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Novos riscos globais expõem as fraturas sociais da pandemia

Não foi o coronavírus que gerou nossa desigualdade social. Mas ele a ampliou

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 04h00

Há 50 anos, o Fórum Econômico Mundial (WEF, da sigla em inglês) foi fundado. Desde então, governantes, agentes públicos e empresários do mundo todo se reúnem anualmente em Davos. A pequena cidade suíça tem seus dias de glória nos meses de janeiro, quando o mundo acompanha seu inverno frio e branco emoldurando discussões sobre o desenvolvimento econômico e social global. Este ano, como em tantos outros casos, Davos ficará vazia. Mas os debates não deixarão de acontecer. De outra forma, mas com grande ênfase.

É durante o WEF que se publica o Relatório de Riscos Globais (RRG). Já são 16 edições que anualmente busca apontar os maiores riscos e seus potenciais impactos sobre o mundo. O relatório veio a público esta semana trazendo a perspectiva de líderes públicos e privados sobre o que pode comprometer a prosperidade global em áreas como economia e meio ambiente, mas também geopolítica, questões sociais e tecnologia. Em 2021, o desafio nesse mapeamento foi maior. Afinal, não é fácil falar de riscos após o inesperado tsunami da covid-19. Não que esse risco estivesse completamente fora do radar. Mas sua ocorrência, severidade e impactos superaram as previsões do mais adverso dos cenários possíveis. 

Neste ano, o RRG identificou sete grandes riscos, classificados em ordem de probabilidade de ocorrência e de impacto. No primeiro grupo, riscos climáticos continuam se destacando, com eventos climáticos extremos, falhas nas ações de proteção ambiental e danos ambientais causados pela ação humana ocupando as três primeiras posições. 

Na sequência, temos os riscos de doenças infecciosas assumindo lugar que perda de biodiversidade ocupava em 2020. Esse vem adiante e é seguido por um novo e recentemente reconhecido temor relacionado à concentração do poder digital em grandes empresas de tecnologia. 

A lista se encerra com a desigualdade digital ocupando a 7.ª posição dentre os riscos globais mais prováveis. Na classificação por impacto, sem surpreender, o risco de doenças infecciosas ocupa o topo da lista e dois novos riscos são incorporados: i) as dificuldades de manutenção dos meios de sobrevivência, ligadas, por exemplo, ao desemprego – em particular da população jovem que chega ao mercado de trabalho – e à erosão das condições de emprego; e ii) a ameaça das armas de destruição em massa, reafirmando os temores presentes no topo das listas do RRG desde 2013.

Em 2021, segue o RRG, o cenário continuará marcado pelo impacto e pela severidade da pandemia. Certamente por menor espaço de tempo naqueles países que conseguirem avançar rapidamente com a vacinação em massa. Mas a covid-19 deixará marcas profundas em função das barreiras individuais e coletivas que a maior crise sanitária de todos os tempos nos legará. Esse é o alerta que emerge na escolha das quatro áreas centrais de preocupação: desigualdades digitais, privação de direitos pelos jovens, tensões geopolíticas e o aumento das pressões sobre os negócios.

Na digitalização, a aceleração motivada pelo isolamento social ampliou as diferenças entre indivíduos e países, com impactos duradouros sobre desigualdade por meio do seu canal mais poderoso: o acesso à educação – interrompido para tantas crianças e jovens. Além disso, polarização política e incertezas regulatórias acompanham o desenrolar de um mundo mais digital e mais conectado. 

Ainda para os jovens, o desafio se ampliou com a ausência de oportunidades de trabalho se juntando às angústias que se traduzem em revolta e descontentamento. Para as mulheres, anos de avanços de representatividade foram perdidos, na esteira de pressões culturais e oportunidades mais estreitas. No campo geopolítico, o fechamento de fronteiras, a luta pela vacina e os desafios diplomáticos exacerbaram tensões preexistentes e criaram novas. Não menos importante são a pressão sobre os negócios num mundo mais incerto, mais concentrado, mais consciente e em grande transformação.

Tudo isso se traduz em novas fraturas sociais, agora ainda mais expostas. Não só entre nações, mas principalmente dentro de cada país, as diferenças sociais se exacerbaram, ampliando as fendas existentes e impondo desafios maiores para o futuro. 

A mobilidade social, já baixa em tantos países, deverá ser ainda mais reduzida com o impacto da pandemia na educação, refletido no aumento da evasão escolar, na ausência de capacitação adequada e na consequente redução na empregabilidade. A falta de infraestrutura tecnológica continuará alijando famílias do acesso à informação de qualidade, assim como a falta de infraestrutura básica negará a elas condições de vida melhores. A pressão sobre os sistemas de saúde definirá caminhos e probabilidades distintas para camadas diferentes da população, numa separação cruel que se faz na partida da sua condição social. 

No Brasil, tudo isso é pior – e continuará sendo. Afinal, não foi a pandemia que gerou nossa desigualdade social. Mas ela a ampliou, agravando essa fratura que divide o País em dois e engrossando o lado da pobreza com mais um bocado de brasileiras e brasileiros. 

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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