Número de ocupados cresce, mas o rendimento cai - e muito

Cerca de R$ 2,2 bilhões de rendimento dos trabalhadores nas seis principais regiões metropolitanas do Brasil foram subtraídos da economia em julho, comparativamente a igual mês do ano passado. Em julho do ano passado, os 17,58 milhões de ocupados nas seis regiões pesquisadas pelo IBGE, que recebiam em média R$ 996,92 mil, somavam uma renda bruta de R$ 17,52 bilhões. Em igual mês deste ano, o número de ocupados subiu para 18,33 milhões de pessoas, mas a renda caiu para R$ 833,5, o que reduziu a renda bruta para R$ 15,28 milhões. Os dados foram calculados a partir dos resultados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE de julho. Queda similar de um ano para o outro já havia sido registrada em junho. Dados do Ministério da Fazenda apontam que a massa salarial real caiu de R$ 17,79 bilhões em junho do ano passado para R$ 15,44 bilhões em igual mês deste ano, com redução de R$ 2,34 bilhões. O chefe do departamento econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, disse que a queda brutal do rendimento, com a retirada de bilhões da economia, tem sido o principal fator para as consecutivas reduções nas vendas do varejo. No primeiro semestre deste ano, segundo o IBGE, as vendas do comércio caíram 5,57% ante igual período do ano passado. O economista ressaltou que, para o setor, a renda é um fator mais importante para o desempenho das vendas do que as taxas de juros. "Essa queda na renda, do ponto de vista do comércio, é mais importante que os juros, que afetam mais as vendas de bens duráveis. O rendimento afeta todos os segmentos, inclusive os essenciais", disse. Thadeu de Freitas atribui ao crescimento da inflação a partir do final do ano passado o principal motivo para as reduções da renda. "O poder de compra dos trabalhadores foi praticamente erodido a partir do final do ano passado", disse. Fundo do poçoA queda no rendimento dos trabalhadores registrada em julho, que já vinha corroendo o poder de compra nos meses anteriores, é considerada como "o fundo do poço" pelos economistas. O analista de mercado de trabalho da Tendências Consultoria, José Márcio Camargo, disse que a redução na renda dos ocupados tem sido provocada especialmente pela inflação e a retração da demanda, que inibe os investimentos e prejudica o emprego e a folha de pagamento das empresas. Para ele, os dados registrados até julho refletiram o pior momento do rendimento neste ano e a partir de agosto a renda deverá refletir a redução e o controle da inflação. "A recuperação do rendimento ocorre via queda da inflação e retomada do nível de atividade, porque a empresa com mais demanda empresa mais gente", disse. Para Camargo, com a queda da inflação os salários reais crescem, o aumento da renda reflete na demanda que, por seu lado, tem impacto positivo na retomada da atividade, o que estimula a geração de emprego. Mas ele alerta que, ainda que o início desse ciclo comece agora, os efeitos só serão sentidos mais efetivamente a partir do último trimestre deste ano e, sobretudo, no ano que vem. "Em 2004 é que os sinais de recuperação estarão mais claros", disse. Carlos Thadeu de Freitas concorda. Para ele, "o fundo do poço já foi alcançado, porque à medida que os preços estabilizam ou caem, o rendimento melhora". Apesar de prever uma melhora no quadro do rendimento, ele avalia, assim como Camargo, que "recuperação do poder de compra, mesmo, só a partir do ano que vem". Mas a queda nos juros já iniciada pelo Banco Central vai ter efeitos imediatos, ainda que iniciais, sobre as vendas financiadas no varejo, segundo avalia Thadeu de Freitas. "Há uma certeza de que os juros vão cair ainda mais, mas não agora. Isso vai adiar um pouco a volta dos consumidores às compras a prazo", disse.

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