Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Novo rumo para o cruzamento industrial

Após erros e acertos, técnica para produzir animais precoces e com boa carne tem tudo para se efetivar no País

Leandro Costa, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2011 | 00h00

Após alguns tropeços, adaptações e muita pesquisa, o cruzamento industrial parece finalmente ter encontrado um caminho viável para crescer no País. A prática de cruzar um bovino de raça zebuína (Bos indicus) com um de raça taurina (Bos taurus), para promover um "choque de sangue" - no qual os animais resultantes ganham a rusticidade zebuína e a precocidade, qualidade e maciez de carne das raças europeias - atraiu muitos criadores, em vários momentos, a partir da década de 1940.

Entretanto, a dificuldade de as raças europeias se adaptarem aos trópicos e à criação a pasto, com altas temperaturas e pragas como o carrapato, desanimou muita gente, sobretudo criadores que investiram no Centro-Oeste, durante o boom do cruzamento industrial na década de 1990. Os touros europeus sofriam com o calor, que diminuía sua vida útil e dificultava a monta a campo, nas fêmeas zebuínas.

Na época, analistas traçavam perspectivas otimistas em relação ao cruzamento industrial, apostando que já em 2012 a participação dos animais dele resultantes superaria os 30% no rebanho de corte brasileiro. Hoje, entretanto, os zebuínos, principalmente nelores e anelorados, reinam absolutos, com 80% do total nacional. "A expectativa agora é a de que os 30% sejam alcançados somente em 2020", diz o diretor-técnico da Informa Economics FNP, José Vicente Ferraz.

Feicorte. De todo modo, numa visita à Feira Internacional da Cadeia Produtiva de Carne (Feicorte), que se encerrou na sexta-feira, em São Paulo (SP), foi possível constatar que criadores de raças europeias continuam marcando posição e estão mais experientes no assunto. O crescimento do uso da inseminação artificial é o principal fator nos quais se apoiam as expectativas de que o cruzamento industrial pode contribuir expressivamente para o aumento da produção de carne.

É simples: a inseminação artificial elimina a necessidade de monta a campo, tão sofrida para as raças europeias, em meio ao calor dos trópicos. Conforme a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), entre 2006 e 2010, o volume de vendas de doses de sêmen deu um salto de 6,735 milhões para 10,41 milhões de doses, passando a corresponder a 9% do total de vacas prenhes no País.

Mais lições. Mas outras lições foram tiradas na história do cruzamento industrial no País, segundo o pesquisador Kepler Euclides Filho, da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS). Conforme ele, "hoje os cruzamentos ocorrem de forma muito mais estruturada, com seleção focada nas demandas do mercado", diz. "Houve época, por exemplo, em que só se pensava no tamanho da carcaça e as raças continentais foram privilegiadas, por serem grandes e atingirem peso de abate rápido. O problema é que a carne não tinha gordura suficiente e os frigoríficos começaram a pagar menos pelo animal cruzado", explica. A partir daí, raças de menor porte, principalmente as britânicas, passaram a ser as preferidas para o cruzamento industrial, porque ainda novas atingiam as 16 arrobas com bom padrão de gordura.

Depois, até mesmo para as raças grandes criou-se tecnologia de manejo e alimentação para conseguir um animal mais bem acabado. "Ou passou-se a abater esses animais um pouco mais tardiamente, para que acumulassem a gordura corporal requerida pela indústria."

Atualmente, a tendência de manutenção do preço da arroba bovina em patamares altos nos próximos anos pode ajudar a consolidar os cruzamentos industriais, na opinião da diretora-geral Maria Lúcia Pereira Lima, do Instituto de Zootecnia (IZ), em Nova Odessa (SP). "A baixa dos preços da arroba a partir de 1995 desestimulou a prática do cruzamento industrial", diz. "Os pecuaristas preferiram manter o gado a pasto, mais rústico, com perda de produtividade mas menor custo de produção." Por fim, os especialistas citam ainda a orientação dos frigoríficos cada vez mais para a qualidade da carne como um ponto a favor dos cruzamentos. "Os frigoríficos pagam bônus por uma carcaça bem acabada, mais facilmente obtida via cruzamento industrial", finaliza Euclides Filho.

PARA ENTENDER

Cruzamento industrial

O cruzamento industrial consiste na mistura de gado zebuíno (Bos indicus) com gado taurino (Bos taurus) para a obtenção de um animal híbrido, com as principais qualidades de cada raça. O animal fruto deste cruzamento é chamado de F1 e comumente possui a rusticidade do zebuíno a condições de clima e pastagem e rapidez no ganho de peso, qualidade marcante do gado taurino. Além de obter animais precoces (o bovino chega ao peso de abate por volta de 15 meses), esses cruzamentos transferem para os F1 a capacidade de produzir carne de qualidade, com maciez e bom acabamento de gordura. O primeiro cruzamento industrial de que se tem notícia no País é da década de 1940. De lá para cá, porém, a adaptação das raças europeias ao clima tropical foi um dos principais obstáculos para a popularização da técnica.

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