Novos ricos na mira da indústria do luxo

Novos ricos na mira da indústria do luxo

Para salvar queda nas vendas, marcas famosas apostam nos países emergentes

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

Mesmo depois de mais de um ano de vendas em queda, o mercado de luxo mundial não perdeu a pose. E nos primeiros meses de 2010, começa a retomar a trajetória ascendente. Desta vez, a fonte da recuperação não é mais o mercado tradicional dos Estados Unidos e Europa, mas os países emergentes e seus novos ricos. Na Suíça, as exportações de relógios voltaram a crescer, ainda que as rotas tenham sofrido mudanças profundas em dois anos. Para os demais produtos de luxo, o clima também é da volta da confiança.

Há uma semana, na Basileia, a maior feira de relógios e produtos de luxo do mundo acabou se transformando em um termômetro dessa recuperação. Todas as empresas reconhecem que o consumidor alvo hoje tem novos gostos e estilos. Para atender o mercado asiático - o que mais cresce hoje - empresas fizeram inovações. A ordem é apresentar desenhos mais finos e clássicos, já que a ideia de relógios esportivos não vingou na China, por exemplo. A marca Vacheron Constantin lançou o Ultra-Fine 1955. A Piaget também apresentou uma versão mais fina de seus modelos e a IWC reforçou suas linhas mais clássicas.

O esforço é válido. Afinal, no ano passado, foram os chineses que salvaram o setor do que poderia ser uma série de falências. Foi o pior resultado para a indústria de relógios da Suíça desde que os japoneses introduziram no mercado os modelos de quartzo, nos anos 70. Foram vendidos 4,4 milhões de relógios a menos, uma queda de 22% para um dos principais pilares da indústria do luxo no planeta. Nos Estados Unidos, a redução das vendas foi de 38%. Mas a queda na China foi menor, de 15%.

Em janeiro deste ano, a alta na exportação de relógios suíços para a China foi de 87% em comparação ao ano anterior. Isso permitiu que os suíços registrassem o primeiro mês de alta nas vendas desde 2008. Em fevereiro, mais uma alta, de 14,2%. A esperança é que as exportações em 2010 possam ser 8,6% superiores às de 2009. Volume insuficiente para compensar as perdas do ano passado, mas a indústria já comemora. ''Atingimos o ponto mais baixo em 2009, mas as coisas começam a se recuperar'', diz Jean-Daniel Pasche, presidente da Federação da Indústria do Relógio da Suíça. De acordo com a consultoria Bain & Co, o mercado mundial de produtos de luxo sofreu uma queda de 8%, atingindo 153 bilhões em vendas. A empresa estima que a recuperação neste ano será de apenas 1%.

As empresas, no entanto, têm um discurso mais otimista. A Swatch espera vendas recordes em 2010. Assim como a Hublot. ''Tivemos os melhores janeiro e fevereiro de nossa história'', diz Jean-Claude Biver, presidente da empresa. A Tiffany, que anunciou um crescimento de 17% nas vendas de janeiro, foi a primeira a elevar a previsão de lucros para este ano. Burberry, Hermès e a Moët Hennessey Louis Vuitton também acreditam que 2010 será melhor que o esperado.

O avanço do interesse por produtos de luxo nos países emergentes impressiona. Em 2000, a China representava apenas 0,2% de todas as exportações de relógios suíços. Hoje, 10% das vendas da Swatch Group - a maior fabricante de relógios do mundo - já são para a China. Segundo a consultoria Kepler Capital Markets, foi essa presença na China que evitou que o grupo sofresse perdas maiores em 2009.

A Kepler estima que a Rolex tenha sofrido uma queda de 25% de suas vendas em 2009, em especial diante da situação do mercado americano. A Rolex não divulga suas vendas. Mas não rejeita a tese de que os novos mercados emergentes são fundamentais. ''Contamos com o potencial do mercado de luxo no Brasil'', afirmou o gerente-geral da Rolex no País, Stephan Meili.

A Índia também está no radar das marcas de luxo. Mas elas nem sempre acertam. A Montblanc criou um modelo inspirado em Ghandi, na esperança de ganhar a atenção dos indianos. Mas a empresa foi obrigada a retirar a caneta do mercado, diante dos protestos de indianos de que Ghandi seria um símbolo de humildade, e não de luxo.

Analistas observaram o fato como uma demonstração de que as empresas de luxo do Ocidente precisam ainda ter bastante cuidado com a forma de promover suas marcas nessas novas regiões. Eles também fazem um alerta sobre os riscos de concentração do crescimento do luxo em apenas um país. Hoje, a China sozinha consome 30% dos relógios suíços.

À MODA ASIÁTICA

Volta ao clássico

Para atender o gosto do consumidor asiático, fabricantes de relógios de luxo lançaram modelos mais finos e mais tradicionais

Campeão de compras

30% dos relógios suíços já são vendidos para China

Nem tudo dá certo

Para ganhar os indianos, a Montblanc criou um modelo inspirado em Gandhi. Diante de protestos, ela retirou o produto do mercado

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