Marcelo Min/Estadão
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Novos reajustes de energia podem elevar IPCA de 2021 em até 1 ponto porcentual

Cálculos do governo sugerem que será necessário elevar a taxa de R$ 9,49 a cada 100 quilowatts-hora, para um nível entre R$ 15 e R$ 20 por causa da crise; analistas projetam inflação de até 7,8% para este ano

Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 05h00

Os novos reajustes da bandeira vermelha nível 2 estudados pelo governo têm o potencial de elevar em até 1 ponto porcentual a inflação de 2021, segundo cálculos de economistas do mercado. O efeito tende a ser desinflacionário para 2022, embora uma eventual continuidade da crise hídrica no País imponha riscos ao cenário.

Cálculos do governo revelados pelo Estadão/Broadcast sugerem que será necessário elevar a sobretaxa dos atuais R$ 9,49 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) para um nível entre R$ 15 e R$ 20 - ou a R$ 25 - em um cenário extremo - devido à crise hídrica no País. O cenário-base de boa parte do mercado era de aumento mais moderado, a R$ 11,50.

"Se qualquer um desses aumentos se materializar, eles teriam um efeito grande no IPCA de 2021, de 0,35 ponto porcentual a 1 ponto (em vez do 0,13 ponto que já havíamos incorporado na nossa projeção de inflação de 7,1%, considerando a discussão anterior de R$ 11,50)", escreveu o economista para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, em relatório.

A energia elétrica residencial acumula inflação de 20,09% no IPCA em 12 meses até julho, devido aos efeitos da bandeira vermelha 2 e ao reajuste médio de 7% nas contas de luz. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vai definir a bandeira de setembro nesta sexta-feira, 27.

O economista do Banco ABC Brasil, Daniel Lima calcula que um aumento da bandeira vermelha 2 a R$ 15 adicionaria 0,25 ponto porcentual ao IPCA de 2021. Caso a Aneel decida elevar a sobretaxa a R$ 20, o impacto seria de 0,62 ponto. O cenário extremo, de R$ 25, elevaria em 0,98 ponto a inflação do ano.

Lima prevê IPCA de 7,4% neste ano e de 3,8% no próximo, em um cenário-base de bandeira a R$ 11,50. O economista destaca, no entanto, que o efeito da bandeira de luz mais cara neste ano tende a ser desinflacionário em 2022, considerando uma premissa de melhora do cenário hídrico, com bandeira vermelha 1 no fim do ano que vem.

"O contexto geral é que esse aumento da bandeira vermelha 2 geraria um impacto para baixo no ano que vem", afirma. Levando em conta os efeitos diretos, o retorno para a bandeira 1 retiraria de 0,21 ponto porcentual a 0,71 ponto porcentual da inflação de 2022. Mas efeitos indiretos do aumento da energia sobre a cadeia de produção têm o potencial de mitigar o impacto baixista do ano que vem, alerta o economista.

Cenários

Alexandre Lohmann, economista da Constância Investimentos, incorporou ao cenário-base um aumento de aproximadamente 50% da sobretaxa de energia elétrica em setembro. Como resultado, a projeção de IPCA de 2021 saltou de 7,21% para 7,61%, com viés de alta. Para 2022, no entanto, a estimativa foi mantida em 4,5%, também com riscos assimétricos para cima.

"A gente não pode descartar uma crise hídrica no ano que vem, até porque nenhum instrumento do governo vai fazer essa crise acabar", afirma Lohmann, citando relatórios do Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos que apontam probabilidade de 70% de ocorrência do fenômeno La Niña entre novembro de 2021 e janeiro de 2022 como um dos vetores de preocupação.

"A gente já viu os efeitos devastadores em 2021, de seca, aumento dos preços de milho. Um segundo La Niña, mesmo que menos forte, seria uma situação grave nos preços de matérias-primas e na questão da crise hídrica", alerta o economista.

O economista da Quantitas Asset João Fernandes alterou o seu cenário-base para 2021 devido às discussões de aumentos da energia. A previsão de IPCA de 7,5% em 2021 - em um cenário de 70% de chance de bandeira vermelha 2 de R$ 11,50 e de 30% de bandeira vermelha 1 - foi elevada a 7,8%, com 100% de chance da bandeira vermelha 2 em R$ 11,50.

Para 2022, a projeção saltou de 4,0% para 4,2%, já incorporando o IPCA-15 de agosto mais pressionado do que o previsto. "Se ocorrer um reajuste para algo maior do que R$ 11,50 da bandeira, isso trará alterações relevantes para as projeções", diz Fernandes.

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