas tiveram dificuldade para acessar os dados dos pagamentos recebidos de consumidores, ficando com a sensação de que valores de vendas feitas no dia de hoje "sumiram".

A instabilidade teria afetado empresas de maquininhas, bancos, fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), além de, claro, as registradoras de recebíveis, responsáveis por fazer valer a nova regra do Banco Central. Os problemas se concentraram no período da manhã, de acordo com fontes, que concordaram em falar na condição de anonimato.

Ao terem dificuldades para identificar pagamentos de vendas com cartão realizadas hoje, lojistas acionaram as empresas de maquininhas para se queixar. Em um dos atendimentos, obtido pelo Estadão/Broadcast, o operador da credenciadora afirma que o sistema de antecipação passa por "instabilidade", sem nem o lojista ter dito qual era a sua demanda. Houve quem transferiu o problema ao Banco Central.

A Rede, empresa de maquininhas do Itaú Unibanco, confirmou a apuração do Estadão/Broadcast de que, em decorrência da implementação nesta segunda-feira do novo sistema de registro de recebíveis, problemas operacionais estão afetando a antecipação de recebíveis de cartões de crédito em todo o sistema financeiro.

"O Itaú Unibanco e a Rede conseguiram operacionalizar a liquidação dos pagamentos de crédito e débito a todos os seus clientes. Todas as instituições estão trabalhando para corrigir os problemas e restabelecer o sistema o mais rápido possível", informou a empresa.

No início da tarde, conforme fontes, o novo sistema de registro de recebíveis já teria retomado a normalidade. Procurado pelo Estadão/Broadcast, o Banco Central também confirmou que o processo "já foi normalizado".

Depois de três adiamentos, a nova regra para registro de recebíveis de cartão entrou em vigor hoje, dia 7. A expectativa é de que haja, a partir de agora, uma maior concorrência no setor de meios de pagamentos, irrigando a oferta de crédito junto a pequenas e médias empresas, a custos mais baixos.

Nova regra

Com a nova regra, todos os valores dos recebíveis das transações com cartões têm de ser registrados em câmaras registradoras, que serão responsáveis por atestar a existência dos mesmos. Os recebíveis são os pagamentos que os lojistas recebem nas vendas em que os clientes optam pelas modalidades de crédito ou débito e são usados como garantia por essas empresas para a obtenção de crédito.

Existem hoje três registradoras autorizadas a fazer o registro dos recebíveis de cartão. São elas: Central de Recebíveis (Cerc), Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) e TAG Tecnologia. Devido a dificuldades na operacionalização do sistema, foram três adiamentos e quatro datas de implantação da nova regra de recebíveis no Brasil. O grande dia chegou, mas também foi marcado por problemas técnicos.

Procurada, a CIP afirmou que "por ser uma implementação de grande volume e que envolve muitos participantes, era possível ocorrer atrasos durante a implantação do sistema neste primeiro dia de processamento". Como exemplo, afirmou que, ontem, dia 06, houve atraso no processo de migração de contratos do legado, principalmente para acomodar pedido da CERC no ambiente de interoperabilidade.

"Diante desta questão, o Banco Central, a CERC e TAG estavam cientes de que poderia haver postergações no horário de abertura e operação dos sistemas, que infelizmente ocorreram para acomodar ajustes de diversos participantes deste complexo ambiente", disse a CIP, ao Broadcast.

Um comunicado emitido pela Cerc a parceiros que tentaram acessar sua plataforma, e que foi obtido pelo Estadão/Broadcast diz que "a janela de negociação das Registradoras não foi aberta em função de um novo pedido de adiamento por parte da CIP, sem previsão de retorno". "Em virtude dos sucessivos adiamentos por parte da CIP, o nosso envio de agendas foi impactado, com possíveis atrasos na disponibilização", diz o texto.

A TAG reiterou que "pela manhã, as (três) casas optaram por estender a janela de recebimento de agendas". Segundo a registradora, a medida visava precaução, em se tratando do primeiro dia de operação sob o novo regime. A partir dali, segundo a TAG, a operação transcorreu conforme o esperado, "com interação frequente entre as três registradoras e o BC".

Procurada, a Cerc afirma que seu sistema está operando desde o dia 17 de maio e que a CIP, por questões internas, não conseguiu importar os seus contratos. "Estamos prontos desde fevereiro. A CIP, porém, tem razão quando diz que esse é um processo complexo", afirma Marcelo Maziero, fundador da Cerc.

Procurado, o PagSeguro, do Uol, afirmou que não houve impacto para os seus clientes. “É um projeto grande e complexo, envolvendo muitas empresas, e podem ocorrer problemas na fase inicial. O PagSeguro está implementando as mudanças de maneira bem-sucedida e não houve impacto para os nossos clientes.”

As empresas de maquininhas Cielo, de Bradesco e Banco do Brasil, e Stone não se pronunciaram sobre o assunto. / COLABORARAM MARCELO MOTA E TALITA NASCIMENTO

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