Números revisados da Cepal evidenciam crise na AL

A crise econômica na América Latina está cada vez mais evidente. As estimativas começam a se materializar com a revisão das perspectivas de crescimento, que, agora, mostram a região entrando em recessão, de acordo com dados da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal). Em 2000, os países latino-americanos haviam crescido, em média, 4,1%.Esse organismo das Nações Unidas havia projetado, no início deste ano, uma expansão de 1% para o PIB da região em 2002. Em abril, os economistas do Centro de Projeções Econômicas e Estatísticas da Cepal revisaram suas estimativas com os dados finais de 2001 e já projetavam um crescimento negativo de 0,2%. Agora, uma segunda revisão, que inclui dados do primeiro trimestre de 2002, mostra que a economia latino-americana poderá cair cerca de 0,5%, conforme apurou com exclusividade a Agência Estado. O número oficial será anunciado em coletiva à imprensa pelo secretário geral da Cepal, José Antonio Ocampo, no dia 1º de agosto."As perspectivas de crescimento para a região estão muito ruins", disse o ex-diretor do Centro de Projeções Econômicas e Estatísticas, Pedro Sainz, hoje consultor da Cepal. Sem saber ainda o número exato a ser anunciado nos próximos dias, Sainz, responsável hoje por temas sociais e de pobreza, comentou que a América Latina está começando a sentir o impacto da crise de confiança dos mercados financeiros e da desaceleração do comércio mundial. "O único mecanismo de defesa que a região tem para enfrentar esses dois problemas é crescer menos, já que, ao contrário dos Estados Unidos, por exemplo, os países da região não podem aumentar seu gasto fiscal", explicou o economista, por telefone de Santiago.De acordo com ele, aumentar o gasto público para tentar crescer provocaria um "verdadeiro escândalo", principalmente porque as maiores economias, como a brasileira e a argentina, vão enfrentar eleições presidenciais neste e no próximo ano, respectivamente. "Na medida em que o comércio mundial mostra um crescimento muito lento e a desconfiança dos mercados financeiros é cada vez maior, a América Latina acaba ficando sem instrumentos para adotar políticas contracíclicas. Há muito pouco a fazer", afirmou Sainz.Além disso, acrescentou o economista, "o prolongamento da crise argentina é outro fator que está fazendo muito mal à economia latino-americana, já que seus efeitos são cumulativos". No primeiro trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina se contraiu 16,3% e, até o final do ano, o PIB do país deverá fechar com uma queda de no mínimo 12%. Os números da Cepal incluem a dura recessão argentina.Instabilidade políticaSainz discorda de alguns analistas, principalmente europeus, que afirmam que a instabilidade política na região é a maior ameaça para a recuperação econômica da América Latina. Ao contrário, disse o consultor da Cepal, são os fatores econômicos que estão influenciando o aspecto político do Continente. "Não creio que a situação política seja o elemento central dos problemas da América Latina. Isso sim, engrossa as dificuldades." ?Se Lula não fosse candidato?, indagou o economista, "vocês acham que a situação econômica no Brasil estaria melhor?". De acordo com ele, a crise econômica na Argentina, por exemplo, precedeu à crise política, que acabou derrubando, em dezembro, o então presidente Fernando de la Rúa.Para ele, os políticos (candidatos à presidência da República), pelo menos no Brasil, estão sendo muito prudentes em suas declarações, garantindo segurança ao capital estrangeiro. "Em geral, os governos latino-americanos não estão adotando políticas econômicas que se afastam dos padrões exigidos pelos investidores internacionais. O problema mesmo é a situação ruim das economias", disse Saínz.E é essa crise que começa a corroer os fundamentos econômicos das principais economias da região, repercutindo na saúde do resto dos países. O risco país, que mede a percepção de risco dos investidores internacionais, cresceu em sete das economias mais importantes a uma média de 21% nos últimos dois meses. Por outro lado, as perspectivas de investimento estrangeiro direto na América Latina para este ano são de uma queda de 30%. De acordo com a Cepal. Esse volume não deverá passar de US$ 56 bilhões.Retrato da ALO Brasil, que enfrenta um processo eleitoral complicado em outubro, mostra uma dívida pública de R$ 654 bilhões, cerca de 55% do PIB. O risco país disparou de 800 pontos básicos para quase 1,6 mil em apenas dois meses. O real despencou e chegou ao seu pior nível em oito anos de história, com uma taxa de 2,88 reais por dólar. Com isso, a moeda já acumula uma depreciação de 21% somente este ano.Na Argentina, o presidente Eduardo Duhalde não consegue encontrar um candidato em seu partido (Partido Justicialista) para as eleições (antecipadas) de março de 2003. As perspectivas econômicas do país são as piores da América Latina. Depois de fechar o primeiro trimestre com uma queda de 16,3% no PIB, o país deverá fechar o ano com uma recessão de 12%, entrando quase no quinto ano de contração econômica consecutiva.O Uruguai, o mais afetado pela crise argentina, se viu obrigado a mudar sua política monetária e adotar o regime de livre flutuação do peso. O governo decidiu ainda demitir funcionários públicos e reduzir impostos para o setor da construção. O desemprego no país já chega a 15,6%. Para conseguir um socorro adicional de US$ 1,5 bilhão do FMI, o governo teve ainda de cortar gastos públicos para tentar chegar a um déficit fiscal de no máximo 2,5% do PIB. A popularidade do presidente Jorge Batlle não passa de 19%.O Paraguai, além da crise política, com duras repressões a manifestações contrárias ao governo, não consegue pagar US$ 18 milhões referentes aos juros de sua dívida e, pelo terceiro mês consecutivo, as contas fiscais do governo chegaram praticamente ao fundo do poço. O governo do presidente Luis González Macchi não consegue pagar ainda 50% do funcionalismo público, nem policiais e nem militares. O governo reconheceu esta semana que priorizou outros gastos, como o pagamento de parte da dívida externa, que até março somavam US$ 2,2 bilhões.A Bolívia arrasta há quatro anos uma crise econômica, que se refletiu no entusiasmo do povo pelas eleições presidenciais. O ex-presidente Gonzalo Sanchez de Lozada poderá voltar ao governo, por exemplo, com apenas 22,4% dos votos. Pior, nenhum outro partido político está disposto a oferecer apoio, colocando em risco a governabilidade a partir de 6 de agosto deste ano, quando o novo presidente tomará posse.A Colômbia está à beira de uma guerra civil, já que as Farc mandaram executar os governadores que se neguem a deixar seus cargos. O presidente eleito, Álvaro Uribe, não encontra financiamento para a prometida "mão dura" contra a guerrilha e o narcotráfico. As perspectivas de crescimento, de 1,5%, são insuficientes para gerar novos empregos. No país, pouco mais de 60% da população é pobre e apenas 20% concentra metade da riqueza nacional.No Peru, o presidente Alejandro Toledo enfrenta uma fortíssima queda em sua popularidade. Hoje não chega sequer a 17%, depois de ter atingido quase 80%. Mais da metade dos peruanos vive na pobreza. Há menos de uma semana, o presidente enfrentou uma crise de gabinete e os novos ministros nomeados para a área econômica são menos próximos de Washington, o que deve dificultar ainda mais a economia do país.

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