Números impressionantes

Do total de indenizações da seguradora Líder, responsável pelo DPVAT, 75% são relacionados a acidentes de moto, ou seja, três em cada quatro casos

Antonio Penteado Mendonça*, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 05h00

Nunca havia prestado atenção nos detalhes dos números trágicos das indenizações de DPVAT pagas pela Seguradora Líder ao longo de um ano. Era comum escrever que, em 75% dos acidentes indenizados, as indenizações eram destinadas a vítimas de acidentes com motos. Era um número que me chocava, mas confesso que nunca atentei para o fato de que 75% significa 3 em cada 4 acidentes.

Setenta e cinco por cento é algo um pouco abstrato. Já 3 indenizações em cada 4 dá a real dimensão da tragédia das motocicletas rodando pelas vias brasileiras. Entre as centenas de milhares de acidentes indenizados anualmente, 3 em cada 4 têm pelo menos um motociclista envolvido e, como não pode deixar de ser, é ele quem leva a pior, gerando a indenização paga pelo seguro obrigatório.

Quando nos lembramos que o DPVAT indeniza morte, invalidez permanente e despesas médico-hospitalares, esse quadro assume uma dimensão ainda mais apavorante. Nele não estão os milhares e milhares de acidentes sem vítimas.

Para complicar mais, os testes de álcool no sangue dos motoristas apontam que uma parte mais do que significativa dos envolvidos em acidentes de trânsito consome bebidas alcoólicas e dirige, como se não fosse proibido ou não estivesse mais do que comprovado o tamanho do estrago feito pelas bebidas alcoólicas entre os motoristas e passageiros de todos os tipos de veículos que, com ou sem culpa, se envolvem em acidentes de trânsito.

De acordo com a Seguradora Líder, perto de 3 em cada 4 das vítimas dos acidentes de trânsito são da região Nordeste. Região onde o uso das motocicletas cresce em ritmo acelerado e onde esse uso não é controlado com o rigor necessário, tanto que são comuns imagens mostrando três, quatro ou mais pessoas encarapitadas numa única motocicleta, que também não se furta de levar, além delas, um animal de estimação, normalmente um cachorro, segurado debaixo do braço de um dos passageiros.

Além do número acima do permitido de ocupantes das motocicletas, muitas vezes 4 ou 5 pessoas, as imagens de televisão estampam com clareza a falta de cuidado, a displicência e a irresponsabilidade dos motociclistas, para não falar na omissão do Estado na fiscalização do trânsito.

Não cabe aqui analisar as razões que levam a isto, mas elas encontram amparo na sociologia e estão dentro do desenho da sociedade brasileira atual.

A falta de respeito à hierarquia, a indiferença aos preceitos legais, a falta de educação dos motoristas são a explicação mais visível e mais fácil. E para efeitos deste artigo são suficientes. Os porquês devem ser analisados, afinal, a correta identificação e quantificação do fenômeno é a melhor, senão a única forma de se enfrentar o problema de frente, com medidas corretivas capazes de começar a mudar o jogo.

A questão é que não se sente as autoridades da maior parte dos Estados brasileiros muito preocupadas em mudar a realidade atual. Políticas de trânsito vão muito além de se aplicar multas. Elas passam pela educação dos motoristas e pelo combate à corrupção, que permite que milhares de motoristas despreparados recebam suas carteiras de habilitação; permite que veículos caindo pelas tabelas e sem a menor condição de uso sejam licenciados; que motoristas flagrados dirigindo alcoolizados saiam da blitz como se nada tivesse acontecido.

Ou mudamos ou vai ficar pior. O duro é que a segunda opção, hoje, é a que está mais próxima de acontecer. O resultado dramático é o último 75% do artigo. De acordo com as estatísticas, 3 em cada 4 mortos em acidentes de trânsito são jovens, do sexo masculino e com menos de 25 anos de idade.

Não por acaso, a média é bastante parecida com a dos assassinatos que ceifam a vida de 63 mil brasileiros todos os anos. Nestes crimes, as vítimas, em sua grande maioria, também são jovens, do sexo masculino e com menos de 25 anos de idade.

Quer dizer, o brasileiro não precisa se horrorizar com os números da guerra civil da Síria. Entre nós, anualmente, morrem mais de 100 mil pessoas vítimas de acidentes de trânsito e de assassinatos. É um número para uma profunda reflexão. 

*ANTONIO PENTEADO MENDONÇA É SÓCIO DA PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA E SECRETÁRIO-GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS (APL)

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