Novos rumos na economia

ANTONIO CORRÊA

ECONOMISTA, DOUTOR PELO IE/UNICAMP, É PROFESSOR DOUTOR DO PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM ECONOMIA POLÍTICA DA PUC-SP, ECONOMISTA, DOUTOR PELO IE/UNICAMP, É PROFESSOR DOUTOR DO PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM ECONOMIA POLÍTICA DA PUC-SP, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2012 | 03h30

DE LACERDA

Todos que tomamos decisões que envolvem aspectos fora do nosso controle precisamos estar atentos aos novos sinais e às novas tendências que determinarão os rumos da economia brasileira. Rejeite o chavão de que "nada mudou", assim como os preconceitos, e faça uma análise pragmática. São mudanças às vezes sutis, mas que, tudo indica, vieram para ficar e deverão representar novos desafios e oportunidades.

As transformações em curso nas políticas econômicas brasileiras apontam para um cenário futuro menos desfavorável à atividade produtiva e aos investimentos. Várias ações foram, ou estão sendo, tomadas para um ambiente mais favorável ao valor agregado local. Destaco algumas delas:

Juros: houve redução de cinco pontos na taxa básica Selic nos últimos 12 meses, apontando para um juro real de cerca de 2% ao ano, considerando a expectativa de inflação para os próximos 12 meses. Os juros para o financiamento do BNDES foram reduzidos e há ações em curso para baixar o custo do financiamento privado aos consumidores e às empresas. Essa mudança tem grandes impactos positivos, a começar pela diminuição do custo de financiamento da dívida pública, mas não só. A queda do custo de oportunidade deve favorecer um maior interesse de grandes fundos investidores em diversificar seu portfólio e investir em projetos.

Taxa de câmbio: o real desvalorizou-se de R$ 1,60, em julho de 2011, para um nível ao redor de R$ 2. O Banco Central (BC) tem envidado esforços para ações visando a evitar a valorização do real. Os juros mais baixos, as intervenções no mercado e o IOF desestimulam o ingresso de capitais voltados para operações de arbitragem, mas os influxos de investimentos estrangeiros diretos e em portfólio já são suficientes para provocar a valorização da nossa moeda. Isso só não está ocorrendo porque o BC tem estado corretamente atento para evitá-la.

Aqui, trata-se de uma mudança de direção importante, pois sinaliza um quadro mais favorável para a produção local, que ganha competitividade relativamente aos produtos importados. Também a exportação de manufaturados é favorecida pelo mesmo motivo.

Elevação de alíquotas de importações: embora não seja desejável, o protecionismo reinante no quadro internacional nos obriga a tomar medidas preventivas. Neste campo, todos os países ficam a dever. No mais das vezes, adotam um discurso liberal, mas são protecionistas na prática. O fato é que quem não se cuidar vai acabar pagando uma parcela maior da conta.

Redução do custo Brasil: aqui, sim, temos ações para melhora da competitividade sistêmica, com impactos mais amplos. Desonerações tributárias e de encargos incidentes sobre a folha de salários favorecem a competitividade dos produtos brasileiros. Nesse campo, outra medida bem-vinda foi o anúncio da redução do custo da energia elétrica.

Concessões públicas: o governo anunciou que ampliará seu programa de concessões na área de infraestrutura, buscando atrair investimentos do setor privado - uma importante ação para viabilizar a eliminação de entraves importantes para o crescimento de longo prazo.

É certo que as medidas citadas, embora na direção correta e revelando importantes quebras de paradigma, ainda são insuficientes para garantir um ambiente isonômico relativamente ao praticado internacionalmente. Mas representam importantes mudanças de rota. É preciso que as transformações em curso não sejam só transitórias, mas perenes, para propiciar um cenário mais favorável à produção e aos investimentos.

Ao contrário de alguns que veem uma deterioração de qualidade da política econômica, os novos rumos apontam para justamente o contrário. O Brasil vem respondendo bem à desordem econômico-financeira que se estabeleceu depois das crises americana e europeia. As transformações domésticas em curso também refletem o cenário de exceção em voga na maior parte do mundo. E, se não as fizéssemos, estaríamos numa situação muito pior do que estamos.

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