Daniel Teixeira/ Estadão
Mateus Soares, de 15 anos, dedica 1 hora por dia para ler sobre economia e acompanha a movimentação da Bolsa pelo Home Broker Daniel Teixeira/ Estadão

Número de ‘investidores mirins’ em corretoras e na Bolsa dispara no País

Em um ano, total de pessoas de até 15 anos na B3 dobrou, enquanto contas de menores de idade na XP cresceram 370% em 2 anos; para especialista, pais devem usar reserva para ensinar conceitos como definir prioridades e esperar resultados

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 05h00

Mateus Soares está guardando dinheiro para a aposentadoria. Todos os dias, ele gasta duas horas lendo notícias sobre empresas e livros sobre a mecânica do mercado financeiro. Tudo isso para pautar as decisões que ele tomará ao investir na Bolsa para, quem sabe, não precisar depender do benefício do INSS na velhice. Esse seria um perfil comum de investidor cuidadoso, não fosse por um fator: Mateus tem 15 anos.

O estudante do ensino médio faz parte de uma tendência que ganha cada vez mais força no País: a abertura de contas em corretoras e na Bolsa por “investidores mirins”, de idade a partir de 6 anos. No grupo XP, que concentra também corretoras como a Rico e a Clear, o total de investidores de até 18 anos saltou 370% nos últimos dois anos. Nos 12 meses encerrados em setembro, o número de contas de pessoas de até 15 anos na B3 mais do que dobrou, passando de 12 mil.

Para Bettina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos, trata-se de uma evolução da antiga caderneta de poupança – com a diferença de que os pequenos, agora, podem assumir o controle da própria vida financeira: “Muitos pais usam essas contas como uma forma de planejamento financeiro para o filho. E também é uma forma de ensinar à criança sobre dinheiro, de trabalhar conceitos como a ideia de definir prioridades e esperar (resultados).” 

Nesse grupo de crianças e adolescentes com apetite de investidor “gente grande”, há diferentes perfis. Mateus, por exemplo, usa o dinheirinho que ganha com pequenos trabalhos – e aporta cuidadosamente cerca de R$ 120 por mês ao seu colchão de dinheiro. “Acho que investir é para todos e não precisa de grande valor. Eu faço isso pensando no longo prazo”, conta.

Já a família Collina, de São Paulo, usa o investimento como uma forma de garantir que os dois filhos – Leonardo, de 6 anos, e Guilherme, de 3 – tenham uma reserva financeira quando completarem 18 anos. O engenheiro João Paulo da Collina e a psicóloga Aline abriram uma conta no nome do primogênito, mas já explicaram a Leonardo que o dinheiro deve ser dividido entre os irmãos.

Na carteira de investimentos de Leonardo estão papéis como o da Ambev e também administradoras de shopping centers. “Quando a gente foi a um shopping, eu expliquei a ele que ele era dono de um pedacinho daquilo. E, quando ele está tomando o guaraná de que gosta, eu falo sobre a ação da Ambev”, explica o engenheiro. Aline e João Paulo esperam que, quando chegar a hora de sacar o dinheiro, os filhos invistam na própria formação. “Educação é o melhor investimento”, dizem.

Em uma categoria própria entre os investidores mirins está Felipe Molero, de 12 anos, mais conhecido no mundo das finanças como “Kid Investor”. Ele abriu um canal de investimentos no YouTube no último mês de abril que já contabiliza mais de 75 mil inscritos, no site de vídeos e no Instagram (leia aqui o perfil).

Vontade x meta

Coordenador de educação financeira da XP, Thiago Godoy acredita que existe espaço para ampliar o debate positivo sobre dinheiro no Brasil – e mostrar às crianças que não há nada de errado investir bem o que foi ganho honestamente. Mas, mais importante do que isso, saber lidar com dinheiro pode ser uma forma de se ensinar às crianças valores que podem acompanhá-las pelo resto da vida. Uma das principais, explica o especialista, é deixar clara a “diferença entre necessidade e desejo”.

Antes de entrar na XP, Godoy fez parte de diversos programas de educação financeira tanto do governo federal quanto de organismos internacionais. “O que as pesquisas mostram é que a educação financeira faz diferença na vida adulta”, explica. E ele ressalta que a chave para o aprendizado não está no volume de dinheiro. “É importante promover hábitos, ensinar a cultura da prevenção e a noção de que a independência financeira é conquistada no longo prazo.”

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Para o Kid Investor, Bolsa não é brincadeira

Felipe Molero, 12 anos, diz que motivação para canal veio do ‘desejo de ganhar dinheiro’

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 05h00

O tom empostado da voz e a certeza com que fala sobre o mercado financeiro pode fazer muita gente duvidar, mas Felipe Molero, o Kid Investor, mal completou 12 anos. Com 73 mil seguidores entre YouTube e Instagram, ele não faz rodeios sobre o que motivou sua aventura pelo mundo da Bolsa de Valores: “Veio simplesmente do desejo de ganhar dinheiro. Observando as pessoas muito ricas, pensei: como é que elas fizeram para chegar lá?”

E descobriu que os muito ricos corriam o risco de investir em ações. Assim, após algumas tentativas frustradas de se tornar youtuber – aos 6 anos, criou um canal sobre o jogo Minecraft; aos 9, falava sobre política para pouquíssimos seguidores –, Felipe viu sua sorte mudar ao adotar a “persona” Kid Investor. Em seis meses, tornou-se o símbolo do fenômeno dos “investidores mirins” no País.

À medida que o Kid Investor ganha seguidores, os pais de Felipe – o médico Roberto e a advogada Silmara – acompanham a carreira do filho, que já monetiza vídeos em redes sociais. Para Roberto, uma dificuldade é lidar com os comentários negativos sobre os vídeos. “Ele diz para eu não ligar para crítica, mas eu que tenho de falar isso para ele. Uma vez que ele ficou um pouco exaltado, quando eu não liguei muito”, conta Felipe.

O pulo do gato do Kid Investor foi virar meme. Uma página com 3 milhões de seguidores usou um dos vídeos – que unia duas paixões de Felipe, Bolsa e Minecraft – para criar imagens engraçadinhas. “Eles estavam me zoando, mas acabou me ajudando muito”, lembra o youtuber. E, como ele mesmo diz, no mundo dos negócios “é muito importante conhecer pessoas e fazer networking”.

Mas Felipe sabe que é um investidor em situação privilegiada e pode se dar ao luxo de colocar todo o dinheiro na Bolsa. “Meu pai não pode correr tanto riscos, ele tem de pagar as contas. Já eu não tenho gastos fixos e tenho muito tempo pela frente”, compara. Mesmo com essa vantagem, Felipe sabe que, para atingir seu objetivo – ficar rico –, será necessário empreender.

E já começou a dar os primeiros passos nessa direção. Comprou um lote de fones de ouvido na China e revendeu com um bom lucro. E também já canibalizou o negócio dos outros. “Na escola, sabia que o preço de algumas coisas na cantina era muito alto. Então, comprava a mesma coisa e vendia mais barato.” O Kid Investor diz que ganhou sozinho quase a totalidade do dinheiro que hoje aplica no mercado.

Aos que querem seguir seus passos, ele reserva alguns conselhos: “Tenha disciplina e constância, tire uma ou duas horas por dia para estudar. A gente está falando de dinheiro.” Do alto de seus 12 anos, Felipe alerta: Bolsa não é brincadeira de criança.

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‘Talvez a nova geração vá dar um valor extremo ao dinheiro’, diz Rosely Sayão

Segundo a psicóloga, é inevitável que a criança se interesse por assunto, até porque ídolos de hoje, de youtubers a jogadores de futebol, têm tendência a ostentar

Entrevista com

Rosely Sayão, psicóloga e colunista do 'Estadão'

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 05h00

A psicóloga Rosely Sayão diz que o fenômeno dos “investidores mirins” pode ser o prenúncio de uma mudança de comportamento na sociedade. A geração atual de jovens, de maneira geral, deu muito pouca importância para dinheiro. Agora, porém, pode estar vindo por aí uma geração para a qual o assunto será extremamente importante.

Para Rosely, é inevitável que as crianças se interessem por dinheiro, ainda mais em um mundo em que ídolos – de youtubers a jogadores de futebol – têm tendência a ostentar. Ao Estadão, a psicóloga falou ainda de ferramentas que os pais podem usar para ensinar às crianças o valor simbólico do dinheiro.

Leia os principais trechos:

É necessário introduzir o tema dinheiro às crianças?

É inevitável que a criança ouça falar em dinheiro. Vivemos em um mundo que preza muito o consumo. Então ela naturalmente vai pedir alguma coisa e vai ouvir que é muito caro. É necessário explicar, dentro da experiência da criança, que há prioridades para o dinheiro da família. Nem sempre ela vai aceitar, mas vai começar a entender.

Como levar o ensinamento sobre economia à prática?

O dinheiro tem um valor simbólico que as crianças não entendem. Ele serve para comprar um brinquedo, mas também representa o trabalho de uma pessoa. Você pode ensinar sobre dinheiro dando uma “semanada” – desaconselho a mesada, pois um mês é um prazo muito longo para uma criança. Se o dinheiro da semanada é para um lanche especial na escola, que valha o ensinamento: se ela gastar tudo em um dia, vai ficar sem aquilo até o fim da semana. Se ela ganhar o lanche de qualquer forma, não vai aprender.

E se os pais perceberem que a criança se interessa muito por dinheiro?

É natural, pois os ídolos de hoje – youtubers e jogadores de futebol – falam muito de dinheiro, dizem o quanto ganham. E muitas vezes é um dinheiro que a criança não vai ganhar na vida inteira. Mas dá para explorar outros temas a partir daí, como: o que você acha que uma pessoa rica deve fazer? Acho que tivemos uma geração que se preocupou pouco com dinheiro. Talvez, agora, entraremos em uma que dê um valor extremo a ele.

Afinal, criança deve investir?

O aprendizado está em lidar com o dinheiro em saber como gastá-lo, e não em investi-lo. Se a criança pode investir todo seu dinheiro que tem, não é um exercício de como funciona a vida adulta, quando as pessoas têm de pagar contas.   

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