Kai Pfaffenbach/Reuters
Kai Pfaffenbach/Reuters

Num mundo Uber, a sorte favorece o freelancer

Empresários estão atualmente ampliando o conceito de conectar consumidores e trabalhadores, no que é chamado de nova economia de compartilhamento

Tyler Cowen, The New York Times

29 de junho de 2015 | 19h30

Com a ascensão de empresas como o Uber, empresários de vários campos estão ampliando o conceito de conectar consumidores e trabalhadores no que é chamado, às vezes, de nova economia de compartilhamento. Existem hoje serviços online para professores particulares, passeadores de cachorros e entrega de pacotes de compras de supermercado, entre outras numerosas opções e é muito provável que estas iniciativas se expandam.

Muitos taxistas não gostam da concorrência do Uber, mas precisamos pensar mais sistematicamente sobre os ganhadores e perdedores que estas novas instituições desenvolvem. A maior conveniência que elas oferecem aos consumidores é evidente, mas elas serão em geral uma coisa boa ou ruim para pessoas no outro lado do mercado, os trabalhadores? Um estudo recente de Jonathan V. Hall do Uber e Alan B. Krueger, um professor de economia na Universidade Princeton, apoiado pelo Uber, sugere que os motoristas do Uber ganham mais que taxistas e motoristas particulares. Um estudo do economista Gene Sperling do Airbnb, em conjunto com a Airbnb, revelou que o serviço ajudou a complementar rendas da classe média.

Recentemente, ao Escritório do Comissário do Trabalho da Califórnia decidiu que um motorista do Uber era um empregado, e não um fornecedor independente. O Uber está apelando da decisão e foi vitorioso em alguns outros Estados. Ainda não sabemos como as leis que regem esses serviços evoluirão, mas as eficiências econômicas de instituições como Uber e Airbnb parecem sólidas.

Tais serviços provavelmente continuarão a se alastrar. Se isso ocorrer, o que mais se poderá dizer de suas implicações mais amplas. Na falta de dados sistemáticos, como os economistas poderão avaliar os efeitos desses novos desdobramentos?

No lado positivo, a chamada economia de compartilhamento permite que trabalhadores usem seu tempo com maior flexibilidade. Motoristas podem ganhar dinheiro sem trabalhar em tempo integral, e sem ter de esperar em pontos de taxi pelo próximo passageiro. Os trabalhadores podem usar seu tempo de folga recém-conquistado para outros fins, como preparar-se para a universidade, ensinar-se a programar ou se oferecer simultaneamente para diferentes serviços de compartilhamento: se ninguém quiser uma corrida, ajudar alguém num reparo doméstico.

Em suma, esses desdobramentos beneficiam os trabalhadores que estão dispostos e são capazes de usar seu tempo livre de maneira produtiva. Esses trabalhadores tendem a ser empreendedores e pessoas que são boas em mudar rapidamente de papéis. Pense neles como disciplinados e ambiciosos comutadores de tarefas. Isso descreve muita gente, mas não, é claro, todo o mundo.

É assim que surgem alguns problemas. Os motoristas do Uber são muito mais propensos a ter um diploma universitário do que os taxistas e motoristas particulares, segundo o estudo de Hall e Krueger. Ele encontrou diferentes marcantes entre os dois grupos: 48% dos motoristas do Uber têm formação universitária ou superior, enquanto essa cifra é de apenas 18% para taxistas e motoristas particulares.

Somente alguns trabalhadores se beneficiam quando cada hora, ou cada intervalo de 15 minutos, está à venda. Uma maneira de colocar o princípio geral é o seguinte: quanto mais eficientes se tornam as tecnologias de mercado, mais importante são as competências e backgrounds humanos para determinar quem vai prosperar e quem não.

Para entender melhor como alguns trabalhadores poderão perder, considere uma situação hipotética em que tais serviços – e todos os serviços freelance e terceirizados – não existissem. Digamos que uma empresa de software recebe contratos periódicos para executar projetos, mas precisa depender inteiramente de seu pessoal corrente em tempo integral. Aí a empresa terá que treinar seus trabalhadores para lidar com uma ampla variedade de projetos possíveis, e com isso a quantidade e o custo da educação corporativa na própria empresa cresce. Mas todas as coisas sendo iguais, como esse treinamento custa alguma coisa à empresa, o salário do trabalhador será mais baixo.

Neste caso, os trabalhadores que se beneficiarão serão os que precisam desse impulso da educação na empresa para adquirir conhecimentos novos. Mas alguns trabalhadores empreendedores poderiam ter aprendido o material por conta própria. Esses trabalhadores recebem mais educação na empresa do que precisam, o que, por sua vez, significa que eles recebem salários mais baixos e poderia estar em pior situação do que estariam numa economia que encoraja a autoformação e as oportunidades de freelance. Uma implicação é que se a ideia do Uber se alastrar, ela poderá desestimular o treinamento corporativo e requerer que os trabalhadores tenham antecedentes educacionais mais fortes. Idealmente, a educação formal deveria se reorientar para preparar as pessoas para posterior autoinstrução e retreinamento.

Os trabalhadores provavelmente serão avaliados de maneiras diferentes também. O motorista do Uber, que pode ser avaliado pelos clientes na web depois da corrida, sem uma interação face a face, tem um incentivo maior para ser mais simpático e oferecer um veículo limpo e garrafas de água, em comparação com o motorista de táxi profissional.

Por enquanto, um problema com muitas avaliações online é que nem toda informação é levada ao público; por exemplo, uma avaliação boa dentro do Uber continua dentro do Uber e não pode ser facilmente exportada para divulgar o motorista para outros serviços ou oportunidades. Talvez no futuro os trabalhadores possam ter a opção de ser certificados pelo Uber e outros serviços de uma maneira mais geral e publicamente verificável. Isso poderá tornar esses serviços úteis para a mobilidade social, e poderá tornar suas credenciais competitivas com as de algumas faculdades e universidades de segunda linha.

Mesmo sem conhecer a importância que os novos serviços terão, já está claro que muitos consumidores gostam deles. Está evidente também que pelo menos alguns trabalhadores podem se beneficiar com os novos arranjos, embora o efeito nos trabalhadores menos educados pareça ser uma questão importante.

Mesmo assim, não deveríamos estar tentando voltar no tempo, e sim imaginar como extrair o melhor deste novo e fascinante mundo, embora por vezes perturbador. Estamos apenas começando. / Tradução de Celso Paciornik

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