Novo subsídio agrícola da UE causa reação mundial

Europeus anunciam socorro aos produtores de leite e manteiga para compensar queda do preço em 2008

Jamil Chade, Genebra, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2009 | 00h00

A União Europeia (UE) decidiu ontem voltar a subsidiar os seus produtores agrícolas. Brasil e outros governos já estudam formas de reagir. O novo governo americano lamentou a iniciativa. Para a Oxfam, organização não governamental contra a pobreza, a UE pode ter dado início a uma verdadeira guerra comercial, em meio a maior recessão mundial em décadas.A decisão foi dar subsídios aos produtores de manteiga e leite. O caso pode parecer pontual, mas a diplomacia brasileira e de outros países já vê a situação como um sinal negativo. O Brasil não exporta nenhum dos dois produtos. Mas, para o Itamaraty, a medida mostra que novas distorções podem surgir no mercado internacional diante da crise. "O caso é emblemático", alertou um diplomata brasileiro. Produtores do Mercosul ainda temem que o leite subsidiado acabe entrando com um preço mais competitivo no mercado da região, diante dos subsídios.A UE vai, artificialmente, manter os preços altos desses dois produtos nos próximos meses. Para isso, os 27 países europeus vão comprar 139 mil toneladas de produtos lácteos, com custos de US$ 327 milhões. Entre março e agosto, a UE comprará 30 mil toneladas de manteiga e 109 mil toneladas de leite em pó. Tudo para ajudar a indústria europeia.O que mais preocupa é que a UE abandonou compromissos internacionais. Em 2007, a UE decidiu acabar com esses subsídios a exportação e, em 2008, a Comissão Europeia (CE) chegou a sugerir a sua eliminação, mas França e Alemanha se opuseram. Em Bruxelas, diplomatas tentaram amenizar as críticas, garantindo que a medida é temporária, para compensar a queda de 33% nos preços do leite em 2008.Mas críticos alertam que as velhas montanhas de manteiga vão ser refeitas, com produtores fabricando muito mais que a demanda e vendas garantidas pelo governo, que as destruirá. Os preços serão inflados artificialmente e afetam a concorrência externa. "Não vamos voltar aos velhos dias de ter montanhas de manteiga e lagos de leite. Essa é uma situação temporária de crise no mercado", afirmou a CE.Em Genebra, os países exportadores de produtos agrícolas, conhecidos como Grupo de Cairns, estuda tomar medidas e publicar uma queixa formal. O Brasil, segundo o Itamaraty, deve fazer parte da declaração.Na Organização Mundial do Comércio (OMC), a medida foi vista como sinal negativo. A pedido do Brasil, a entidade quer acompanhar todas as decisões comerciais durante a crise para tentar evitar nova onda de protecionismo. O chanceler Celso Amorim ainda tratará do tema no Fórum Econômico de Davos, na semana que vem.Pascal Lamy, diretor da OMC, vem alertando que um dos perigos da crise é a volta de barreiras. Nos anos 30, após a quebra das bolsas de 1929, o governo americano aumentou as tarifas de importação para cerca de 10 mil produtos. O resultado, segundo Lamy, foi um aprofundamento da crise.

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